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Dulcídio, árbitro
respeitado
ARIOVALDO IZAC *
A
quarta chegada da Ponte Preta à final do Campeonato Paulista, para decidir o
título com o Palmeiras, remete o torcedor ponte-pretano obrigatoriamente àquela
decisão de 1977, com o Corinthians, quando a arbitragem de Dulcídio Vanderley
Boschilia foi contestadíssima, porque expulsou o atacante Rui Rei, do time de
Campinas, aos 16 minutos do primeiro tempo da terceira e decisiva partida, no
Estádio do Morumbi, com a justificativa que foi xingado pelo jogador.
Dulcídio, que morreu no dia 14 de maio de 1998, aos 60 anos de idade, vítima de
câncer, ficou marcado como árbitro que apitava no “pau”, isso é: intolerância à
violência e indisciplina. E quem suspeitou que tirou proveito da arbitragem se
equivocou. Foi, é claro, um árbitro temperamental e pavio curtíssimo, mas
sobretudo correto, tanto que morreu pobre.
AMISTOSO
Dulcídio
foi respeitadíssimo pelos dirigentes da CBF (Confederação Brasileira de
Futebol), que o indicaram para apitar um jogo amistoso em que a Seleção
Brasileira ganhou do Equador por 1 a 0, no Estádio José Fragelli, no Mato
Grosso.
A
carreira de Dulcídio foi marcada por fatos curiosos, um deles em 1983 quando
interrompeu a partida entre Atlético (PR) e Campo Grande (RJ), aos 43 minutos do
primeiro tempo, por causa de uma inesperada dor de barriga. O “Alemão” deu um
pique até o vestiário e, minutos depois, após alguns gramas mais leve, subiu ao
gramado sob aplausos dos torcedores para reiniciar o jogo.
Alemão foi investigador de polícia e, nos freqüentes diálogos com os jogadores,
avisava que sabia tudo da escola de malandragem, que ninguém iria ludibriá-lo.
Na maleta que carregava a cada viagem, além do uniforme levava obrigatoriamente
um revólver que, de vez em quando, usava preventivamente com disparos para o
alto, para assustar cartolas atrevidos que pretendiam intimidá-lo.
Há
relatos na imprensa de São José do Rio Preto (SP) de que Dulcídio colocou gente
da diretoria do América para correr no velho Estádio Mário Alves de Mendonça
(antigo estádio do América) quando houve tentativa de invasão em seu vestiário,
na década de 80.
Enquanto Dulcídio fazia a turma “dar no pé”, naquele período a maioria da
“juizada” afinava com intimidações dos clubes mandantes no futebol paulista.
DITADURA
Em
1970, Laudo Natel, governador biônico de São Paulo, imposto pela ditadura
militar, acumulava cargo de presidente do São Paulo, e sentava no banco de
reservas nas partidas de seu time. Ele chegava de helicóptero e sua presença era
intimidatória para a arbitragem.
O
São Paulo protagonizou um triste registro de intimidação a um árbitro de futebol
em 1981. Bráulio Zannoto foi agredido covardemente por seguranças são-paulinos
durante um jogo válido pela semifinal do Campeonato Brasileiro, contra o
Botafogo do Rio. O time carioca, que ganhou o primeiro jogo por 1 a 0 e jogava o
segundo por empate, ganhava por 2 a 0 em pleno Morumbi, mas perdeu por 3 a 2 e
foi eliminado.
O
juizão apanhou feio no intervalo. Seguranças estavam escondidos no vestiário e,
longe da proteção policial, Zannoto foi esmurrado e chutado no tornozelo. Assim,
mancava visivelmente em campo. Um dos bandeirinhas também foi agredido e outro,
mais esperto, escapou dos covardes agressores.
Pior: ameaçado, Zannoto sequer relatou os fatos na súmula.
* É
jornalista em Campinas e colaborador do HP |