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Em descompasso
com a Nação, Meirelles tenta frear crescimento
Em ata do Copom
e no Boletim Focus, BC faz campanha aberta pelo aumento dos juros para impedir o
desempenho da economia
Na quinta-feira, o Banco Central divulgou a ata
da reunião de seu Comitê de Política Monetária (Copom). Incrivelmente (ou
previsivelmente, o que, nesse caso, é a mesma coisa) o aumento de juros do dia
16 foi atribuído à “persistência de descompasso importante” entre a
oferta e a procura. Ou seja, o consumo do povo (a procura) estaria crescendo
mais do que a capacidade da indústria e da agricultura (a oferta) em
satisfazê-lo. Por isso, seria necessário diminuir o consumo – e daí o aumento de
juros.
MAIS INVESTIMENTOS
O presidente Lula, com razão, afirmou que não é
freando o consumo que se resolve um possível problema desse tipo, mas aumentando
a oferta de produtos, investindo mais para aumentar a capacidade de produção da
economia. Realmente, só cabeças deformadas, pervertidas pela rotineira
agiotagem, podem achar que o lógico e normal é fazer o contrário.
No entanto, o mais aberrante é que esse
“descompasso importante” (e, mais ainda, sua suposta “persistência”) não existe.
Meirelles & cia. ignoraram, deliberadamente - a rigor, dolosamente - todos os
dados de que o investimento no aumento da capacidade produtiva das empresas está
crescendo mais aceleradamente do que o consumo; de que essa capacidade produtiva
expandiu-se nos últimos anos; e, sobretudo, de que, devido a essa expansão da
capacidade produtiva (capacidade instalada), a parcela dela ainda não utilizada
pelas indústrias para a produção (capacidade ociosa) aumentou nos últimos meses.
Segundo a CNI (ver matéria nesta página), a capacidade ociosa cresceu 5 pontos
percentuais nos três primeiros meses deste ano em relação aos três últimos meses
do ano passado. Ou seja, o limite da capacidade da indústria para “ofertar” bens
aos consumidores não somente está longe de ser alcançado, como está mais longe
de ser alcançado do que estava no ano passado, apesar da produção haver
aumentado.
Então, resta saber qual é a razão verdadeira do
aumento de juros e da atual campanha para aumentá-los ainda mais. Pois, com o
mesmo mote do BC, os quadrilheiros da mídia, a começar pela “Veja”, advogam
agora o aumento de juros contínuo, permanente e, talvez, interminável. Uma
situação peculiar, mas não casual: são os inimigos do governo que defendem
Meirelles e o aumento de juros - e são os que apóiam o governo que são contra
esse aumento.
O notório Mendonça de Barros, pajem de Fernando
Henrique demitido no escândalo da privatização das teles, propugnou a suposta
necessidade de uma série consecutiva de aumentos nos juros, “entrando pelos
primeiros meses de 2009”, até chegar a uma taxa além dos 14%. Mendonça é
asinino o suficiente para colocar no papel e publicar as intenções da canalha de
que faz parte. Por exemplo, ele coloca entre os motivos para a elevação dos
juros o “aquecimento” do mercado de trabalho, ou seja, o aumento do emprego,
segundo ele altamente deletério, pois, na medida em que os desempregados se
tornem mais escassos, acabará levando a um aumento de salários...
Esta é a questão: o objetivo dos advogados do
aumento de juros é, precisamente, o de frear, travar e, se possível, acabar com
a política de crescimento, emprego e recuperação de renda da população,
empreendida pelo atual governo. Não existe outra explicação para essa ladainha,
uma vez que não existe qualquer fundamento econômico, mesmo do ponto de vista do
estrabismo usurário que eles entendem por economia. Não é por outra razão que,
na ata do Copom, Meirelles não conseguiu um pretexto para o aumento de juros:
foi obrigado a mentir de forma absolutamente descarada sobre um “descompasso”
entre oferta e procura, mesmo sabendo que essa mentira seria percebida com
facilidade. Simplesmente, não lhe restou outra coisa a fazer para que cumprisse
a sua tarefa.
Há nesse descaso completo com a verdade dos
fatos e com o público, além de sem-vergonhice abissal, um desespero por impedir
o crescimento do país e tudo o que hoje é sintetizado pela sigla PAC (Programa
de Aceleração do Crescimento). Não é uma coincidência que estejamos em ano
eleitoral – e que a popularidade cada vez maior do presidente Lula seja o fato
mais relevante da situação política, um fato que poderá ser decisivo na
determinação do futuro do país, ou seja, na escolha do próximo presidente.
Mais ou menos como Mendonça, ainda que menos
estuporados, agiram os demais corifeus tucanos ou filo-tucanos na imprensa.
Porém, foi o próprio BC que divulgou um novo “Boletim Focus”, no último dia 27,
com mais uma previsão de aumento da inflação e dos juros até dezembro. Não é
espantoso, portanto, que no cassino do mercado futuro as apostas em aumentos de
juros tenham se tornado uma frenética dança de São Guido – naturalmente, sem a
devida santidade.
CASSINO
Mas, por que o BC está provocando a voracidade
dos especuladores? Certamente, o negócio de Meirelles sempre é passar mais e
mais dinheiro público para os bancos, principalmente os externos. Porém, eles já
estavam ganhando muito e não pareciam estar em polvorosa por elevá-los. Mesmo os
0,25 de aumento nos juros que alguns noticiaram, antes do último dia 8, que
seria a “expectativa do mercado”, eram uma invenção do BC, através de seu
“Boletim Focus”. Naquele dia, essa “expectativa” passou de repente para 0,5. O
único motivo foi a edição do Boletim Focus daquela semana, prevendo um aumento
de 1,5 ponto até dezembro.
Logo, é fato que a atual campanha de alguns
proxenetas pelo aumento de juros foi disparada pelo próprio BC. Para isso servem
as edições semanais do Boletim Focus e a ata do Copom.
Entretanto, por quê? Por que justo agora?
Somente os 0,5 de aumento do dia 16 significaram
um aumento na dívida pública de R$ 2,9 bilhões (fonte: Secretaria do Tesouro).
Um aumento contínuo de juros nos próximos meses significaria um aumento cada vez
maior nas transferências do Tesouro para os bancos, um estrangulamento
progressivo das finanças do governo. Ou seja, um aumento contínuo da parcela do
Orçamento que é empregada para pagar juros. E, como conseqüência, uma redução
contínua da parcela disponível para investimentos.
O crescimento deslanchado pelo PAC teve como motor, precisamente, os
investimentos estatais. Foram as verbas públicas designadas pelo governo para o
Programa de Aceleração do Crescimento que mudaram o ambiente econômico, fazendo
com que os empresários acompanhassem – ou por sua participação nas obras do PAC
ou pela perspectiva de que seus negócios prosperassem com o crescimento – essa
ação pelo desenvolvimento do país.
É evidente que os investimentos estatais e o
crescimento serão jugulados se os juros aumentarem continuamente – e o limite,
supõe-se, é o infinito, já que até a “expectativa” de 13,75% em dezembro, que um
economista como Delfim Netto considerava “fantásticos” há apenas três semanas,
já foi superada. Fala-se agora, como propalou Mendonça de Barros, em “mais de
14%” até o início do ano que vem.
Se não há fundamento econômico algum, nem mesmo
do ponto de vista deles, não há como deixar de concluir que a ação do BC e a
atual campanha jurássica são de natureza política. Em síntese, seu alvo é
o crescimento econômico alcançado pelo governo Lula. Seu objetivo é travá-lo e
fazer o Brasil voltar às – nas palavras do presidente – medíocres taxas de
crescimento anteriores, quando o BC estabeleceu que o máximo que o país poderia
crescer seria 3,5% ao ano. Isso, na melhor das hipóteses. Deixando Meirelles à
solta, é discutível se existirá, em breve, alguma taxa de crescimento.
São óbvias as conseqüências políticas. Os
recordes de popularidade do governo e do presidente Lula, merecidamente, têm
como base o fim da estagnação do país, ou seja, o crescimento da economia – o
aumento do emprego, da renda e da produção. Mas é com isso que eles querem
acabar. Melhor será que, antes, acabemos com eles. Pelo menos, dentro do
governo.
CARLOS LOPES
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