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Reflexões de Fidel
Castro
Para a honra,
Medalha de Ouro
“Os atletas
cubanos que competiram em Beijing e ao invés de ouro trouxeram prata, bronze ou
um lugar destacado nas disputas, têm um enorme mérito como representantes do
esporte amador que deu origem ao ressurgimento do movimento olímpico”, afirmou o
comandante Fidel Castro em sua reflexão sobre os Jogos Olímpicos de Pequim, onde
também trata sobre o incidente com o atleta cubano de taekwondo, Ángel Valodia
Matos, e denuncia a tentativa de compra de seu técnico.
Leia abaixo os
principais trechos do artigo.
“Se for feita
uma estatística sobre o número de instalações, campos esportivos e equipamentos
sofisticados por milhão de habitantes que acabamos de ver nos últimos Jogos
Olímpicos (...), poderia se afirmar que não estão ao alcance de 80% dos países
representados em Beijing, o equivalente a milhares de milhões de pessoas que
habitam o planeta. A China, imenso e milenário país com mais de 1 bilhão e 200
milhões de habitantes, investiu 40 bilhões de dólares nas instalações olímpicas
e ainda precisará de tempo para satisfazer as necessidades esportivas de uma
sociedade em pleno desenvolvimento.
Se forem somadas as
pessoas que habitam Índia, Indonésia, Bangladesh, Paquistão, Vietnã, Filipinas e
outros, sem contar os quase 900 milhões de africanos e mais de 550 milhões de
latino-americanos, será possível ter uma idéia das pessoas que no mundo carecem
de tais instalações esportivas.
É à luz destas
realidades que devemos analisar as notícias que giraram em torno dos Jogos de
Beijing”.
TAEKWONDO
“Talvez não
tivesse tomado tão rápido a decisão de escrever algo sobre o tema se não tivesse
acontecido o incidente do atleta cubano de taekwondo, Ángel Valodia Matos -
campeão olímpico há 8 anos em Sidney - cuja mãe morreu quando competia e ganhava
a medalha de ouro a 20 mil quilômetros de sua pátria. Assombrado por uma decisão
que lhe pareceu totalmente injusta, protestou e lançou um chute contra o
árbitro. Haviam tentado comprar o seu próprio treinador, estava pré-disposto e
indignado. Não pôde se conter.
O atleta costumava
enfrentar valentemente as lesões que costumam ser freqüentes no taekwondo. O
árbitro suspendeu o combate quando estava ganhando de três a dois. Não foi o
único caso. É muito grande o poder do árbitro nesse tipo de disputa e nenhum o
dos atletas. Aos dois cubanos, taekwondoca e treinador, ficou proibida a
participação por toda a vida em competições internacionais”.
“Não estou
obrigado a guardar silêncio com a máfia. Esta faz arranjos para corromper as
regras do Comitê Olímpico. Foi criminoso o que fizeram com os jovens de nossa
equipe de boxe para complementar o trabalho dos que se dedicam a roubar atletas
do Terceiro Mundo. Em seu enfurecimento, deixaram Cuba sem uma só medalha de
ouro olímpica nessa modalidade.
Cuba jamais comprou um
atleta ou um árbitro. Há esportes onde a arbitragem está muito corrompida e
nossos atletas lutam contra o adversário e o árbitro.
Os atletas cubanos que
competiram em Beijing em vez de ouro trouxeram prata, bronze ou um lugar
destacado nas competições, têm um enorme mérito como representantes do esporte
amador que deu origem ao ressurgimento do movimento olímpico. São exemplos
insuperáveis no mundo. Com que dignidade competiram!”
SOLIDARIEDADE
“O
profissionalismo foi introduzido nas Olimpíadas por interesses comerciais, que
transformaram o esporte e os esportistas, como dissemos, em simples mercadorias.
Os cubanos não
praticam o esporte como profissão lucrativa; são educados, como todos nossos
atletas, para servir ao seu país. Se não for assim, a Pátria, pequena em tamanho
e com limitados recursos, os perderia para sempre”.
“Nosso país não
pratica o chauvinismo nem comercializa com o esporte, que é tão sagrado como a
educação e a saúde do povo; pratica, em troca, a solidariedade. Há anos criou
uma Escola Formadora de Professores de Educação Física e Esportes, com
capacidade para mais de 1.500 alunos do Terceiro Mundo. Com esse mesmo espírito
solidário celebra o triunfo dos velocistas jamaicanos, que obtiveram 6 medalhas
de ouro; do saltador panamenho com ouro; do boxeador dominicano com igual
título, ou o das jogadoras de vôlei brasileiras que venceram avassaladoramente à
equipe dos Estados Unidos e ganharam a liderança.
Por outro lado,
milhares de instrutores esportivos cubanos cooperaram com países do Terceiro
Mundo.
Estes méritos de nosso
esporte não nos eximem nem um pouco de responsabilidades presentes e futuras.
Nas disputas esportivas mundiais, pelas causas assinaladas, produziu-se um salto
de nível. Não vivemos hoje as mesmas circunstâncias da época em que chegamos a
ocupar relativamente cedo o primeiro lugar do mundo em medalhas de ouro por
habitante, e claro que isso não voltará a se repetir.
Constituímos cerca de
0,07% da população mundial. Não podemos ser fortes em todos os esportes como os
Estados Unidos, que possui pelo menos 30 vezes mais população. Nunca poderíamos
dispor nem de 1% das instalações e equipes de diversas modalidades, nem dos
climas variados de que eles dispõem. Outro tanto ocorre com o resto do mundo
rico, que possui pelo menos duas vezes o número de habitantes dos EUA. Esses
países somam bilhões”.
BATALHAS FUTURAS
“O fato de que
participem mais nações e as disputas sejam mais duras é em parte uma vitória do
exemplo de Cuba. Mas dormimos sobre os louros. Sejamos honestos e reconheçamos
todos. Não importa o que digam nossos inimigos. Sejamos sérios. Revisemos cada
modalidade, cada recurso humano e material que dedicamos ao esporte. Devemos ser
profundos nas análises, aplicar novas idéias, conceitos e conhecimentos. Podemos
não competir fora do país e o mundo não se acabaria por isso. Penso que o melhor
é competir dentro e fora, enfrentarmos todas as dificuldades e fazermos um uso
melhor de todos os recursos humanos e materiais disponíveis.
Preparemos-nos para
importantes batalhas futuras.
Para nosso atleta de
taekwondo e seu treinador, nossa total solidariedade. Para os que regressam
hoje, o aplauso de todo o povo”. |