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Monopolização neoliberal desenfreada leva
à extorsão no preço mundial dos alimentos
Com o aumento internacional do preço dos
alimentos, os manga-de-alpaca do neoliberalismo já apareceram com sua inefável
explicação: o problema é que as pessoas estão comendo demais. Por isso os preços
dos alimentos estão aumentando. Como existem no mundo cerca de 870 milhões de
pessoas que, literalmente, morrem de fome, seria necessário demonstrar que as
outras passaram a ter indigestão de tanto comer – pois existem no mundo
alimentos suficientes para acabar com a fome; o problema jamais foi a escassez
da produção, mas a forma injusta, monopolizada, de distribuição.
Depois voltaremos a esse engenhoso argumento.
Por ora queremos ressaltar que o aumento no preço internacional dos alimentos é
devido à especulação desbragada por parte de alguns poucos monopólios – quase
todos norte-americanos – que chegaram à atual situação devido, precisamente, à
política neoliberal e aos capachos que a adotaram nos países dependentes.
Exatamente é o que aponta a Drª Anuradha Mittal,
diretora do Instituto Oakland, de San Francisco, e do Institute for Food and
Development Policy: “o que não se menciona é que, nas últimas décadas, a
liberalização da agricultura, o desmantelamento das instituições estatais para
convertê-las em juntas de comércio, e a especialização dos países em
desenvolvimento em cultivos exportáveis como café, coco, algodão, e até mesmo
flores, são todas coisas estimuladas por instituições financeiras internacionais
apoiadas por países como os Estados Unidos, e também pela União Européia. A
remoção das barreiras alfandegárias permitiram a um punhado de nações do Norte
tomar os mercados do Terceiro Mundo através da inundação de matérias-primas
fortemente subsidiadas enquanto minavam a produção alimentar local” (Inter
Press Service, 15/04/2008).
O resultado, observa ela, é que os países
subdesenvolvidos, que eram exportadores de produtos agrícolas, passaram, de
forma geral, a ser importadores. Na década de 70, eles tinham um excedente
comercial em alimentos de US$ 1 bilhão. Atualmente, são deficitários (em 2001, o
déficit comercial em alimentos desses países já estava em US$ 11 bilhões).
MONOPÓLIOS
Em suma, o mercado de alimentos passou a ser
monopolizado por algumas, pouquíssimas, transnacionais. Hoje, no mundo, o
mercado de grãos é monopolizado por apenas três empresas – a Cargill, a Archer
Daniels Midland (ADM) e a Bunge (Cf. Gretchen Gordon, “The Food Crisis: Global
Markets and Deregulation Strike Again”). Todas as três são norte-americanas (a
Bunge, que já foi holandesa e argentina, é hoje registrada oficialmente nas
Ilhas Bermudas, mas tem sede no Estado de Nova Iorque).
Aliás, vale a pena reproduzir um trecho do
artigo acima citado, publicado no último dia 18:
“A desregulamentação nos mercados agrícolas,
como a desregulamentação em muitos setores, alcançou pleno impacto nos anos 80 e
90. (....) O banco Mundial e o FMI condicionaram empréstimos à eliminação da
intervenção governamental nos mercados agrícolas. Os acordos mundiais de
mercadorias, manutenção de preços, e outros mecanismos que ajudavam a manter os
suprimentos globais e os preços estáveis foram desmantelados. (....) O impacto
de toda essa desregulamentação foi a substituição do acesso ao mercado local
pela maioria dos pequenos produtores pelo acesso ao mercado global por uns
poucos produtores. (....) Graças à não existência de limites anti-trustes e à
desenfreada integração vertical, nós alcançamos um nível de concentração no
sistema global de agricultura que faria a Standard Oil corar” (Gretchen
Gordon, art. cit.).
Citamos os grãos. Mas a mesma coisa é verdade
para os laticínios, para a carne e até para os pescados – e, quanto às sementes,
apenas uma companhia, a Monsanto, monopoliza o mercado mundial.
Portanto, não é um fenômeno que os preços dos
alimentos tenham, segundo a FAO, aumentado em média 45% nos últimos nove meses,
com alguns deles passando de 80%, e, ainda, com coisas incríveis acontecendo (o
arroz, depois de 29 anos com preços internacionais estáveis, aumentou 50% em
duas semanas). O trigo, em um ano, aumentou 130% e a soja, 87%.
Esse aumento nada tem a ver com um aumento do
consumo de alimentos. Aliás, é ridículo: vejamos a Rússia, um dos supostos
culpados por comer demais e, como suposta consequência, pelo aumento dos preços.
Seria necessário demonstrar que hoje se come mais do que na época da URSS.
Porém, hoje, diferente de antes, há quem esteja passando fome na Rússia.
Mesmo considerando a China, país em que o
consumo de alimentos realmente aumentou, não há nenhuma epidemia de voracidade
no mundo que possa explicar o atual aumento das chamadas “commodities”
agrícolas. Mas há, sim, especulação, sobrepreços impostos por monopólios com
sede nas matrizes imperialistas.
ETANOL
Também não é a produção de etanol que está
causando esse aumento de preços. Apenas dois países produzem a maior parte do
etanol no mundo: o Brasil, onde é evidente que a cana de açúcar não substituiu
outros cultivos ou pastos do gado; e os EUA, onde, apesar dos pesados subsídios
do governo americano, não há notícia de escassez de milho para alimentação.
Naturalmente, a questão é outra no caso de países (basicamente o México e países
da América Central) onde a cultura nativa do milho foi arrasada e substituída
pelas importações dos EUA. Mas, nesse caso, o problema é a dependência desses
países dos EUA, e não a produção de etanol.
C.L. |