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Confederação
Nacional dos Trabalhadores em Educação condena “escola mínima”
Modelo obscurantista tucano
pôs abaixo qualidade do ensino em SP
“Classes superlotadas, jornadas estafantes e piora constante pode ser comprovada
na comparação com demais estados. Modelo tucano se revelou um completo
fracasso”, afirma Roberto Leão, presidente da CNTE
O
presidente da Confederação Nacional dos Trabalhadores em
Educação (CNTE), Roberto Frankin de Leão, denuncia em entrevista “a triste
realidade vivenciada em São Paulo, onde a imposição do modelinho neoliberal de
gestão educacional estadual, de escola mínima para o pobre, redundou na drástica
queda da qualidade do ensino, evidenciada pela piora constante dos índices,
comprovada nas recentes comparações com os demais estados”. De acordo com Leão,
a ação tucana em São Paulo representa a negação do que os educadores desejam com
a Conferência Nacional da Educação Básica, que acontece em Brasília até
sexta-feira.
Qual é a sua avaliação desta Conferência Nacional da
Educação Básica?
Acredito que sua importância reside na perspectiva da
construção do Sistema Nacional de Educação, para o qual temos proposta. Ele só
se constrói com investimentos à altura dos desafios de um país de dimensões
continentais, com vinculação de verbas e gestão democrática, com a valorização
dos professores e de todos os profissionais da educação. Defendemos o Piso
Salarial Profissional Nacional não só para o magistério, um projeto de cargos e
salários, um Plano de Carreira para todos, com atualização constantes desses
trabalhadores, o que deve ser um dos seus pilares mestres. Sem ações mais
consistentes, não conseguiremos superar as diferenças e garantir uma educação de
qualidade. Este é o espírito dos participantes da Conferência.
Há um compromisso coletivo com a construção de um sistema
articulado entre União, Estados e Municípios que garanta a qualidade da educação
pública. E o detalhamento disso?
Existe uma identidade no pensamento, mas há diferenças no
detalhamento de como esses apontamentos devem sair do papel e virar realidade.
Cito o caso da gestão democrática. No detalhamento, para a CNTE, implica na
construção de um sistema de participação dos trabalhadores e de quem se utiliza
da educação pública. Não entendemos apenas como um processo de eleição para
eleger a direção da escola, ou pior, como no modelo de São Paulo, onde a
participação está restrita somente à execução, não à elaboração. Defendemos
democracia em todas as instâncias onde se debate a educação, participação
efetiva, também no nível intermediário, técnico, dos que pensam sobre os mais
diferentes aspectos e implicações.
Citaste o triste exemplo do Estado de São Paulo. O que
representou a implantação do modelo neoliberal na educação pública?
O modelo neoliberal estimula uma competição completamente
insana entre as escolas, obrigando-as a perseguir um “êxito” definido por eles.
É um modelo reducionista da educação, onde os alunos só precisam decodificar
alguns códigos, assinar o nome e está tudo bem, tudo bom. É a escola mínima para
o pobre. Não há nenhuma construção coletiva dos projetos educacionais,
fundamental para o desenvolvimento de um ensino solidário, humanista. É um
modelo de escola voltado apenas para melhorar os índices que eles mesmos
derrubaram. Como o comprova a própria secretária estadual de educação, Maria
Helena, que declarou que se pudesse fecharia as faculdades de Educação da USP e
da Unicamp, é uma visão obscurantista. Ela se crê a luz, mas patrocina a mesma
política que levou o caos às salas de aula.
E Serra tenta jogar o peso do fracasso tucano sob os ombros
dos professores...
Exatamente. O modelo de educação imposto pelos tucanos em
São Paulo vai completar 14 anos, tendo se revelado um completo fracasso. Mas
Serra insiste na continuidade do modelo e elege os professores como os grandes
adversários. Isso nos deixa orgulhosos, porque a Apeoesp é reconhecidamente um
foco de resistência ao desmantelamento do ensino. Queremos a educação para a
liberdade, para a democracia, para a construção da cidadania, com sujeitos
protagonistas do seu próprio destino. Para o modelinho tucano, um dos problemas
da educação é a autonomia das escolas, que na realidade não existe, é uma
mentira. Seria muito diferente se houvesse democracia, se as classes não
estivessem superlotadas, se as jornadas não fossem extenuantes e permitissem ao
professor que se aprofundasse nas disciplinas.
Na prática, são impostos obstáculos ao processo de
ensino-aprendizagem...
Vejam o caso de um professor de português. O acompanhamento
visa orientar a leitura, o conhecimento da literatura, a feitura dos textos, a
elaboração das redações, apontando erros de uma forma pedagógica, não para
punir, como quer a secretária Maria Helena. O objetivo da correção é que o
estudante aprenda com o erro, que melhore, avance. Como dar o acompanhamento de
qualidade que esta disciplina requer com uma jornada estafante, em inúmeras
salas e classes superlotadas? Em São Paulo, os professores têm o duvidoso
direito a uma jornada de 64 horas, onde. descontadas as horas-atividade. são
mais de 50 horas-aula, dentro de classe, em várias escolas. Como produzir bem?
Vou falar um termo que os tucanos gostam: “rendimento”. Como o professor pode
“render”, submetido a uma jornada dessas?
E põem a culpa no professor...
Pois é, o governador e a secretária se esquecem disso tudo
para dizer que a culpada é a escola que não ensina, que é do professor porque
falta muito. E o medo que ronda as escolas com a falta de segurança? E não é só
uma questão de colocar polícia, mas de promover a socialização, investir nas
comunidades, ter políticas para a juventude. O caos na escola pública paulista é
responsabilidade do modelinho neoliberal, que nega o mínimo do mínimo à
educação. Querem formar alunos para atender o mercado, não o mundo do trabalho,
o mercado, com suas demandas sazonais. O mercado, que precisa de um exército de
desempregados, de mão-de-obra barata. O Sistema Nacional de Educação deve estar
calcado na escola, em uma concepção solidária, humanista, que prepare para a
vida, vendo o trabalho como fator de realização, de desenvolvimento do homem.
LEONARDO SEVERO |