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Se apertar mais, Bittar acaba proibindo conteúdo
nacional na TV por assinatura
Pelo
PL 29 todos os pacotes comercializados hoje já atendem até o segundo ano da cota
de canais. Além de liberar o setor para os estrangeiros, Bittar estabelece metas
a perder de vista para o cumprimento das cotas que não asseguram o aumento da
exibição
Se depender do espaço proposto pelo deputado Jorge Bittar
(PT/RJ) nas cotas da TV por assinatura, a produção nacional independente de
audiovisual levará mais de três anos para ter algum incentivo. Quem melhor
traduziu o significado do PL 29 para a produção nacional foi o consultor
legislativo da Câmara dos Deputados, Cláudio Nazareno, um dos técnicos que
assessoram o deputado na elaboração do projeto, ao afirmar que “todos os pacotes
comercializados hoje já atendem até o segundo ano da cota de canais
brasileiros”.
Além estabelecer metas graduais para o seu cumprimento, o
deputado oferece ainda um ano de isenção - sem a obrigação de instituir as cotas
- para as operadoras que migrarem do sistema atual para o novo marco regulatório
que seria criado. Com isso, o relatório de Bittar não propõe só engessar a
produção nacional independente nos próximos três anos, mas ele ainda induz as
operadoras de TV por assinatura a reduzir a quantidade de conteúdo produzido
atualmente.
A tradução feita pelo técnico da Câmara sobre o percentual
exato a que os produtores nacionais teriam direito, caso a proposta do deputado
vingue, foi importante para dirimir eventuais dúvidas que ainda pairam sobre o
tema. Essas incompreensões ocorreram porque o relatório é um verdadeiro tratado
javanês, que formula conceitos, termos técnicos e prevê o cruzamento de um
emaranhado de cotas, cujo objetivo central foi resumido agora: não mudar nada e
ainda tentar conseguir o apoio ao ou a neutralidade dos produtores nacionais e
nacionais independentes para a sua proposta de abrir o setor para o capital
externo.
A proposta de Bittar para a instituição de cotas já nasceu
intimidada – se levarmos em consideração às praticadas em outros países. A
última versão do relatório estabelece que 1:15h por semana (0,68% do total
transmitido nos canais internacionais) deve ser destinado para a produção
nacional independente. Numa segunda cota, o deputado propõe que os pacotes com
até 50 canais devem oferecer 10 canais considerados BR (nacionais). Para serem
classificados com tal, estes canais devem conter 8 horas diárias de produção
nacional, quatro delas transmitidas em espaço qualificado e apenas 1 hora
advinda de produção nacional independente.
Os constantes recuos do parlamentar mostram que o seu
compromisso com a produção nacional independente é mínimo. Isso ficou mais
nítido quando ele desmereceu o manifesto assinado por 36 entidades do setor, que
haviam se mobilizado para contrapor a campanha das TVs por assinatura, que
bombardeavam as cotas em comerciais de TV. Bittar recebeu os dirigentes, teceu
considerações sobre a importância do setor e, sem falar nada aos manifestantes,
concedeu uma entrevista coletiva minutos depois para anunciar que reduziria os
índices das cotas propostas à produção nacional.
Diante deste quadro e após a asfixia do conteúdo nacional
não é demasiado afirmar que ao espremer o relatório do deputado Jorge Bittar não
resta mais nada de positivo. A essência do projeto é beneficiar o capital
estrangeiro.
O estrangulamento da produção nacional na TV por assinatura
já estava previsto ao permitir que as empresas estrangeiras legalizassem o seu
domínio na distribuição do sinal – feito atualmente através de saladas
acionárias usadas para burlar a lei do cabo – e ao possibilitar que novos grupos
ingressem. Como já esta estampada na paupérrima programação distribuída pela
NET, TVA e Sky não há o mínimo interesse em estimular a produção nacional
independente ou nacional. Só lhes convém deter os meios de distribuição para
distribuir o que eles querem, e não o que quer o assinante, muito menos o que
interessa ao país. Não é à toa que os canais mais vistos na TV a cabo são
justamente os canais abertos, que mesmo com os problemas conhecidos oferecem
conteúdo produzido no país, e melhor que os enlatados.
Não há nada mais contraditório do que apoiar a produção
nacional independente com a permissão para o capital externo ter a propriedade
da distribuição do sinal. Bittar talvez tivesse a ilusão de que seria possível
garantir o conteúdo nacional da programação estabelecendo cotas para este e
tentando obrigar as empresas estrangeiras a transmiti-lo.
O resultado prático já era esperado: as operadoras
comemoraram os artigos que lhes davam 100% do capital em toda a cadeia e
bombardearam o PL 29 até o parlamentar propor cotas inferiores ao que já é
praticado hoje. Perde o país, que passa parte importante de suas comunicações
para o setor externo, perde o assinante, que se tornará ainda mais refém do
monopólio de mídia e perde a produção nacional.
Em suma, com o PL 29, o deputado Jorge Bittar conseguiu
matar dois coelhos com uma cajadada só: eliminar a produção nacional e nacional
independente através da desnacionalização da distribuição e através da redução
das cotas mínimas pelas quais tanto lutaram os produtores e cineastas
brasileiros.
ALESSANDRO RODRIGUES
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