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Homens que transformaram os tribunais em
trincheiras de luta
O comportamento heróico de Tiradentes diante
de seus algozes o une a vários revolucionários
do mundo que não se renderam diante do inimigo,
mas, ao contrário, usaram os tribunais-farsa
para denunciar a opressão com coragem e firmeza
e defender seus ideais
SÉRGIO CRUZ
Em 21 de abril de 1791, era martirizado no Rio
de Janeiro, depois de dois anos de prisão, o
Alferes da Cavalaria de Minas Gerais Joaquim
José da Silva Xavier, conhecido por todos nós
como o “Tiradentes”. Sua coragem e firmeza
diante dos algozes e a força de seus ideais,
mantidos intocáveis durante todo o processo
movido contra ele, feriram de morte o velho
regime colonial português e serviram de base
para a construção de um vigoroso movimento de
emancipação nacional no Brasil. O comportamento
heróico de Tiradentes durante a prisão e no
julgamento-farsa montado para condená-lo, foi
decisivo para que, mesmo conseguindo, num
primeiro momento o seu intento, a Coroa
Portuguesa visse, apenas trinta anos depois,
cair por terra o seu domínio sobre a região.
Porém, mais do que destacar este fato no dia de
hoje, ou seja, mais do que lembrar a vitória que
representou a firmeza de Tiradentes diante da
reação portuguesa, nosso objetivo é também
apontar os traços comuns que unem o líder
brasileiro a vários outros importantes
personagens da história da Humanidade. Líderes
que, como ele, também fizeram dos tribunais
poderosas armas de luta contra a opressão. Estes
traços presentes na personalidade do alferes,
como veremos, são comuns aos maiores
revolucionários.
Patriotas e revolucionários de vários cantos do
mundo derrotaram a reação, a violência e até
mesmo vermes como o fascismo e o nazismo, agindo
com firmeza e coragem diante de situações as
mais difíceis. Homens como George Dimitrov,
Nelson Mandela, Fidel Castro, Saddam Hussein e,
inclusive, Slovodan Milosevic, também souberam
fazer dos tribunais e prisões verdadeiras
trincheiras de luta contra tiranos e agressores.
Todos eles, mais cedo ou mais tarde, por conta
disso, acabaram transformando-se em verdadeiros
símbolos da luta e da vida de seu povo.
Exatamente como ocorreu com o nosso Tiradentes.
LÊNIN
A maneira pela qual se deve seguir lutando em
situações de cárcere ou de extrema violência,
sempre foi um tema caro a todos os
revolucionários em qualquer parte do mundo. Qual
deve ser a melhor forma de agir diante do
inimigo em caso de prisão ou julgamento?
Calar-se ou aproveitar qualquer brecha para
atacar a reação e defender a causa? Esta sempre
foi uma questão presente, a qualquer tempo, na
alma de todos os que lutam pela liberdade. A
luta toma várias formas a depender das
circunstâncias, da característica de cada época,
do tipo de regime, da correlação de forças
política, e de muitos outros fatores. Mas, a
sistematização dos traços comuns que devem reger
a ação de todo revolucionário nestes momentos
acabou sendo feita por um dos maiores líderes
revolucionários de todos os tempos, o comandante
da primeira revolução proletária vitoriosa no
mundo, Vladimir Ilitch Lênin.
Em carta dirigida ao Comitê Central do partido
bolchevique, em 1905, ao responder a um
questionamento da militância sobre o assunto,
ele pôde sistematizar os princípios gerais a
serem observados por todo revolucionário ao ser
preso, seja em que época for. Na carta, que
ficou conhecida como “Carta a Stassova”, numa
referência a Helena Dmitrievna Stassova,
militante bolchevique que havia levantado o
assunto, Lenin lança as linhas gerais do
enfrentamento com o inimigo sob as condições de
cárcere ou julgamento: “Mostrar-se politicamente
corajoso. Não prestar informações ao inimigo
sobre o que ele deve ignorar. Atacar o regime
acusador. Dirigir-se ao povo, por cima da cabeça
do juiz. Defender sua causa e não sua pessoa.
Não confiar sua defesa política a advogados”.
Veja, caro leitor, como, muito tempo antes de
sua elaboração por Lenin, no ano de 1791, foram
exatamente esses os aspectos principais que
marcaram a atuação do nosso alferes de Minas
Gerais diante da repressão e da encenação
jurídica imposta a ele pela Coroa Portuguesa.
Dois anos de prisão incomunicável, sem direito a
nenhum contato com amigos ou familiares e sob um
regime de tortura permanente. Onze
interrogatórios e um julgamento fraudado, onde
sua pena de morte já havia sido previamente
decidida. Mesmo assim, diante de tudo isso, o
réu permaneceu sereno e firme durante todo o
processo. Seguiu denunciando, de forma
contundente, o acintoso assalto de Portugal às
riquezas do Brasil e ainda contribuiu, ao
assumir toda a responsabilidade pelo movimento,
para livrar seus companheiros da morte. Impôs,
dessa forma, uma derrota sem precedentes aos
seus opressores.
Até mesmo o advogado José Oliveira Fagundes,
designado para defendê-lo, foi desprezado pelo
alferes, como depois orientaria o próprio Lenin.
O líder soviético argumentava que os advogados,
mesmo os mais comprometidos com a luta, ao se
aferrarem aos limites formais da lei,
esquecendo-se que ela é apenas uma expressão de
determinada correlação de forças estabelecida na
sociedade, não conseguem fazer a defesa adequada
no terreno da luta política, terreno este, onde,
segundo Lenin, esta luta deve e pode ser
travada.
A convicção de Tiradentes na vitória de seus
ideais, mesmo numa situação bastante adversa, é
oriunda da mesma fonte que nutre todos os
revolucionários em qualquer parte do mundo. Ela
vem de seu compromisso profundo com os
interesses e anseios de seu povo e da
conseqüente disposição inquebrantável para a
luta. Mesmo com pouco acesso às teorias
revolucionárias de seu tempo, desde logo em sua
vida, o alferes havia percebido que o
colonialismo português não tinha nada a oferecer
ao Brasil, senão o saque, a violência, a
humilhação e a imposição de um atraso secular ao
país. Os portugueses, dizia ele, só vêm aqui
para saquear nossas riquezas. Não há outro
caminho que não seja libertarmo-nos do jugo de
Portugal.
No início de sua movimentação, ainda jovem, ele
procurou arregimentar para a causa algumas
pessoas mais próximas. Nesta época já contava
com o apoio decidido do padre José de Oliveira
Rolim. Mas, é a partir de 1785, com a publicação
da Carta Régia, pela rainha de Portugal,
aumentando drasticamente a sangria externa e
proibindo qualquer atividade econômica no país -
que não fosse a extração de ouro e diamante para
enviar a Portugal -, que ele viu crescer a força
e as possibilidades do movimento. Daí em diante
a vida do alferes foi regida exclusivamente
pelos compromissos com a revolução. Fez contatos
clandestinos com o movimento de estudantes
brasileiros, que, da Europa, se dispunham a se
integrar na luta pela independência. Entre esses
estudantes estavam Álvares Maciel, que se
formaria em engenharia de mineração, em Coimbra,
e Joaquim da Maia, estudante de medicina em
Montpelier, na França, que iniciou os contatos
com Thomas Jefferson, líder da independência
americana e, então, embaixador dos EUA em Paris.
Buscando apoio entre os companheiros militares,
onde gozava de muito prestígio, Tiradentes
conquistou muitos adeptos para o movimento e até
mesmo o apoio decidido de vários de seus
comandantes.
Toda essa atuação certamente colocava em risco
sua vida, mas o alferes, em nenhum momento
pensou nisso como um obstáculo para a sua
atuação. Trabalhou sem parar organizando o
levante. Além dos contatos com líderes da
independência americana, articulou encontros com
revolucionários franceses e obteve deles a
promessa de apoio ao movimento. Iniciou um amplo
trabalho envolvendo todas as forças que se
opunham ao domínio estrangeiro no Brasil.
Elaborou um plano para sustentar o movimento,
baseado no confisco pelos revoltosos do
carregamento de ouro que seria levado para
Portugal. Construiu, junto com intelectuais como
Tomás Antônio Gonzaga, Cláudio Manoel da Costa e
Alvarenga Peixoto, um amplo programa de
libertação nacional. Preparou em detalhes, com
seus companheiros, a tomada do poder. Mas, preso
após a traição de um infiltrado disfarçado de
inconfidente, o alferes enfrentou a prisão, a
tortura e, em 18 de abril de 1791, foi a
julgamento. Nele manteve-se impassível e
reafirmou todas as denúncias contra o assalto
praticado por Portugal. Defendeu a liberdade
para o Brasil e afirmou serenamente perante seus
inquisidores que, se mais vidas tivesse, todas
elas seriam dedicadas à causa da liberdade. Essa
atitude de Tiradentes diante da repressão foi,
como dissemos, decisiva para a queda do domínio
português. A vitória política de Tiradentes, que
alguns mal informados, ou quem sabe mal
intencionados, enxergam apenas como um fracasso
militar, só foi possível graças a essa sua
coragem e determinação.
Esta mesma coragem foi demonstrada também, muito
tempo depois, na Alemanha, por um outro líder.
Um líder operário búlgaro chamado George
Dimitrov. As semelhanças de comportamento desses
dois líderes diante de seus algozes é muito
grande. Ante um tribunal nazista, mais de um
século depois do martírio de Tiradentes,
Dimitrov, este já um dirigente marxista
experiente, também derrotaria a farsa montada
por Adolf Hitler contra o movimento operário. Em
fevereiro de 1933, Hitler e seus asseclas, ainda
não consolidados no poder e precisando disto
para iniciar a sua barbárie por toda a Europa,
incendeiam o Reichstag, o parlamento alemão, e
lançam a culpa sobre os comunistas. A farsa
incrimina o Partido Comunista Alemão e a
Internacional, da qual, na época, o líder
búlgaro George Dimitrov era um dos dirigentes.
Dimitrov deixou claro durante todo o seu
julgamento que tratava-se de uma provocação do
regime alemão e que os nazistas é que tinham
ateado fogo no Reichstag. Mesmo não se
encontrando em Berlim no dia do incêndio
criminoso, mas sim em Munique, e podendo provar
isso, Dimitrov não usou este argumento durante
os interrogatórios e nem no julgamento. Achou
melhor atacar politicamente os seus algozes.
Concentrou-se na denúncia da farsa nazista.
O líder da Internacional desmoralizou a montagem
feita por Hitler e seus capangas. Mostrou que o
provocador holandês de nome Van Der Lubbe, autor
do incêndio, não tinha ligação com os
comunistas, mas sim com o vandalismo nazista.
Como Tiradentes havia feito, e depois Lenin
sistematizou, Dimitrov também não delegou sua
defesa a advogados. Escreveu ele próprio os seus
argumentos. Neles, foi categórico: “nem meus
camaradas nem eu tínhamos nada que ver com o
incêndio do Reichstag. Não tinha nem visto nem
encontrado Van der Lubbe e nunca tinha falado
com ele. Tal ato não podia ser cometido senão
pelos inimigos da classe operária e do
comunismo”, apontou.
Depois de um ano de luta, de um ano de denúncias
contra a arrogância nazista, Dimitrov
derrotou-os no tribunal. Por pressão da opinião
pública, que nesta época ainda não tinha sido
totalmente esmagada pela máquina nazista,
Dimitrov vence o julgamento e Hitler é obrigado
a libertá-lo. Ao sair da cadeia, afirma: “não
ter medo da morte não é heroísmo pessoal. No
fundo é uma peculiaridade dos revolucionários”.
MANDELA
Em um outro episódio, corrido na África do Sul,
na década de 60 do século XX, também há muitas
semelhanças com o processo de repressão na
Inconfidência. A determinação de Nelson Mandela,
líder inconteste do movimento contra o
apartheid, durante sua prisão, tornou-se um
exemplo seguido pelos amantes da liberdade em
todo o mundo. Jovem, ainda estudante de direito,
Mandela passou a integrar a oposição ao regime
racista, que impunha a segregação aos negros,
que eram a grande maioria da população da África
do Sul. Mandela integrou-se ao Congresso
Nacional Africano (CNA), em 1942, e dois anos
depois fundou a Liga Jovem do CNA. Em 1948
quando apoiadores da política de segregação
racial, do Partido Nacional, impuseram um novo
governo, Mandela tornou-se ativo militante do
CNA.
Tomou parte do Congresso do Povo, em 1955, que
divulgou a Carta da Liberdade - documento
contendo um programa fundamental para a causa
anti-apartheid. Diante da violência crescente
contra a população negra de seu país, Mandela e
seus companheiros decidiram recorrer à luta
armada. A decisão ocorreu logo após o massacre
de Sharpeville, em 21 de março de 1960, quando a
repressão do governo sul-africano atirou em
manifestantes negros, desarmados, matando 69
pessoas e ferindo 180. Em agosto de 1962 Nelson
Mandela é preso pelas autoridades sul-africanas
com a ajuda da CIA. No julgamento, ele também
fez a sua própria defesa. Nela ele acusou de
forma contundente o regime: “estou sendo acusado
por leis escritas por um parlamento que não me
representa (…) Nesta corte estou em frente a um
juiz branco, acusado por um promotor branco e
escoltado por soldados brancos. Pode alguém,
sincera e seriamente, achar que neste tipo de
atmosfera a balança da justiça é honesta?”.
Mandela considerou-se “não culpado”.
Em 12 de junho de 1964 foi sentenciado à prisão
perpétua. No decorrer dos vinte e seis anos
seguintes, Mandela se tornou de tal modo
associado à luta de seu povo que o clamor
“Libertem Nelson Mandela” se tornou bandeira de
todas as campanhas e grupos anti-apartheid ao
redor do mundo. Enquanto estava na prisão,
Mandela enviou uma declaração para o CNA, que
viria a público em 10 de Junho de 1980, em que
dizia: “Unam-se! Mobilizem-se! Lutem!”. Mandela
continuou na prisão até Fevereiro de 1990,
quando a campanha do CNA e a pressão
internacional conseguiram que ele fosse
libertado em 11 de fevereiro. Depois de mais de
25 anos, saiu para tornar-se presidente da
África do Sul.
Como estes, poderíamos citar vários outros.
Poderíamos falar, por exemplo, de Fidel que, ao
ser preso, após a tentativa, em 1953, da tomada
do Quartel de Moncada, contra a ditadura de
Batista Fulgêncio, transformou o seu julgamento
num grande tribunal que condenou não a sua ação
em Moncada, mas a humilhante submissão do regime
de Batista ao domínio norte-americano.
REVOLUÇÃO FRANCESA
Poderíamos lembrar também de Gracchus Babeuf na
seqüência da revolução francesa, ou de Louis
Blanqui, em sua prisão, em 1832, também na
França. Todos eles travaram uma luta titânica
nos tribunais. O primeiro denunciando a traição
à Revolução e o outro já desmascarando a
degeneração da burguesia francesa. Poderíamos
citar ainda Trinquet, Ferrét e Louise Michel,
líderes da Comuna de Paris, que enfrentaram com
altivez os juízes da reação no palco montado
para tingir de “legalidade” os crimes praticados
contra os líderes da primeira revolução operária
mundial.
Ou até mesmo de Karl Marx, que no processo de
Colônia, em 1849, desmascarou de forma
contundente os juízes burgueses por estes terem
se recusado a lutar contra o poder feudal em
decomposição e terem-no acusado de fazê-lo em
seu lugar. Engels chegou a dizer depois sobre
este julgamento, o seguinte: “em primeiro lugar,
vê-se aqui um comunista explicar aos jurados
burgueses que o dever de sua própria classe é
precisamente levar a cabo até as últimas
conseqüências, os atos que cometeu e graças aos
quais comparece, na qualidade de acusado,
perante eles”.
Mais ainda. Podíamos lembrar o heroísmo do
presidente iraquiano, Saddam Hussein, que usou
seu julgamento para desmascarar de forma cabal,
uma a uma, as mentiras de Bush e sua quadrilha,
revelando ao mundo as intenções espúrias do
império americano na agressão ao seu país.
Saddam denunciou que o assassinato por Bush de
milhares de iraquianos tinha como objetivo a
conquista de seu petróleo. Ou, por fim,
deveríamos destacar Slovodan Milosevick, que dos
tribunais montados pelos agressores da Otan,
deixou clara a intenção das potências
imperialistas de esquartejar a nação Iugoslava
para implantar o domínio de suas tropas e
corporações na região.
Enfim, ao homenagearmos nesta data o grande
herói brasileiro estamos também colocando o seu
nome ao lado de outros grandes revolucionários
da Humanidade. Ao fazermos isso, prestamos uma
homenagem não apenas a ele, mas a todos os que,
como o alferes, também mantiveram a altivez nas
situações mais adversas. Como disse Lênin, há em
todo o revolucionário uma marca registrada. Essa
marca é o amor por seu povo e a determinação
inquebrantável de lutar por ele. Este era o
compromisso de Tiradentes. |