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Manifesto do Cel. Herculano de
Carvalho, comandante da Força Pública de SP em 32
Como terminou o 9 de julho
“Um crime permitir-se que aqueles
moços se expusessem às balas adversárias, às granadas, ao metralhar dos aviões,
e tivessem como arma de defesa, instrumentos que não o eram, na persuasão de
iludir o adversário quando, na verdade, procuravam iludir-se a si mesmos”,
denuncia o coronel Herculano no manifesto, intitulado “As razões da minha
atitude”
No dia 1º de outubro de 1932, o governo dito constitucionalista
de São Paulo foi deposto pelo comandante da própria Força Pública estadual,
coronel Herculano de Carvalho, que assinara dias antes, com o governo federal, o
pacto que pôs fim à guerra civil.
A oligarquia paulista, que havia ensangüentado o país lançando
milhares de jovens na aventura revanchista, não opôs resistência ao ato do
coronel, mas passou a qualificá-lo em seguida de “traição”.
Com um longo manifesto, publicado na íntegra pelo jornal carioca
“Correio da Manhã”, Herculano apresenta suas razões.
O relato seco e duro dos acontecimentos desfaz fantasias e mitos
românticos através dos quais a oligarquia procurou encobrir a falta de
compromisso com seus próprios soldados, sua irresponsabilidade e ambição sem
limites.
Para conhecimento do leitor,
publicamos aqui um condensado desse manifesto.
Desde que as circunstâncias
imperiosas me obrigaram a uma iniciativa de todos conhecida e, posteriormente, a
assumir o governo militar de São Paulo, concertei comigo mesmo, tão logo me
fosse dado vagar, dirigir-me ao nobre e altivo povo bandeirante, numa exposição
simples e franca dos motivos que me levaram a ambos os fatos.
Quando a 8 de julho reunidos os
comandantes de unidade da Força Pública no gabinete do meu antecessor, o então
coronel Júlio Marcondes Salgado, por ele fomos oficialmente inteirados do
movimento constitucionalista, a irromper no dia seguinte. Dos seus lábios ouvi
que a Força Pública de São Paulo se limitava a manter a ordem, de prontidão nos
quartéis e obediente ao Governo do Estado. Às unidades do Exército, aquarteladas
no Estado, é que competia a ação, secundada por outras, em diversos pontos do
País, principalmente no Rio Grande do Sul e em Minas Gerais, aliados de São
Paulo na chamada Frente Única.
A despeito de tais declarações
categóricas, ainda bem vivas na lembrança dos que as ouviram, dois dias depois
tivemos ordens de deixar os quartéis e concentrar-nos em Mogi das Cruzes, já na
expectativa de prosseguirmos viagem até defrontar o adversário.
Qual a minha atitude? Como
paulista e brasileiro, eu não aprovava o movimento, uma vez ideado, no dizer de
muitos dos meus camaradas, para repor, na posição de mando, velhos políticos
profissionais. Como soldado, pus-me à frente de minha tropa e parti, cônscio de
meu dever de militar. Nem a mais leve queixa me aflorou aos lábios, ao contrário
do que sucedeu a vários companheiros, alguns imediatamente presos, por se
recusarem a seguir, e outros que exteriorizaram seu protesto. Não obstante,
estávamos em atitude de expectativa, quando surgiu uma nova concepção de plano,
segundo a qual a vitória seria garantida sem um único disparo de fuzil: as
tropas paulistas formariam alas à passagem das de Mato Grosso, vanguardeiras das
guarnições do Rio Grande do Sul tinham o seu flanco esquerdo as de Mina Gerais;
tratava-se, pois, de uma simples parada militar, mera marcha triunfal até o Rio
de Janeiro.
Pura ilusão! Desde logo se nos
apresentou a realidade de uma resistência armada das tropas federais, a
barrar-nos, nas fronteiras do Estado, a passagem à Capital da República. Daí o
novo plano: enquanto as hostes constitucionalistas permaneciam inativas,
promovia-se a ida de emissários, para tratar, com amigos comuns, da renúncia do
Governo Provisório, a fim de evitar-se grande derramamento de sangue. Foi,
então, que me atiraram ao Túnel, naquele inferno que, dia a dia, menos se
saciava de vidas preciosas, onde, entretanto, nunca me passou pela idéia
rebelar-me contra situação diferente da que nos foi assegurada.
Ali permanecia no meu posto de
honra, já identificado com o movimento de 9 de julho, quando o falecimento do
general Marcondes Salgado foi colher-me, entre pesaroso e surpreso, para assumir
o comando da Força Pública.
MUNIÇÃO
Mais ou menos em fins de julho, o
ex-secretário da Fazenda, em carta que me dirigia e em repetidas palestras em
palácio, comunicava-me estar em entendimento com firmas estrangeiras, a fim de
adquirir o indispensável armamento para vencermos a guerra.
Por que não se adquiriu de pronto
esse armamento e essa munição, quando as fronteiras do sul do Estado e o nosso
principal porto ainda nos estavam franqueados? Dizem que na esperança de mais
dia, menos dia, acudirem em nosso auxilio, bem armados e municiados, os nossos
irmãos do Rio Grande do Sul e Minas Gerais.
Nesse passo, justamente, é que se
fez sentir, contrária à verdade dos fatos, a ação da imprensa e do rádio. Os
nossos jornais, quase todos, no louvável intuito de animar a população e,
principalmente, os que se encontravam no campo da luta, davam crédito ao que se
lhes insinuava ou fantasiava, de fonte oficial ou meramente informativa, quem
sabe até de origem tendenciosa.
Como se criavam tais fantasias? –
Ignoro. O que é certo, no entanto, é que nossos diários davam curso às mais
animadoras notícias, lidas e comentadas com grande eloqüência nos microfones dos
rádios, e sofregamente, absorvidas por todos quantos ansiavam pelo término da
luta com a nossa vitória final.
Não me furto, numa última análise
[sobre a questão da munição], a este fator preponderante do nosso desastre
militar, a um fato que se verificava no setor norte.
Por falta de munição, que
insignificante era a quantidade produzida por nossas fábricas, imaginaram os
soldados constitucionalistas algo que a substituísse, ainda que na aparência:
mandaram construir, nas oficinas da Rede Sul-Mineira, em Cruzeiro, uma espécie
de matraca. Sacudida com pulso vigoroso, dava a impressão de tiros de fuzis e
metralhadoras.
Comoveu-me a narração do fato.
Espantou-me o heroísmo nunca visto, sem exemplo na história dos povos. E,
voltado a mim do espanto e da comoção, fui presa de um sentimento de revolta, de
incontida indignação. Aquilo já não era humano. Já não era desprendimento:
raiava pela loucura.
Um crime continuar-se a luta
daquele modo. Um crime permitir-se que aqueles moços se expusessem às balas
adversárias, aos shrapnels, às granadas, ao metralhar dos aviões, e tivessem
como arma de defesa, instrumentos que não o eram, na persuasão de iludir o
adversário quando, na verdade, procuravam iludir-se a si mesmos.
Noticiavam os jornais levantes no
sul e em Minas. Tão grande lhes era o alcance que, em se tornando conhecidos, já
estaria terminada a guerra com a vitória da nossa causa.
Da marcha dos acontecimentos
militares, desde a retirada de Itararé, de Faxina, de Buri, à linha do
Paranapanema, e da impossibilidade militar de sustentar-se a linha defensiva, da
frente mineira, em virtude da diminuta guarnição, era informado o Governo do
Estado e o próprio general Klinger. Certifiquei-me, minuciosamente, da exata
situação da frente leste que, rompida pelo adversário – o que era fácil – havia
de trazer fatalmente o fracasso das operações, pois de nada valeria manter-se
com firmeza as frentes norte e sul.
Todos os cuidados do nosso Estado
Maior se voltavam para Eleutério, mas, à falta de munição e recursos de homens
armados, provocaram a sua queda, aliás prognosticada, em tempo, ao Governo do
Estado, que não lhe dava crédito.
URGÊNCIA
Foi, então, que a 25 de setembro,
recebi a seguinte carta do subchefe da Força Pública, tenente-coronel Euclides
Machado, oficial dos mais acatados e ponderados:
“Prezado amigo e senhor comandante
Herculano de Carvalho e Silva.
É esta para comunicar-lhe que
acabo de vir da residência do Sr. Dr. Plínio Barreto, onde fui ter
espontaneamente, e com quem conferenciei sobre a possibilidade de um
entendimento com o Governo Provisório para a cessação da luta, sem que disso
resultasse qualquer deslustre para a honra de São Paulo...”.
No dia seguinte, alta hora da
madrugada, recebi um telegrama de São Paulo, em que me comunicavam que o
valoroso oficial do Exército Brasileiro, coronel Alexandrino Gaia, do setor
norte, com insistência, me pedia que fosse a São Paulo e lhe marcasse hora para
nos encontrarmos. Assunto urgente. Pedi-lhe que viesse a Campinas, porquanto não
era possível abandonar, ainda que por horas, o meu posto de comando.
Efetivamente o coronel Alexandrino
Gaia ali comparecia a 27, como representante de vários comandantes de unidades
do Exército e expunha a razão de sua viagem, consubstanciada na ata aqui
transcrita:
“Aos vinte e sete dias do mês de
setembro de mil novecentos e trinta e dois, às nove e meia horas, numa das salas
do P.C. de Destacamento em Campinas, situados no prédio do ex-Campinas Hotel,
convocados pelo coronel Herculano de Carvalho e Silva, comandante geral da Força
Pública do Estado, compareceram os seguintes oficiais: coronéis Herculano de
Carvalho e Silva, Eduardo Lejeune e Alexandre Gama, tenentes-coronéis
Alexandrino Gaia, Patrício Batista da Luz, Luís de Faria e Sousa, Virgílio
Ribeiro dos Santos, Romão Gomes e Macário Rangel e Major José da Silva.
O coronel Herculano de Carvalho e
Silva, fazendo uso da palavra, apresentou o valoroso oficial do Exército
Brasileiro, comandante de um dos setores do Vale do Paraíba, para expor a
situação militar daquela frente e a sua projeção sobre os demais setores da
luta. O referido oficial demonstrou à evidência que vários fatores de ordem
moral e material tornavam insustentável a manutenção das posições e a
continuação da guerra no vale do Paraíba, sendo inevitável o recuo progressivo
dos elementos que ali combatem, desde o início das hostilidades. Assim pensavam
todos os oficiais que com ele cooperam, do Exército e da Força Pública, unânimes
em reconhecer o sacrifício imenso a que seriam expostos os habitantes das
cidades e vilas sujeitas aos horrores da luta.
SITUAÇÃO
Assim inteirados da exata situação
daquele setor, fizeram uso da palavra diversos comandantes, acordando todos, sem
uma única exceção, que o que se passava no vale do Paraíba não era um fenômeno
local e sim geral, pois nos demais setores a contingência era a mesma,
resolvendo que, diante da impossibilidade da vitória pelas armas era um dever
patriótico cessar imediatamente a luta para evitar novos e pesados sacrifícios
ao Estado e ao País, deliberando: 1º) Ficava o coronel Herculano de Carvalho e
Silva, apoiado pelas forças do Exército e da Força Pública, indicado para entrar
em entendimento imediato com as autoridades militares e civis, estaduais e
federais, para a cessação da luta. 2º) No caso de encontrar resistência por
parte de qualquer desses elementos, ficava igualmente autorizado a agir como
supremo representante das Forças Armadas, concertando com o adversário o acordo
almejado. 3º) Que lhe fossem cientificados dessa deliberação os camaradas do
setor sul. 4º) Que as providencias necessárias para o início das negociações
tivessem execução imediata”.
Como não havia tempo a perder, de
Campinas, rumei para Guaratinguetá, em companhia do coronel Alexandrino Gaia,
onde procurei o coronel Euclides de Figueiredo, a quem expus a razão da minha
visita.
Mostrou-se ele bastante surpreso,
ante o que se lhe revelara e, de princípio, negou o seu apoio. Pouco depois, por
sugestão do coronel Palimércio de Resende, seu chefe do E.M., concordou que se
convocasse uma reunião de todos os chefes militares e membros do Governo, a fim
de que este ficasse perfeitamente inteirado da verdadeira situação militar.
Para isso desejava ouvir a opinião
do general Klinger. No dia seguinte, alta hora da madrugada, é procurado pelo
coronel Alexandrino Gaia com o convite de seguir para Guaratinguetá, e lá
resolver-se a proposta do coronel Palimércio de Resende.
ARMISTÍCIO
Atendido pelo coronel Vilabela, o
coronel Gaia expôs-lhe a razão de sua visita àquela hora. O chefe supremo das
tropas constitucionalistas ao invés de atender ao convite, no dia seguinte,
deliberadamente tomou a iniciativa de promover o armistício.
Tido e havido pelo Governo do
Estado como principal causador de tudo, pensaram alguns dos seus membros em
remediar o mal, alijando-me do comando do Destacamento de Campinas.
Cuidaram logo de substituir-me
pelo tenente-coronel Romão Gomes, oficial dos mais competentes para a espinhosa
missão.
Para isso, preliminarmente,
efetivaram-no no posto de tenente-coronel que estava comissionado e, por
portaria especial, à completa revelia do comando-chefe das Forças
Constitucionalistas e da Força Pública, deram-lhe o comando daquele
destacamento. Para que não se recusasse, uma comissão foi procurá-lo em Campinas
e entregar-lhe, de mão própria, o documento de nomeação. Quanto a mim, ao que me
informaram, estava reservada a mais negra das sortes: preso por traidor.
Serenamente aguardei o desenrolar dos acontecimentos. No dia seguinte, o
comandante Romão Gomes, compareceu a Palácio para declinar o convite, mesmo
porque, na sua própria expressão, várias vezes repetida, impossível se tornava
continuar a luta.
Precisamente a uma hora do dia 29
de setembro, o general Klinger transmitiu o seguinte rádio ao chefe do Governo
Provisório.
“Dr. Getúlio Vargas – Rio
- Com o fito de não causar à Nação
mais sacrifícios de vida, nem mais danos materiais, o comandante das Forças
Constitucionalistas propõe imediata suspensão das hostilidades em todas as
frentes, a fim de serem assentadas as medidas para a cessação da luta armada.
(a) General Klinger”.
Concomitantemente, tratava-se de
um acordo com o adversário. A iniciativa, como é natural, partira do general
Klinger, que mandara dois emissários a Cruzeiro – o seu chefe do E.M.,
tenente-coronel Osvaldo Vilabela, e o major Ivo Borges, chefe das Unidades
Aéreas.
Duras, porém, foram as condições
impostas, tanto que, no dia seguinte, novamente os emissários tornavam a
Cruzeiro, com uma contraproposta do chefe constitucionalista.
ENTENDIMENTO
Por essa ocasião, solicitei ao
general Klinger fosse permitido à nossa milícia tomar parte no entendimento com
o adversário, no que SS. consentiu.
Lá chegados, os quatro emissários
– dois da Região, tenente-coronel Osvaldo Vilabela e tenente Correia Velho e
tenentes-coronéis Otaviano Gonçalves da Silveira e Euclides M. Machado – o
próprio general Góis Monteiro separou-os e com eles tratou separadamente do
acordo, sem que as condições propostas a uns fossem conhecidas dos outros.
Apresentadas as bases aos nossos
emissários, depois da demorada discussão, manifestam eles desejo de vir a São
Paulo, para consulta, o que não lhes foi permitido, sob alegação de que já se
haviam perdido 48 horas, em prazo concedido ao tenente-coronel Vilabela, para
idêntico fim.
À vista disso, e como urgia pôr-se
cobro à luta, prestes a reiniciar-se, para evitar a todo o transe o adversário
entrasse pelas armas em São Paulo, para conter a avalanche dos nossos próprios
soldados, que se desgarravam das frentes, tiroteando a êsmo pelas estradas e
pelas estações, insub-missos e opondo-se, tenazmente, à continuação das
operações; enfim, como estivesse virtualmente fracassada essa segunda tentativa
de acordo, proposta pelo general Klinger, resolveram os dois emissários da Força
Pública assinar o pacto discutido e assente, e já do domínio público.
CORONEL HERCULANO DE CARVALHO |