|
1º Encontro Nacional da Música Independente
Por muito tempo os grandes nomes da música brasileira
integravam os casts e eram disputados pelas maiores gravadoras do país.
Não era difícil ouvi-los no rádio, nem vê-los na televisão
em horário nobre, onde recebiam até cachês para participar de programas e
difundir suas obras.
As multinacionais, quando aqui se instalaram, não fugiram a
essa regra.
Tiveram, ainda que não fosse bem esse o seu objetivo, que
dedicar considerável espaço da sua produção ao melhor da nossa música popular.
Foi disputando no terreno da qualidade que elas, valendo-se
de seu maior potencial financeiro, conseguiram ir absorvendo as grandes
gravadoras nacionais - processo que se completou nos anos 90 e iria mostrar o
seu lado perverso já no final daquela década.
Mas o embalo dos bons tempos foi suficiente para projetar o
mercado fonográfico brasileiro à condição de 6º maior do mundo.
Em 1997, segundo a ABPD (Associação Brasileira de
Produtores de Disco, entidade mantida pelas quatro multis: Universal, Warner,
Sony/Bmg e Emi), a indústria fonográfica faturou R$ 1,4 bilhão com a venda de
107 milhões de CDs.
Em 2003 a situação já era completamente diferente.
Despencamos para o 13º lugar, com 52 milhões de CDs e 2,5 milhões de DVDs
vendidos - os dados também são da ABPD.
As multinacionais responsabilizaram a “pirataria” pela
vertiginosa queda.
Porém nada disseram de sua política de reduzir
drasticamente a quantidade de títulos lançados para ocupar com eles, pagando
ilegalmente e a peso de ouro, todo o espaço da execução pública nos grandes
meios de comunicação.
Dentro dessa estratégia de reduzir os lançamentos para
poder massificá-los a fim de impô-los a um público condicionado e devidamente
anestesiado, a qualidade musical cede seu lugar às jogadas de marketing e já não
desempenha qualquer papel no resultado das vendas.
Foi assim que os novos talentos e logo em seguida os
grandes nomes já consolidados da MPB viram as portas das multinacionais se
fecharem para eles.
O eixo da produção fonográfica brasileira se deslocou então
para as independentes - pequenas gravadoras que mantém vivo o registro da nossa
cultura musical, mas não conseguem levá-lo ao grande público porque o espaço dos
meios de comunicação foi loteado, comprado e cercado por quatro monopólios e por
sua bizarra e minguada produção de música brasileira.
A dilapidação contínua se expressa de forma mais dramática
nos números de 2007, recentemente divulgados pela ABPD: 25,4 milhões de CDs e
5,9 milhões de DVDs vendidos. Somando tudo, inclusive a comercialização de downloads,
o faturamento obtido não chega a R$ 300 milhões.
Em 10 anos perdemos mais do que 75% do nosso mercado
fonográfico!
Não excluímos a hipótese de que esses números estejam
intencionalmente subavaliados para lesar autores, intérpretes e o fisco.
Quem comete tamanho crime contra a cultura de um país não
hesitaria em perpetrar mais esses.
O fato é que as quatro multinacionais juntas lançaram em
2007 pouco mais do que meia centena de CDs de música brasileira. A produção das
independentes ultrapassou 700 CDs.
Nem tudo são flores no quintal das pequenas gravadoras
nacionais. Mas podemos garantir que dessa produção de 2007 pelo menos 200
títulos possuem alta qualidade técnica, artística e cultural. Na produção das
multinacionais, com muito boa vontade, não encontraremos mais do que 10.
No entanto a produção das independentes não chega a ocupar
10% do espaço de exibição pública e, consequentemente, das vendas.
Conivente com esse quadro de terra arrasada, o Minc não só
não combate a prática predatória dos quatro cavaleiros do Apocalipse como
inclusive engendra uma sórdida campanha para expropriar autores, intérpretes e
músicos dos direitos que a legislação autoral do país lhes garante.
Segundo afirmações textuais do ministro Gilberto Gil a
produção não circula porque “falta generosidade” aos artistas para abrirem mão
de seus direitos. São eles e não o espúrio contubérnio entre monopólios da
indústria fonográfica e dos meios de comunicação os responsáveis pelo desastre.
Mas a virada já começou. Na sexta, sábado e domingo
passados, realizou-se no Paraná, no auditório da Rádio e TV Educativa, um
histórico encontro que reuniu representantes das sociedades autorais (AMAR e UBC),
dos produtores independentes (ABMI), das rádios públicas (ARPUB), artistas e
jornalistas.
O 1º Encontro Nacional da Música Independente, aberto
oficialmente pelo governador Roberto Requião, veio suprir a necessidade de
interlocução entre as entidades representativas dos autores, músicos, gravadoras
independentes e meios públicos de comunicação, para estabelecer propostas de
políticas estatais e programar ações comuns.
O encontro foi transmitido pela rádio e pela TV Educativa
do Paraná, gerou uma série de programas paralelos que estão indo ao ar e será
retratado em algumas reportagens que passaremos a publicar nas próximas edições
do HP.
O leitor pode acessar a TV Educativa do Paraná através do
nosso site www.horadopovo.com.br
S.R.
|