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Meirelles afronta a nação e aumenta juros em O,5 ponto
Não havia nenhum
motivo para elevar a Selic, a não ser contemplar, às custas do Brasil, os
monopólios financeiros, sobretudo os externos
Apior desgraça de escrever sobre uma canalhice,
leitores, é ter que reproduzi-la. Assim é, também, com o aumento de juros, de
0,5 ponto percentual, decidido pelo Comitê de Política Monetária do Banco
Central (Copom) na quarta-feira, dia 16, elevando os juros nominais de 11,25%
para 11,75%.
Em termos reais, descontada a inflação projetada
para os próximos 12 meses, os juros básicos no Brasil foram para 7,1%, o que é a
mais alta taxa do mundo, deixando longe a segunda (a da Turquia, 5,6%). Dos
países de porte econômico semelhante ao nosso (os “Brics”), o de taxa real mais
elevada é a Índia, onde os juros básicos estão em 0,5%. Na China e na Rússia
eles estão negativos (-0,7% e -2,2%). Na América Latina, o país de mais alta
taxa real nos juros básicos é a Colômbia, imersa numa guerra civil e com a
economia arrasada, onde eles estão em 3,4% (dados da UpTrend Consultoria
Econômica).
Enquanto isso, o FED reduziu os juros básicos
nos EUA em três pontos percentuais, desde setembro do ano passado. Obviamente,
os especuladores norte-americanos ganham aqui o que não ganham em seu país. E,
com a crise deles, querem arrancar no Brasil o que puderem. Nessa hora, nada
menos apropriado do que ter como presidente do Banco Central um ex-presidente do
BankBoston, até hoje recebendo mais de meio bilhão de dólares anuais de seus
antigos (antigos?) empregadores.
PRETEXTO
Entretanto, até a terça-feira, dia 8, o lobby da
agiotagem se concentrava em fazer o Copom, isto é, o Banco Central, aumentar os
juros em 0,25 ponto percentual. A dificuldade não estava no Banco Central, mas
no conjunto do governo e da sociedade, pois todos percebiam que não havia motivo
algum para esse aumento, nem mesmo eram sustentáveis os costumeiros pretextos:
não havia e não há surto inflacionário à vista, nem “aquecimento” algum da
demanda - em uma palavra, nada. Por outro lado, havia todos os motivos para não
aumentar os juros: não prejudicar o crescimento da economia, não aumentar a
descarga de dinheiro do Tesouro nos cofres daqueles que especulam com papéis
públicos.
GANÂNCIA
O único móvel para um aumento de juros era a
ganância dos especuladores, sobretudo os bancos – e sobretudo os externos – pelo
dinheiro público, pelos rendimentos parasitários em cima dos títulos do governo.
No entanto, a idéia de que Meirelles poderia, numa situação que não oferecia
pretexto sustentável, aumentar os juros em mais do que 0,25, parecia remota. Foi
mais ou menos o que expressou o próprio presidente da República, ao dizer que
“não será a redução de 0,25, a manutenção de 11,25% nem o aumento de 0,25 que
trará qualquer transtorno à economia”. Os jornais reacionários, certamente,
ressaltaram a última parte da frase, escamoteando que, na primeira, Lula admitia
que uma redução de juros – ou a manutenção da taxa - era perfeitamente
compatível com a situação econômica. Porém, seja como for, é importante notar
que o presidente falava em aumento ou redução de 0,25.
Mas, nessa mesma terça-feira, foi divulgado que
o Banco Central, na edição semanal do Boletim Focus, “previa” que até dezembro a
taxa básica de juros estaria em 12,75% - uma elevação de 1,5 pontos em relação à
taxa então vigente. Surpreendentemente, não havia, no boletim dessa semana,
nenhuma mudança em relação à expectativa de inflação – como notou o editorial de
um dos órgãos que costumam chaleirar o sr. Meirelles (v. “Folha de S. Paulo”,
08/04/2008), a previsão de inflação continuava no centro da meta (4,5%) e bem
abaixo do teto dessa meta (6,5%). Portanto, o BC fazia uma “previsão”,
atribuindo-a ao “mercado”, esse agente parapsicológico, sem que apontasse motivo
para ela. É evidente que o “mercado” (isto é, os especuladores e monopólios
financeiros) querem sempre aumentar os juros. Portanto, tal previsão não era
mais que a vontade deles, e apenas isso.
CASSINO
Porém, foi um sinal para os especuladores. Se,
até com a inflação no centro da meta, o Banco Central projetava um aumento dos
juros, por que eles iriam se contentar com aquilo que o presidente da República
achava tolerável? No dia seguinte, quarta-feira, dia 9, tocaram fogo no circo.
No “mercado de futuros”, isto é, naquele cassino onde se aposta em quais vão ser
os índices e preços futuros, os jogadores dispararam a fazer seus lances – e as
apostas eram de que a Selic iria ser aumentada em 0,5 pontos.
Tal aumento parecia – e era – delirante. Nada
havia que o justificasse, e notemos que isso aconteceu sete dias antes do BC
elevar os juros em 0,5. Somente para ressaltar: sete dias antes do BC aumentar a
taxa básica em 0,5, os especuladores apostavam, contra toda a lógica, contra
todos os indicadores econômicos, e contra o desejo ou a opinião de todo mundo
(incluindo aqui boa parte de seus próprios consultores) em um aumento de 0,5.
Algo espantada, uma empresa de consultoria financeira, em seu comunicado diário
para os apostadores (isto é, “investidores”) relatou, na quinta-feira, dia 10, o
fato da seguinte forma: “Os juros dispararam ontem no mercado futuro (....)
aumentou a possibilidade de alta de 0,5 ponto percentual na taxa Selic na
reunião do Banco Central, marcada para quarta-feira. (....) A alta da Selic era
tida como fato consumado após sinalizações veementes feitas pelo Banco Central,
mas esperava-se avanço de apenas 0,25 ponto percentual...”.
A divulgação pelo IBGE do IPCA de março (0,48%),
apenas serviu para forjar um pretexto. Mas era um pretexto muito débil. Na
verdade, a inflação medida por esse índice havia caído (o IPCA de
fevereiro foi 0,49%). Mas algum gênio, no BC ou no “mercado”, o que é a mesma
coisa, comparou os 0,48% de março com a suposta expectativa do “mercado”, entre
0,30 e 0,40%. Daí, artigos na mídia concluíram que a inflação tinha aumentado
mais do que o “previsto”, apesar de cinco das sete categorias de produtos
pesquisados pela Fundação Getúlio Vargas estarem com preços em descenso ou
estáveis.
PREVISÕES
De onde eles tiram essas previsões, não é um
mistério: eles sempre prevêem, até depois do fato supostamente “previsto”,
qualquer coisa que lhes permita roubar o Erário, isto é, a coletividade. Mais
difícil é descobrir em que alfarrábio da ciência está a lei pela qual a inflação
tem de se adequar às expectativas desses cavalheiros. Principalmente quando o
IPCA de 12 meses continuava dentro da meta (4,6%, apenas um décimo acima do
centro da meta – e bem abaixo do teto, 6,5%). Para completar, metade do índice
de março era devido ao aumento do preço dos alimentos, uma conseqüência da
especulação no mercado internacional, sem relação com fatores econômicos
internos.
Esta é a parte da escroqueria financeira, ou,
melhor, especulativa. Mas há também a escroqueria política. É irracional esperar
que um tucano no BC administre a política monetária de acordo com os interesses
de um governo eleito contra os tucanos. Sobretudo quando se considera acima do
presidente da República - como quase todo tucano. E, sobretudo, quando é ano de
eleições, em que a maior credencial dos candidatos que apóiam o governo é o
crescimento do país, exatamente o que o aumento de juros tenta atingir.
CARLOS LOPES
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