|
Copom se reúne e
lobby dos bancos tenta aumentar juros
Não há inflação, capacidade ociosa é estável e salário cresceu menos que a
produtividade. Nem os costumeiros pretextos ficaram de pé
Sempre, às vésperas de toda reunião do Conselho
de Política Monetária do Banco Central (Copom), escancara-se aquele lobby de
banqueiros, especuladores, seus porta-vozes na mídia, e jurocratas em geral, com
o objetivo de aumentar a taxa básica de juros. Porém, jamais outra reunião do
Copom mobilizou tanto cinismo e falta de escrúpulos (inclusive aquilo que alguns
chamam de “desonestidade intelectual” - como se ela fosse diferente das outras
desonestidades) quanto a desta terça e quarta-feira.
Até o presidente da República, velho adversário
das taxas escorchantes de juros, quiseram envolver no lobby. De uma declaração
genérica do presidente Lula na sexta-feira - a de que “não será a redução de
0,25, a manutenção de 11,25% nem o aumento de 0,25 que trará qualquer transtorno
à economia” - tentaram extrair uma aprovação para o aumento de juros.
Interessante é que esses são os mesmos que pregam que o presidente não pode
interferir nas decisões do BC. Mas, na hora de tentar aumentar os juros,
recorrem a uma falsificação do significado de suas palavras. Qualquer praticante
do conto do paco é mais honesto, além de correr mais riscos.
A resposta veio em menos de 24 horas. No sábado, depois que a “Folha de S.
Paulo” estampou como manchete “Lula dá aval a aumento de juros”, um repórter
disse ao presidente: “Tem gente achando que o senhor disse ontem que os juros
podem subir”. Comentário de Lula: “Quem acha isso está louco”.
CICLO
Em suma, o que Lula afirmou, ao visitar um país
estrangeiro, foi que uma ou outra ou nenhuma oscilação pontual nos juros não
seria grande problema para a economia. Mas é evidente que ele não pregou que o
Copom aumentasse os juros em sua reunião desta semana – mesmo porque os adeptos
da medida não querem uma pequena oscilação pontual, mas “um ciclo” de aumentos
de juros até dezembro de 2,5 pontos percentuais (cf. o artigo do ex-ministro
Delfim Netto reproduzido parcialmente em nossa última edição; o BC, no Relatório
Focus do último dia 11, dissemina a “expectativa” de um aumento de 1,5 até
dezembro, atribuindo, como é sua rotina, tal expectativa ao “mercado”).
Mesmo um aumento pontual da taxa de juros,
apesar de não ser um arraso para a economia, significaria um aumento nas
transferências do Tesouro para os cofres dos bancos, sobretudo os estrangeiros –
num país cuja dívida pública líquida monta a R$ 1.157.004,93 (Boletim do BC,
02/2008). Portanto, um aumento isolado, pontual dos juros, se não afeta o
conjunto da economia, afetaria as finanças do Estado, como lembrou o “Monitor
Mercantil” (v. o artigo “Partido do juro alto em nova ‘pajelança’: Lobby dos
bancos por elevação da Selic cresce na véspera da reunião do Copom”, MM, 14/04).
Porém, um aumento continuado na taxa básica de
juros (Selic) teria um efeito asfixiante sobre o crescimento, travando não
apenas o consumo – como é intenção declarada do BC – mas também os
investimentos. Em síntese, travando tanto a oferta quanto a demanda: garroteando
a produção em prol da especulação desabrida e o consumo vital da maioria em prol
da alucinada ganância de uma minúscula casta jurássica. O que, por sinal, já
aconteceu uma vez, quando, após o crescimento de 5,4% em 2004, seguiram-se dois
anos de estrangulamento, devido ao aumento dos juros.
A maior aberração é que não existe motivo, nem
mesmo os costumeiros pretextos, para um aumento de juros agora – quanto mais
para iniciar uma escalada nos juros, tal como a descrita pelas “expectativas”
que mencionamos. Existe apenas vontade de empanturrar-se mais ainda com a
especulação, avidez por roubar o Tesouro, para usar uma expressão corrente,
popular - e exata.
Primeiro, nem o próprio BC conseguiu fabricar
uma ameaça de surto inflacionário, justificativa habitual para o aumento de
juros. Como observa o ex-ministro Delfim Netto, o último Relatório de Inflação
do BC faz uma projeção central (ou seja, aquela que está no centro das
probabilidades) de 4,6% para este ano e de 4,4% para o próximo ano. Em suma, o
próprio BC faz uma projeção de queda da inflação até dezembro de 2009. Mesmo
agora, quando, às vésperas da reunião do Copom, apareceram gralhas falando do
aumento da inflação, ela está, pelo IPCA de 12 meses, em 4,6% - e metade dela é
devida ao preço dos alimentos, uma alta de preços localizada, que não afeta o
conjunto da economia, conseqüência da especulação com commodities no mercado
internacional (como, aliás, com outros termos, apontou o ministro da Fazenda,
Guido Mantega). É preciso ser idiota – ou vigarista – para atribuir essa alta no
preço dos alimentos a um excesso de consumo pelo povo.
Ao mesmo tempo, há setores onde os preços estão
em desaceleração – o setor de serviços, por exemplo – sem que um desses
indivíduos proponha que os juros sejam reduzidos por causa disso.
Porém, antes de tudo, é preciso observar que o
teto da meta de inflação é 6,5%. Logo, mesmo para os acólitos dessas metas, a
inflação está longe de ultrapassá-las.
Segundo, a capacidade ociosa da indústria – isto é, a capacidade ainda não
utilizada – permanece estável, sem sinais de esgotamento. Portanto, mesmo
considerando uma perspectiva um pouco mais longa, as empresas estão em condições
de suprir a procura por mercadorias, sem desabastecimento e alta de preços. A
capacidade ociosa até aumentou: de 16,94% em janeiro para 17,10% em fevereiro
(último dado divulgado pela Confederação Nacional da Indústria).
Ou seja, ainda que minimamente, aumentou a
capacidade da indústria de satisfazer um aumento de consumo, o que se deveu ao
aumento da sua capacidade instalada, que somente em 2007 elevou-se em 7% –
conseqüência direta do crescimento em mais de 30% nos investimentos em máquinas
e equipamentos, ocorridos nos últimos 3 anos (dados do IBGE e da FGV). Aliás, os
investimentos têm crescido mais do que o dobro do crescimento do consumo (em
2007: 13,4% contra 6,5%).
Terceiro, como ressaltou Delfim, os salários (a
capacidade de consumir da população) têm crescido menos que a produtividade (a
capacidade de produzir mais no mesmo intervalo de tempo) da indústria.
É significativo que não exista ninguém, fora da
camarilha mencionada no início desta matéria, defendendo o aumento de juros
neste momento. Todos são contra, ainda que politicamente possam estar à direita,
à esquerda ou ao centro, porque o único motivo para aumentar os juros agora
seria beneficiar quem lucra com os juros. Só isso - e nada mais.
CARLOS LOPES
|