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Público
de filmes brasileiros cai 30% no primeiro semestre
Monopólio das
multinacionais sobre a exibição e a distribuição está arrasando o nosso mercado
cinematográfico, sob as bênçãos da Ancine e do Minc
VALÉRIO BEMFICA
O público do cinema no
Brasil caiu 11,3%. O dos filmes nacionais amargou uma redução ainda maior: 30%,
caindo para o lamentável patamar de 8,2%. Calma, caro leitor: nem você pegou um
jornal velho por engano, nem o HP está repetindo matérias. É verdade que já
escrevemos um artigo, de teor semelhante, em janeiro deste ano. E, em setembro
do ano passado, o camarada Sérgio Rubens também abordava o tema. Mas,
infelizmente, é a realidade que tem se repetido. São 5,4 milhões de ingressos a
menos no primeiro semestre de 2008, sendo que 1,5 milhões nos filmes
brasileiros. Ano a ano, semestre a semestre, menos brasileiros vão ao cinema e
menos espectadores assistem a filmes nacionais, sem que as autoridades
competentes – Minc e Ancine – façam qualquer coisa de significativo para
resolver o problema.

E por que isso?
Sejamos francos e diretos. Estas duas estruturas têm se colocado, no essencial,
ao lado daqueles que fazem a ruína do cinema – e da cultura em geral - no
Brasil, ou seja, as multinacionais do entretenimento. A cada nova queda
radicalizam-se as medidas que geraram o declínio. A cada notícia ruim, ouvem-se
os conselhos dos que estão acabando com o nosso mercado. Mais abaixo
desfilaremos alguns dados que demonstram isso. Mas, como a verdade nua e crua às
vezes é difícil de digerir, apelemos antes para uma fábula. O inventor do
gênero, Esopo, resolveu dar voz aos animais. Aquilo que, de tão óbvio, passava
despercebido aos homens, dito por bichos acabava por revelar verdades
importantes. Graças a sua habilidade de contar histórias – e desvelar as
hipocrisias humanas - o fabulista, que era escravo, conquistou a liberdade e
tornou-se conhecido há mais de dois milênios. Não temos tanta pretensão. Mas
quem sabe com uma historinha consigamos ao menos abrir os olhos da classe
cinematográfica.
Imaginemos então um
doente, totalmente tomado por parasitas e vermes, que se dirigisse a um posto de
saúde. Mas, ao chegar lá, o atendente, ao invés de chamar um médico, resolvesse
ouvir justamente os causadores da doença, pedir a eles os conselhos para a cura.
Rapidamente a sanguessuga diria: o sangue desse cara é muito fraco, além de ser
pouco. Eu quase não consigo me alimentar! A solitária, por sua vez, argüiria: E
se alimenta pessimamente. Estou quase passando fome! As lombrigas completariam:
Não tem variedade nenhuma, é só farinha e rapadura. Como vamos sobreviver assim?
As pulgas e os piolhos tampouco se calariam: E a magreza desse sujeito? Dá o
maior trabalho tirar um sanguinho. E o atendente do posto de saúde, tendo ouvido
tão doutas opiniões, desse ao paciente, no lugar de remédios para seus males, o
seguinte conselho: vá para casa e trate bem dos bichinhos, sem eles você não
conseguirá ir muito longe...
É como o atendente da
fábula que as autoridades culturais têm se comportado. Só dão ouvidos à
sanguessuga Cinemark, às lombrigas Sony, Fox e Universal, à solitária NET, à
pulguinha UCI, enquanto o mercado cinematográfico brasileiro definha. E não ache
o leitor que estamos sendo radicais. É só ver as medidas tomadas: a cota de tela
reduz-se cada vez mais, o acesso ao dinheiro público é liberado, seja pelo
artigo terceiro da lei do audiovisual, seja pelo financiamento do BNDES, para a
abertura de salas, o preço dos ingressos, completamente liberado, chega a
patamares siderais, mantém-se o aviltamento da meia-entrada iniciado no governo
FHC.
E os parasitas
continuam querendo mais. Rodrigo Saturnino Braga, conhecido testa-de-ferro das
multinacionais, atualmente dando expediente na Sony, sugere que só filmes
brasileiros que tenham um contrato de distribuição (com eles, é claro), possam
ser produzidos. Ou seja, que a arte brasileira seja submetida à política
comercial das multinacionais! O chefete da Cinemark, além de reclamar sempre da
meia-entrada, avisa que vai aumentar seus preços, criando “salas VIP”.
Mas deixemos um pouco
a opinião dos agentes patológicos e lancemos um olhar aos dados concretos do
mercado nacional. Ou seja, façamos o que o médico faria: olhar o paciente,
descobrir seus sintomas e, então, baseados neste diagnóstico, prescrever o
remédio.
A primeira coisa que
salta aos olhos é a falta de salas de cinema no país. Hoje são cerca de 2.120.
As múltis, secundadas por seus representantes na Ancine e pela grande imprensa,
gostam de ressaltar que dobramos o número de salas desde 1997, ano da chegada
dos cartéis da exibição no Brasil. Mas esquecem de dizer que, trinta anos atrás,
tínhamos 3.156 salas. Ou seja, enquanto a população brasileira cresceu cerca de
70% no período, o número de salas de exibição diminuiu 33%. Mais ainda, as salas
sumiram das periferias e cidades do interior: apenas 8% dos municípios têm
cinemas. No ano de 2006 (último dado disponível) duas redes estadunidenses já
dominavam mais de 40% dos ingressos vendidos. Garantem que vão continuar
“investindo” (isto é, monopolizando o mercado), sempre em shoppings das grandes
cidades.
A segunda questão é o
preço dos ingressos. Enquanto em 1971 eles custavam cerca de U$ 0,33 e em 1975 –
ano de maior público de cinema no país – U$ 0,39, hoje ultrapassam os U$ 5,00,
quinze vezes mais do que há 37 anos. O que antes era uma diversão popular virou
programa para endinheirados. Como os donos da maioria das salas dão expediente
nos EUA, querem que os preços aqui sejam semelhantes aos que se praticam lá.
Os dois primeiros
aspectos deixam clara a estratégia dos oligopólios da indústria cultural:
diminuir o público, aumentando a renda. Mas qual produto este seleto público
está recebendo? Uma gororoba cada vez pior... Manter a diversidade e a qualidade
dos filmes implicaria em custos, o que reduziria a margem de lucro. E quem diz
isso não somos nós, leitor. É um tal de Marcelo Bertini, capo da Cinemark no
Brasil. Sem a menor vergonha, ele disparou um dia desses na imprensa: “Muitas
vezes é preciso penalizar a diversidade, em busca de um melhor desempenho da
indústria”. Deixando mais claro: quanto menos filmes forem lançados, melhor. Se
for possível, passam dois ou três títulos na rede inteira, pouco importando se o
público gosta ou não. Não é o gosto do espectador que determina o que vai ser
exibido, mas o “desempenho da indústria”. Fecha-se assim a receita dos parasitas
para o cinema no Brasil: salas para poucos, ingressos caros, programação ruim.
Isso só se tornou
possível graças à conivência das autoridades do setor cinematográfico com a
absurda monopolização do setor. Se no setor de exibição as múltis já dominam
quase a metade do mercado, na distribuição elas reinam soberanas: em 2006 só as
cinco maiores controlaram 78,2% do mercado. Isso significa dizer que quem dita
os rumos do audiovisual no Brasil fala inglês e mora nos Estados Unidos da
América! Enquanto isso uns poucos burocratas, aboletados confortavelmente em
agências e secretarias, enxergam os gringos como parceiros e recitam palavras
recém-decoradas (“novos modelos de negócio”, “convergência”, “conteúdos”,
“sinergia”). Chegam mesmo a acreditar em “uma forte solidariedade entre o
segmento da produção de conteúdos com os segmentos responsáveis pela
distribuição e programação desses conteúdos”. Ou seja, na consolidação do
monopólio. E, para não pegar mal, distribuem alguns caraminguás para que os
companheiros de classe continuem produzindo filmes que serão lançados com
meia-dúzia de cópias e vistos por ninguém.
Ao contrário de todos
os outros setores da economia, aonde a parceria entre empresas e governo vem
aumentando o consumo, principalmente nas classes mais baixas, no cinema reduz-se
a oferta, eleva-se o preço, diminui-se a variedade e a qualidade dos produtos.
Boa coisa não podia dar. Mas, se o diagnóstico para a doença do setor
cinematográfico é monopolite aguda, qual o remédio? Umas poucas e boas medidas
de regulação e incentivo.
A primeira delas é a
definição de cotas sérias para o setor: tanto os cinemas quanto a TV aberta e a
TV por assinatura devem refletir a capacidade criativa e de produção do
audiovisual brasileiro. O cinema brasileiro já foi capaz de ocupar 50% de seu
mercado. E, ousamos dizer, continua sendo. Basta remover os entraves colocados
pelos monopólios, contrapondo às gigantescas campanhas de marketing de seus
blockbusters a obrigatoriedade de exibição de filmes do mundo inteiro e,
principalmente, do Brasil. A segunda é a criação de uma estrutura de
distribuição estatal. É no mínimo inocência (em geral é sem-vergonhice mesmo)
acreditar que pequenas empresas, quase familiares, poderão fazer frente aos
grandes oligopólios hollywoodianos. E a terceira é a descentralização da
estrutura de exibição, que poderá ser feita em parceria com estados e municípios
e mesmo com empresas nacionais, explorando um mercado gigantesco que é
desprezado pelas paquidérmicas redes norte-americanas.
Agindo nestas três
frentes estaremos criando platéias, enfrentando a embrutecedora imposição da
estética imperialista no audiovisual e garantindo a milhões de brasileiros o
direito de ir ao cinema e ter o seu imaginário minimamente retratado nas telas.
E o primeiro passo a ser dado é a instalação, na cadeira de Ministro da Cultura
de alguém mais disposto a ouvir o Brasil do que os vermes. Até a semana passada,
o entronado tinha ouvidos moucos para o país, mas ouvido absoluto para as
aspirações das multinacionais. O presidente Lula tem agora uma oportunidade de
ouro para colocar a cultura no rumo certo, ou seja, no caminho do
desenvolvimento que a nação brasileira resolveu tomar desde as eleições de 2002. |