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As
estratégias política e ideológica dos EUA
Em dois capítulos
de seu livro “Quinhentos anos de periferia”, que publicamos hoje, o
secretário-geral do Ministério das Relações Exteriores, embaixador Samuel
Pinheiro Guimarães, mostra como os EUA tentam impor sua hegemonia política e
ideológica através da pretensa “missão” de defesa da liberdade
SAMUEL PINHEIRO GUIMARÃES
A
grande estratégia política americana pode ser resumida na idéia de manter a
hegemonia política americana em âmbito mundial, adquirida com a Segunda Guerra,
por meio de um sistema político internacional que garanta a igualdade soberana
dos Estados, sem contestação pela força de suas fronteiras, e a autodeterminação
para fins de organização política interna.
Essa grande
estratégia tinha e tem como objetivos intermediários:
1.
Implantar por tratado e preservar uma organização política internacional, de
âmbito universal, de duração indefinida e garantir o direito de veto dos Estados
Unidos nas decisões dessa organização e a preponderância das decisões do governo
americano sobre qualquer decisão internacional.
O desejo de evitar
novos conflitos mundiais que pudessem colocar em risco a hegemonia do sistema
capitalista-liberal democrático, sob a liderança anglo-saxônica; a inexistência
de reivindicações territoriais americanas; sua certeza de que, na qualidade de
maior potência econômica, financeira e comercial, a paz garantiria sua
influência e hegemonia econômica e política no mundo; a necessidade de combater
a tendência isolacionista interna; a consciência que de que sua força militar
seria insuficiente para manter, sozinha, a paz conseguida em 1945, inclusive por
causa do poderio militar convencional soviético – tudo isso fez Roosevelt
ressuscitar o ideal de segurança coletiva, de Wilson.
A implantação, por
tratados, de uma organização política internacional, de âmbito universal, de
duração indefinida, se tornou o grande objetivo após 1945 e o principal
instrumento de “organização” da comunidade “caótica” de Estados e da política
exterior americana. A Carta das Nações Unidas – elaborada pelo Departamento de
Estados dos Estados Unidos e aceita em sua essência pelas quatro potências
patrocinadoras da Conferência de São Francisco, duas delas sem poder econômico,
militar ou político e a outra satisfeita com sua aceitação na condição de grande
potência e segura de que a nova organização não se poderia voltar contra ela
graças ao direito de veto – foi praticamente aceita sem modificações pelos
países participantes da conferência, satisfeitos com a garantia do fim do
isolacionismo americano e gratos por terem sido salvos do nazismo.
Nessa discussão há
dois pontos principais a reter. Primeiro, foram criadas duas classes de Estado:
os que detêm o poder de impedir a ação das Nações Unidas e os que não detêm esse
poder. Estes últimos são obrigados a cumprir as decisões do Conselho de
Segurança, órgão supremo, com poder de exercer a força militar e de obrigar, por
meio de sanções, o comportamento dos Estados. Segundo, para a política exterior
americana, as Nações Unidas (e qualquer outro organismo internacional) são uma
criatura sua e não um organismo que tivesse resultado de decisão soberana, livre
e consensual da comunidade internacional, vista como um todo ou regional. Tais
organizações são úteis quando convenientes e se tornam descartáveis quando
inconvenientes ou quando tomam posições contrárias a seus interesses. Assim, o
direito de veto que se auto-atribuíram os Estados Unidos e que decidiram
partilhar com um grupo restrito de Estados, assim como a idéia de que as
decisões do Estado americano são superiores a qualquer decisão de organismos
internacionais e sua disposição de enfraquecer, desrespeitar as normas ou
retirar-se desses organismos sempre que estes contrariem os desígnios da
política americana são um princípio central da estratégia dos Estados Unidos.
2. Agir para a implantação e permanência de regimes políticos, democráticos e
representativos se isso for conveniente, em terceiros países que melhor
assegurem a influência e a defesa dos interesses políticos e econômicos
americanos.
A
internacionalização da economia e da sociedade americana, em termos de
investimentos, de acesso a materiais estratégicos, de dependência da sua
indústria em relação a insumos estratégicos importados, de mercados para seus
bens e capitais, da necessidade de estacionamento de tropas americanas no
exterior, de livre acesso de seus navios a águas e portos estrangeiros, de
proteção de grande número de homens de negócios americanos “expatriados”,
confere importância à existência de governos em terceiros países que melhor
assegurem a influência e a proteção dos interesses políticos e econômicos
americanos.
A natureza
democrática desses regimes é uma circunstância desejável, em especial pela maior
transparência dos procedimentos legislativos democráticos, a maior independência
do Judiciário e a redução do poder discricionário do Executivo; isso, a
contrario sensu, ao não existir nos regimes autoritários, dificulta o
exercício de influência americana e pode levar a surpresas, por causa de
mudanças súbitas e imprevisíveis de política.
O requisito
essencial é a atitude em face dos interesses americanos. Assim, além da longa
tolerância, apoio e até promoção de regimes autoritários na América Latina, na
África, na Ásia e mesmo na Europa, e apesar da retórica democrática atual, os
regimes autoritários e oligárquicos são perfeitamente tolerados e tratados com
grande consideração, apesar de serem, em muitos casos, monarquias absolutas ou
regimes de aparência democrática e republicana, porém autoritários.
3. Auxiliar os movimentos políticos de oposição a governos que contrariem os
interesses econômicos americanos e contestem as suas iniciativas políticas.
A política
americana de auxílio a movimentos políticos de oposição a governos que
contrariam interesses americanos e contestam suas iniciativas políticas se
desenvolveu durante toda a Guerra Fria. De forma discreta e encoberta, em parte
pela necessidade de aparentar respeito ao princípio de não-intervenção nos
assuntos internos dos Estados, consagrado na Carta das Nações Unidas, essa
política se exercia por meio da Central Intelligence Agency (CIA) e de outras
agências americanas, ou indiretamente, pela negativa de cooperação com os
governos, o que auxiliava a oposição a eles e criava condições favoráveis à sua
eventual substituição.
A partir do
governo Carter, que gradualmente tornou a política de defesa de direitos humanos
uma razão para intervir em assuntos internos de outros países, e em seguida no
governo Reagan, os Estados Unidos passaram a apoiar abertamente movimentos,
inclusive armados, contrários a governos “inimigos”, como ocorreu na Nicarágua,
em Angola e no Afeganistão.
A técnica
subversiva de favorecer e apoiar, inclusive com armas e recursos, províncias,
minorias étnicas ou tribais e seitas religiosas contra o governo central,
democrático ou não, que se oponha a interesses americanos, é uma constante na
política americana, anterior a Reagan e Carter, os quais apenas a “escancararam”
e “legitimaram”.
A ESTRATÉGIA IDEOLÓGICA
A grande
estratégia americana pode ser resumida na idéia de manter a hegemonia ideológica
americana adquirida com a vitória na Segunda Guerra Mundial e de promover a
aceitação dos modelos americanos políticos, econômicos e sociais como o padrão
ideal a ser alcançado por todos os países.
A política
exterior americana só pode ser compreendida ao se observar o que a sociedade
americana pensa de si e o que o seu governo pensa de si e da sociedade
americana.
A sociedade
americana considera que seu sistema político é o mais perfeito jamais
desenvolvido pelo homem. A prova disso seria sua permanência no tempo e a
inexistência de interregnos ditatoriais desde a Constituição de 1787.
A sociedade
americana considera que seu sistema econômico conseguiu criar a maior e mais
dinâmica economia do mundo, em que existe igualdade de oportunidades, em que as
diferenças de renda – quando existem – não são excessivas e na qual as que
existem são “naturais”, em que os mercados são livres e competitivos, em que o
poder econômico não controla o governo e o Estado.
A sociedade
americana acredita que sua política exterior é essencialmente pacífica, que as
ações militares que empreende visam ao bem-estar da comunidade internacional e
nunca o proveito para os Estados Unidos e que os demais Estados têm uma inata
tendência agressiva, expansionista e competitiva.
A sociedade
americana considera que é sua missão, como principal Estado, preservar os
valores ocidentais – que seriam a liberdade política e religiosa, a democracia e
o capitalismo – no mundo e lutar pela sua difusão contra seus inimigos.
Os objetivos
intermediários da estratégia ideológica americana podem ser assim descritos –
naturalmente de forma sintética.
1. Garantir o livre acesso dos sistemas de divulgação do American way of life a
todas as sociedades.
Esse objetivo é
buscado com a defesa dos princípios de “liberdade de informação” e a oposição a
toda política de proteção à produção cultural, em qualquer país, tais como
quotas de exibição em cinema, televisão e vídeo, políticas estatais de subsídio
às artes e a seus meios de difusão. A importância que atribuem à questão
ideológica aparece na defesa do acesso das agências noticiosas e dos jornalistas
americanos a qualquer país e na objeção à criação de agências estatais de
notícias. Os Estados Unidos desligaram-se da Unesco quando a instituição decidiu
criar uma nova ordem internacional da informação.
2. Promover a divulgação dos ideais americanos por meio de sistemas de
treinamento profissionais para prováveis integrantes das futuras elites de
terceiros países.
Esse objetivo foi
promovido pela United States Information System (Usis) e os programas de bolsas
de estudo das universidades, das fundações, do programa Fullbright e outros, em
especial a partir da criação da United States Agency for International
Development (Usaid). Esse programa, de efeitos em longo prazo, mostra hoje seus
resultados em países da periferia. Em diversos deles, as equipes de política
econômica – e às vezes os ministros de Estado – tiveram sua formação
profissional nos Estados Unidos.
3. Garantir o controle dos secretariados de organismos internacionais
multilaterais com capacidade de formulação ideológica “internacionalista”.
Os secretariados
de organismos internacionais, pelas características do sistema de distribuição
geográfica dos cargos e pela vocação idealista e “internacionalista” de seus
integrantes, em especial nas décadas iniciais das Nações Unidas, tenderam a
desenvolver idéias e teorias que, levando em consideração as assimetrias do
poder econômico e político, foram tomadas como desafiadoras aos interesses
americanos. Assim, o controle progressivo desses secretariados, a redução de
dotações e a mudança de sua orientação, em especial no caso do setor econômico
das Nações Unidas, foi considerado objetivo estratégico importante,
razoavelmente alcançado nos casos da Cepal, do BID, da Unctad e da Unido, se
alinharam progressivamente com a ideologia econômica “correta” do Banco Mundial,
do FMI e da OMC.
4. Apresentar o modelo socialista de organização política, econômica e social
como intrinsecamente mau, destruidor dos valores ocidentais.
A estratégia
ideológica dos Estados Unidos se beneficiou fortemente da existência do
socialismo na União Soviética como sistema competitivo de organização social,
política e econômica. A existência desse sistema permitiu àquela estratégia não
só atacá-lo como estigmatizar, como inimiga e perigosa, qualquer crítica à
política e à sociedade americana.
Tendo desaparecido
o conflito Leste-Oeste, a estratégia ideológica americana deixou de se referir
ao inimigo soviético e passou a considerar como sua tarefa a defesa da
globalização e da democracia no plano mundial, de que são novos inimigos o
fundamentalismo islâmico, o narcotráfico e o terrorismo, sempre que dificultem
os interesses americanos. A ameaça deixa de ser a agressão soviética (se bem que
esta seja mantida em uma espécie de freezer político) para se localizar de forma
difusa.
5. Apresentar os Estados Unidos como paladinos da independência dos povos
coloniais, da liberdade individual, da democracia, da iniciativa privada e dos
valores espirituais do homem, da igualdade e da não-discriminação étnica,
social, religiosa e econômica.
Nessa tática, os
Estados Unidos se apresentaram por meios de seus aparelhos de propaganda,
oficial e privada, como os paladinos da democracia (apesar de seu apoio a
diversas ditaduras) contra a ditadura socialista; da independência dos povos
coloniais (apesar de seu voto contrário sistemático nas Nações Unidas à
independência das colônias portuguesas), da não-discriminação étnica (apesar da
legislação racista do Sul e de toda discriminação até hoje existente, de fato,
contra minorias em geral); dos valores espirituais do homem (apesar do culto ao
consumismo, à riqueza, ao hedonismo); da igualdade social e econômica (basta ver
as escolas públicas e o sistema universitário de alta qualidade aos quais as
elites têm acesso especial pela riqueza ou pela influência) e religiosa. |