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Quem confia em Aécio Neves?
GILSON CARONI FILHO
O governador de Minas Gerais, Aécio Neves, gosta
de aparecer na grande imprensa como o “tucano diferente”. Um oposicionista
que caminha na contramão da política pequena de seus companheiros de
partido, apresentando-se como um homem público preocupado com o
desequilíbrio federativo, originado pelo que chama de “hegemonia paulista na
política”. Sua originalidade residiria no fato de ser um oposicionista com
propostas para o país, ave rara no bloco conservador. Nada mais enganoso.
Nada mais perigoso.
Suas críticas mais recentes ao governo do
presidente Lula desmontam os elementos discursivos empregados na tentativa
de produzir sua significação, de elaborar uma persona que o defina como
“construtor de pontes” entre partes que, segundo ele, estão “cegas por
radicalizados projetos de poder”.
Segundo o jornalista Ricardo Noblat, o
governador lamenta que Lula desperdice o seu segundo mandato não promovendo
reformas na Previdência Social, na área tributária e nas relações
trabalhistas. Todas elas, segundo Aécio, ”indispensáveis para a fundação de
um Estado moderno, ficarão para ser feitas pelo sucessor de Lula. Que ainda
será obrigado a enxugar despesas governamentais que não param de crescer”.
Como se vê, não há qualquer diferença entre as prioridades do “construtor de
pontes” e o ideário neoliberal da cúpula tucana. As reformas estruturais
mais importantes - agrária, habitação, educação e a do saneamento básico-não
têm lugar na sua agenda. Como não teve nas de FHC, Serra e Alckmin.
A reforma da Previdência é uma bandeira cara ao
neoliberalismo. Com o “nobre” propósito de combater um falso déficit, o
objetivo é a supressão de direitos, principalmente de mulheres e
beneficiários do salário mínimo. Aécio finge ignorar que as receitas superam
as despesas, mesmo após três anos seguidos de aumentos reais do mínimo.
Simula desconhecer que o presidente já afirmou
que a reforma será pautada pelo Fórum de Negociação da Previdência, como
proposta amadurecida na sociedade civil, ”permitindo que as novas gerações
tenham um sistema mais condizente com as necessidades dos trabalhadores”. Um
foco bem diferente do que reza o receituário mercantil.
Não sabe também que, em fevereiro, o governo
encaminhou projeto de reforma tributária que pretende desonerar empresas,
gerar mais empregos e acabar com a guerra fiscal entre os Estados. Em que
nuvem anda o jovem Aécio? Ou em que praia do litoral fluminense tem surfado
o neto de Tancredo?
Para o “construtor de pontes”, o PAC ( Programa
de Aceleração do Crescimento) não passa de uma jogada marqueteira. “Rode por
Minas. Tente encontrar alguma obra de vulto financiada pelo PAC. Não
encontrará”, aconselha.
Pena que tenha esquecido de dizer que o Estado
que governa tem 114 das 119 prefeituras envolvidas em desvios de verbas do
programa. E que o PSDB detém o maior número de prefeitos sob suspeita de
fazer parte do esquema de apropriação ilegal dos recursos. Alguém precisa
lembrar ao governador que obras de vulto não brotam do chão, ainda mais se
no subsolo há dutos duvidosos. E que, como liderança estadual, cabe a ele
alertar seus correligionários quanto a esse pequeno deslize ético.
Em visita ao Rio, na manhã de um ensolarado 15 de agosto, Aécio atacou
supostas falhas do governo na segurança pública, argumentando que “o governo
federal não assumiu a sua responsabilidade na questão da segurança pública,
contingenciando recursos do Fundo Penitenciário e do Fundo Nacional de
Segurança”. É uma pena que a censura da imprensa mineira, praticada em
proveito do seu próprio governo, deixe o fenômeno de Minas tão desinformado.
Uma breve leitura do jornal Brasil de Fato, em
14 de maio de 2007, faria com que tomasse ciência de que na sua gestão “, os
investimentos em saúde, segurança pública e educação caíram, de R$ 11,6
bilhões para R$ 8,7 bilhões, impactando a vida de milhares de pessoas na
capital e no interior do estado.”
Há algum tempo, a vereadora petista Neila
Batista, em artigo intitulado “MG: Quase um Estado de exceção” afirmou que
“o silêncio da Assembléia Legislativa de Minas, com exceção das poucas vozes
do PT e do PC do B, e o pacto da maior parte imprensa regional, que se
engajou em sua carreira rumo à Presidência da República confirmam a regra...
ou a exceção”
Fragilizando instituições caras ao jogo
democrático, ignorando a importância do sistema partidário e “fazendo uso de
uma máquina de marketing inigualável no país”, a “novidade” que vem das
alterosas é a melhor expressão do mandonismo risonho que segue à risca os
preceitos neoliberais.
Seria interessante que Aécio aproveitasse a
segunda metade do mandato para redemocratizar o Estado, dialogar com os
movimentos sociais e, se der tempo, conhecer Minas Gerais. É uma das
unidades federativas mais ricas do país. Bem mais surpreendente que as
noites do Leblon.
Gilson Caroni Filho é
professor de Sociologia das Faculdades Integradas Hélio Alonso (Facha), no
Rio de Janeiro, colunista da Carta Maior e colaborador do Observatório da
Imprensa. |