|
Dois anos sem Telê
ARIOVALDO IZAC *
Este
21 de abril marca o segundo ano da morte do mestre Telê Santana, um dos melhores
treinadores de todos os tempos do futebol brasileiro. Telê foi disciplinador e
profundo conhecedor do futebol, virtudes que o consagraram com o bicampeonato
mundial Interclubes conquistado pelo São Paulo, em 1993. Quis o destino que
montasse uma das mais respeitadas equipes da Seleção Brasileira, em 1982, mas
ficou no meio do caminho na Copa do Mundo da Espanha, com a fatídica derrota por
3 a 2 para a Itália. O Brasil só precisava de um empate naquele jogo e nem por
isso o treinador abandonou a ousadia pelo gol. A recompensa de seus conceitos
ofensivos veio na década de 90 com a fase áurea do São Paulo.
A rigor,
abril também marca a morte de Zezé Moreira, treinador que o discípulo confessava
ter assimilado a maioria de conceitos no futebol. Zezé morreu no dia 10, em
1998, aos 90 anos de idade, com histórico de ter integrado comissões técnicas do
selecionado brasileiro em 1958, 1962, 1966, 1970, 1982 e 1986. Foi ele quem
lançou no Brasil a chamada marcação por zona em substituição a obsoleta marcação
individual. Também aposentou o esquema 4-2-4 e criou o 4-3-3 no período de
glória do Fluminense, na década de 50, e, coincidentemente, o jogador chave de
seu esquema era Telê, que usava a camisa sete, mas, diferentemente dos
ponteiros-direitos, voltava para ajudar na marcação e cercava espaços no
meio-de-campo.
Com
característica diferenciada, logo Telê não foi aquele ponteiro com jogadas de
fundo de campo nos tempos de Fluminense, quando atuava num ataque com Carlaile e
Escurinho, num time que tinha os meias Didi e Orlando Pingo de Ouro, e uma
defesa com o goleiro Castilho e o zagueiro Pinheiros.
Em Campinas
(SP), jogando pelo Guarani, já no final da carreira, Telê justificou o apelido
de “mão de vaca” quando morava na casa do então técnico Élbua de Pádua Lima, o
Tim (falecido). Telê comia e bebia sem desembolsar um tostão sequer. Não tinha
“simancol” esse “Fio de Esperança”, apelido resultante de um concurso idealizado
pelo extinto Jornal dos Sports, do Rio de Janeiro, com torcedores.
A postura
tática de Telê ainda nos tempos de jogador, nos anos 50 e 60, mostra que naquela
época já era um estudioso do futebol e armazenava conceitos. Por isso foi um
treinador bem diferenciado da maioria, a ponto de surpreender quando instigado a
criticar retrancas de equipes adversárias, nos anos 80: “Se o adversário fica lá
atrás, meu time tem o domínio do jogo, cria mais chances e basta ter competência
para marcar e ganhar o jogo”.
Em 1995, Telê
teve de abandonar aquilo que era mais sagrado na sua vida, o futebol, por causa
de complicações cardíacas. Em 1997, quando ainda tinha esperança de driblar a
doença e voltar ao trabalho, dizia que só se sentia completamente realizado se
estivesse envolvido com o esporte. Depois, teve de se curvar à realidade e
admitir a aposentadoria forçada.
Telê tentava
se distrair com atividades agropecuárias em seu sítio, em Belo Horizonte, ou
ficava colado na televisão acompanhando futebol, novelas e programas de
auditório, mas ficava deprimido facilmente. Não aceitava a distância dos
gramados, de gritar com seus jogadores e resmungar com juízes. Ali sentia a
emoção típica do futebol.
|