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Pochmann:
investimento cresce
acima do consumo há 41 meses
O presidente do Instituto de Pesquisa Econômica
Aplicada (Ipea), Márcio Pochmann, em entrevista ao HP, analisa que há uma
“discrepância entre a postura do Banco Central e a maior parte do governo Lula
comprometida com o desenvolvimento nacional”. Segundo ele, “a elevação dos juros
significaria a possível interrupção do ciclo de investimentos” e alerta para a
“financeirização da economia”.
HP - Como o senhor avalia a sinalização de aumento da taxa Selic na
ata do Copom e o recente relatório de inflação do BC?
Pochmann - Nós estamos transitando de uma convergência política
basicamente assentada na estabilidade monetária para uma convergência em torno
do desenvolvimento nacional. Estamos convivendo com sinais discrepantes, de um
lado a postura do Banco Central, que reflete um antigo compromisso em torno da
estrita estabilidade monetária, e, do outro lado, talvez a maior parte do
governo Lula, comprometida com a temática do desenvolvimento do país.
HP - O aumento dos juros contraria setores, como a CNI, que afirmam
que houve redução no nível de capacidade instalada da indústria.
Pochmann - A melhor política de combate à inflação de demanda é
justamente a ampliação dos investimentos que permita a capacidade de produção do
país crescer, inclusive em condições suficientes para atender a demanda interna.
É isso que nós estamos verificando nos últimos 41 meses: o investimento cresce
acima do consumo. A elevação dos juros atua sobre todo o consumo, e
significaria, inclusive, a possível interrupção do ciclo de investimentos.
Porque, se os juros sobem, o investimento produtivo deixa de ser atrativo,
fazendo com que se alimente ainda mais a cadeia da financeirização do país.
HP - De que forma os juros altos prejudicam o setor produtivo?
Pochmann - É a reprodução do processo de financeirização do qual a
economia brasileira encontra-se prisioneira. De um lado os recursos que vêm para
operar no mercado financeiro contam com privilégios de não serem tributados; a
taxa de juros aqui praticada, com diferencial em relação a outros países,
continua sendo um estímulo à atração de recursos praticamente não comprometidos
com o investimento produtivo, que permite justamente ganhos comparativamente
muito superior a outros países e a outras áreas de investimento, e contribuem
para a valorização da moeda nacional, do real, que torna mais difícil as
exportações nacionais e atraem ainda maior importação, comprometendo parte da
produção nacional por produtos importados.
HP - O Estado brasileiro está preparado para enfrentar os desafios do
desenvolvimento nacional?
Pochmann - As duas últimas décadas foram muito negativas do ponto de
vista da estruturação de uma sociedade mais avançada, justamente porque havia a
identificação de que reduzindo o papel do Estado nós teríamos um avanço do setor
privado nacional. E o que nós verificamos foi justamente o contrário. A redução
do Estado na economia significou inclusive uma redução do setor privado
nacional. Exemplo disso é que em 1990 das 500 maiores empresas nacionais 2/3
eram constituídas de empresas estatais e privadas nacionais. E 1/3 eram empresas
estrangeiras. Em 2006, as 500 maiores empresas que operam no Brasil praticamente
2/3 são de empresas estrangeiras e 1/3 de empresas privadas nacionais e
estatais. Quer dizer, recuperar o papel do Estado significa em primeiro lugar a
identificação de que há um déficit do Estado do ponto de vista da organização de
um novo padrão de desenvolvimento. E ao mesmo tempo, compreender que o
enfrentamento da questão social requer políticas de um novo tipo que passem
necessariamente por uma maior intervenção do Estado, seja no âmbito da Educação,
da Cultura, da Saúde, entre outras tantas áreas que são fundamentais para o
desenvolvimento civilizado de um país.
HP - Como o sr. avalia a entrada recorde de investimento direto
estrangeiro e ao mesmo tempo o recorde de remessa de lucros para o exterior?
Pochmann - Ao contrário da China que utilizou-se dos investimentos
estrangeiros para capturar e difundir a tecnologia, nós, no Brasil, temos
recebido investimentos estrangeiros, passamos por uma grande abertura, de grande
internacionalização da economia nacional, sem que isso viesse acompanhada de
compartilhamento tecnológico. Ou seja, a internacionalização do país tem
significado o crescimento de nosso dependência em termos de acesso à tecnologia.
Eu diria que é inexorável que o investimento direto do exterior significará o
crescimento da transferência dessas mesmas empresas em termos de lucro e
rentabilidade para suas matrizes. Nesse sentido, o Brasil precisaria de uma
visão do longo prazo em termos de construção e fortalecimento de grandes
empresas. Nós estamos caminhando num mundo para, talvez, a existência de não
mais do que 500 grandes corporações transnacionais dominando qualquer setor da
atividade econômica. A China pretende ter 150 das 500 maiores empresas do mundo.
O Brasil tem 5 empresas tão somente. A Vale do Rio Doce, a Petrobrás, o Banco do
Brasil, o Itaú e o Bradesco. O Brasil tem que ter uma visão de protagonismo na
construção de grandes empresas nacionais que possam disputar um mercado cada vez
mais restrito constituído pelas grandes corporações transnacionais.
HP - É possível evitar com a fusão da Oi e Brasil Telecom o que
aconteceu com a Ambev?
Pochmann - Eu entendo que a experiência - inclusive o BC participou na
construção de uma grande empresa da indústria de bebidas e esse esforço se
mostrou ineficaz - dessa grande empresa nacional que acabou sendo vendida para
uma grande empresa internacional tornou-se um caso para ser melhor estudado para
que não venhamos a repetir esse erro passado. Certamente medidas que possam
evitar a transferência desse patrimônio - de um segmento específico de
constituição de um grande grupo nacional no setor de telecomunicações de um
grupo privado - para gigantes internacionais precisa ser considerado, uma vez
que estará sendo utilizado para esses processos de junção de empresa capital dos
trabalhadores, já que parte significativa do orçamento do BNDES advém do Fundo
de Amparo ao Trabalhador (FAT).
HP - Qual a sua opinião sobre o impacto da crise dos EUA no Brasil?
Pochmann - Não acredito que o Brasil possa passar incólume à crise dos
EUA , mas também não tenho dúvida que o Brasil se encontra numa situação melhor
do que estava há 5, 6 anos. O grau de comprometimento brasileiro vai depender
justamente em que medida essa crise financeira atinja o lado mais real. Do ponto
de vista da atividade econômica, por termos uma participação relativamente
pequena das exportações, diferentemente das economias asiáticas onde a
exportação pesa muito na formação do PIB, no nosso caso as exportações e
importações não pesam tanto. Portanto não terá tanto efeito no Brasil como nas
economias asiáticas. No entanto, nós podemos ter problemas no lado financeiro,
do ponto de vista da especulação da moeda e nesse sentido será fundamental o
tamanho das reservas que o país possa ter como elemento de enfrentamento a uma
crise especulativa.
HP - Como o senhor vê as recentes descobertas da Petrobrás na área do
pré-sal?
Pochmann - Não entendo que justamente nessa área, em que o Brasil se
coloca como um dos principais empresas em exploração em águas profundas, é
necessário ter competição e presença de outras empresas. Nós estamos indo muito
bem e entendo que justamente o fortalecimento da Petrobrás será ainda mais útil,
inclusive do ponto de vista da construção de uma matriz energética que
compreenda a energia renovável como alternativa de energia.
VALDO ALBUQUERQUE
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