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Olimpíadas 2008 e o
lixo midiático
ALTAMIRO BORGES*
Num artigo corajoso e
lúcido, o respeitado intelectual César Benjamin, que recentemente estreou uma
coluna semanal na Folha de S.Paulo, desafinou o coro quase unânime da mídia
burguesa na cobertura das Olimpíadas da China. “É deveras impressionante o lixo
ideológico que a imprensa tem produzido ao cobrir as Olimpíadas. Em geral, os
repórteres buscam sempre os ângulos mais negativos, mesmo à custa de adentrar o
ridículo”, dispara logo no primeiro parágrafo, o que pode até custar o seu
reduzido espaço na Folha, um jornal que se diz pluralista, mas que tem marcado a
cobertura com a mais rancorosa manipulação anticomunista, típica dos tempos da
“guerra fria”.
O artigo relata
“coisas incríveis” transmitidas pela TV que incomodam até os críticos à esquerda
da complexa experiência chinesa. “O locutor ressalta o caráter repressivo do
regime, enquanto as imagens mostram, como prova disso, um grupo de guardas de
trânsito e câmeras de televisão que monitoram avenidas. O locutor fala do
controle do Partido Comunista sobre as pessoas, enquanto na tela aparecem
torcedores que preparam uma coreografia. Manifestações com menos de cinco
indivíduos são tratadas como acontecimentos épicos. Se houver um pouco maiores,
é a prova de que o povo está contra o governo. Se não houver, é a prova de que a
repressão é terrível”.
Já na mídia impressa,
como a Folha, “repórteres monotemáticos escrevem todos os dias sobre a falta de
liberdade de expressão, carregando nas tintas, para cumprir a pauta que
receberam dos chefes. Se não cumprirem, serão demitidos. Defendem, pois, uma
liberdade que eles mesmos não têm”. Ao final do artigo, César Benjamin apela ao
bom jornalismo, mais informativo e menos deturpado. “Agora que os jogos
começaram, torço para que o lixo ideológico se retraia, para que finalmente
possamos prestar atenção nos atletas. A festa lhes pertence. Tomara que seja
linda”.
A CAMPANHA PRÉVIA
DE SABOTAGEM
O texto indignado e
corajoso da César Benjamin expressa bem o sentimento das pessoas com um mínimo
de senso crítico. É deplorável assistir nas telinhas o destaque dado ao discurso
petulante do carniceiro George Bush, na abertura dos jogos, em defesa dos
direitos humanos. Logo ele que é culpado por um milhão de mortos no Iraque
invadido e dizimado; que incentiva abertamente as torturas nos campos de
concentração de Guantánamo e Abu Ghraib; que banca a Patriot-Act, que restringe
as liberdades democráticas nos EUA. É repugnante ouvir o italiano Silvio
Berlusconi, o francês Nicolas Sarkozy e outros fascistas europeus condenando a
falta de democracia na China, isto após aprovarem a abominável lei da “Diretiva
do Retorno” contra os imigrantes.
Como já havia
antecipado Michel Chossudovsky, professor da Universidade de Ottawa, a mídia
mundial promoveu intensa campanha prévia visando sabotar a Olimpíada de Pequim.
Sua última e desesperada cartada foi o vídeo do Partido Islâmico do Turkistão
contendo ameaças de ataques terroristas na China. No mês de julho, dois
atentados no interior foram assumidos por esta seita, “apoiada pelo Serviço de
Inteligência do Paquistão, que atua em estreita colaboração com a CIA, a agência
de espionagem dos EUA”. A campanha midiática contou também com as ameaças do
Dalai Lama, o “pacifista” que apoiou a invasão do Iraque, e com outras
manipulações grotescas. Apesar da ofensiva, a Olimpíada começou e, como diz
César Benjamin, “tomara que seja linda”.
* Altamiro Borges é
jornalista, membro do Comitê Central do PCdoB e autor dos livros “As
encruzilhadas do sindicalismo” (Editora Anita Garibaldi, 2ª edição) e
“Venezuela: originalidade e ousadia” (Editora Anita Garibaldi). |