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Fed: US$ 1
trilhão a Wall Street e nada às famílias endividadas
“Os fundos
governamentais que desde Roosevelt ajudavam as famílias a obter moradias e
seguro-saúde estão sendo quebrados para salvar banqueiros que especularam e
criaram a bolha hipotecária”, denuncia o economista e professor Michael
Hudson
O economista Michael Hudson, ex-executivo do
Chase Manhattan (atualmente JPMorgan Chase), especializado em imóveis e
relatórios financeiros, principal assessor econômico do deputado federal
Dennis Kucinich – pré-candidato democrata em 2004 e 2008 -, escreveu artigo
publicado no dia
14 em que denuncia que os fundos das agências governamentais criadas pelo
presidente Franklin Roosevelt para tirar o país da depressão de 1929 e “que
deveriam ser usados para ajudar as famílias a obter moradias e seguro-saúde;
proteger suas economias e prover suas aposentadorias”, estão sendo quebrados
“para salvar banqueiros e administradores financeiros que especularam e
criaram a bolha hipotecária norte-americana”.
“Parece uma grande ironia que essas instituições
(os bancos habitacionais federais, o Departamento Federal de Habitação, as
agências de financiamento de moradia) agora estejam sendo mobilizadas para
pagar os credores de Wall Street, para bombear créditos para o mercado
hipotecário, para revenda em volume a investidores institucionais. Todos
esses programas foram criados para ajudar os compradores de casas e não os
seus credores e especuladores. Mas pagar especuladores e a alta finança
tornou-se a sua principal função. Estas mudanças viraram de cabeça para
baixo o sistema habitacional na América. Wall Street, com certeza,
parabenizou a captura destas instituições do New Deal”, afirma Hudson, que
também é professor da Universidade de Missouri.
RISCOS
“Os eventos financeiros das últimas duas
semanas de março deste ano mostraram que a ‘realeza econômica’, que foi
removida do templo financeiro por Franklin Delano Roosevelt, retornou para
levar nossa economia para criação da terrível situação de rebaixamento a
níveis sem precedentes dos riscos de dívidas para os bancos,
eufemisticamente chamado de ‘salvação da economia’ e ‘instituição do
bem-estar’ pelo governo”, escreveu Hudson em seu artigo “Um Trilhão para os
Apostadores de Wall Street e Nada para as Famílias e Aposentados”, publicado
no site www.counterpunch.com.
“Na verdade, o que temos visto nas últimas
semanas são trilhões de dólares sendo comprometidos para a guerra e para o
apoio a bancos. E tudo isso sob o lema da ‘salvação do sistema’”, descreve
Hudson.
“Este ‘sistema’ que o Tesouro, o Fed e as
agências criadas pelo New Deal - agora capturadas pelo governo Bush - estão
tentando salvar é um grande esquema Ponzi na economia [denominação americana
para a fraude utilizada por Charles Ponzi, que enriqueceu em seis meses
depois de atrair 40 mil pessoas para uma pirâmide financeira em 1920]. Com
isso eu quero dizer que o plano é que os credores emprestem aos devedores
dinheiro suficiente para que estes paguem os custos em juros e continuem
adimplentes”, acrescenta.
BOLHA
“Porém, nos últimos anos, este ‘sistema’
dependia dos preços dos ativos de bens imóveis, ações e títulos serem
inflacionados o suficiente para permitir aos devedores penhorarem estes
ativos com a garantia de um elevado preço de mercado para alimentar mais e
mais novos empréstimos. Mas agora, a bolha imobiliária explodiu (e
naturalmente, os preços caíram), e o problema é como pagar a conta do nosso
iceberg econômico que afunda em uma depreciação cada vez maior - gerando uma
condição nas quais os débitos atrelados às propriedades excedem seu valor de
mercado. Alguém tem de arcar com a perda, mas quem?”.
Hudson esclarece que ‘em uma situação normal, é
o banqueiro ou o investidor que arca com a perda. Mas eles agora estão
supostamente sendo ‘resgatados’. Isto está sendo apresentado como um
‘retorno à estabilidade’. Mas era um ‘sistema’, que para começo de conversa,
nunca foi estável. Na verdade, para o resgate funcionar, a maioria dos
americanos possuirá menos e deverá mais, enquanto lhes está sendo dito que
tudo isso é o caminho para a criação de riqueza – como se estivessem
tratando de seu bem estar e não do de seus credores. O ‘resgate do sistema
financeiro’ para o perdão especial da dívida no caso Bear Stearns-JPMorgan
Chase é uma nítida ilustração de como o autoritarismo financeiro dos EUA
desenvolveu uma relação parasitária sobre o trabalhador americano em seu
papel de contribuinte, consumidor e proprietário residencial”, escreve
Michael. “Salvar os investimentos financeiros do mercado, em condições
adversas é, ao final de contas, especulação”.
ESCRAVIZAÇÃO
“O resultado é o verdadeiro caminho para a
escravização pela dívida”, denuncia o economista.
Ele afirma que “o público americano pode
justificada-mente ficar intrigado com a forma como o governo pode vir a
destinar trilhões de dólares para guerras no exterior e pagamentos a
banqueiros, mas tão pouco para eles. Os Estados Unidos estão gastando um
valor estimado de três trilhões de dólares em uma guerra ilegal que
tornou-nos menos seguros, e um trilhão até agora para salvar banqueiros, de
um modo que é desestabilizador para a economia. Mas não pode gastar com
seguro-saúde ou aposentadoria para todos os americanos. Na terça-feira, 25
de março, logo após assinar o fornecimento de um trilhão de dólares para o
setor financeiro e imobiliário, o sr. Henry Paulson [secretário do Tesouro
dos EUA] reviveu as pretendidas afirmações do governo Bush de que não há
dinheiro para pagar a segurança social. Consertar a previdência social - se
é que existe de fato algum problema - seria relativamente fácil. Só com a
revogação das quase isenções fiscais de Bush aos 1% dos americanos mais
ricos (aqueles que ganham mais de US$ 414.000,00 por ano) restabelecendo o
impostos de 30% da década de 1990 proporcionaria mais de 46% do que o Comitê
de Orçamento do Congresso estima ser o déficit da previdência”, propõe o
economista.
SEM
MEDICARE
“A alegação de que não existe recurso para o
financiamento das obrigações da previdência social e do Medicare [programa
federal de saúde] foi proferida ostensivamente na última semana de março.
Cinco anos, quatro mil vidas, e três bilhões dólares para a guerra - mas
nenhum dinheiro para a previdência social nem para o Medicare!”, denuncia.
“O histórico caminho para a servidão é o da escravidão da dívida a favor de
uma oligarquia financeira que concentra toda a riqueza em suas próprias
mãos”, completa.
Nessa questão, para Hudson, o que deve ser feito
para “inverter este caminho em direção à escravidão da dívida é fazer um
novo parcelamento dos pagamentos das hipotecas - em particular para as
propriedades depreciadas com valor muito abaixo do saldo devedor - de forma
a refletir a queda nos valores atuais das propriedades nos débitos que
haviam sido contraídos sob condições de risco, através do constrangimento do
devedor em comprometer-se acima da sua capacidade de pagamento. Uma vez que
o principal tenha sido reduzido a níveis realistas, deve-se substituir as
taxas flutuantes para as hipotecas por taxas fixas”.
“O problema para esta solução é que, para as
instituições financeiras, a crise da habitação não é problema seu. Sua
atitude de ‘culpem-as-vítimas’ joga-o para os endividados em hipotecas e,
agora, cada vez mais para todos os contribuintes”, finaliza o economista.
RODRIGO CRUZ
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