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Governador Requião defende
na ABI projeto de desenvolvimento nacional:
‘A crise é
a grande oportunidade para construir um novo modelo de Estado’
Requião
defendeu medidas como a estatização do crédito, investimentos na
indústria e na infra-estrutura, a centralização e o controle do câmbio
“A parte que nos cabe é empreender o nosso
próprio projeto de desenvolvimento. Ao tempo em que tomamos medidas que
diminuam o impacto da crise sobre nós, devemos desatrelar o nosso
destino da globalização neoliberal”, afirmou o governador do Paraná,
Roberto Requião, no seminário “Estratégias para o Brasil sair da crise”,
realizado na abertura da reunião na Associação Brasileira de Imprensa
(ABI), na terça-feira (2). “A crise é a grande oportunidade para
discutir e formular alternativas, para buscar um outro caminho, para
construir esse outro caminho. Esta crise tem que nos levar a um novo
modelo de Estado. De todo modo, como a crise está aí, devemos pensar o
que fazer agora, que medidas para enfrentar, no curto prazo, os efeitos
da debacle”, disse o governador paranaense.
Durante o discurso, Requião defendeu medidas
como a estatização do crédito, fortes investimentos na indústria e
infra-estrutura e a centralização e controle do câmbio. “Uma das
barreiras que a globalização capitalista tratou de, primeiramente, pôr
no chão, foi o Estado. Desguarnecido de proteções, o Estado –
notadamente os do Sul – transformou-se em presa inerme frente ao avanço
dos especuladores. Na verdade, não é apenas ao capital financeiro e sua
necessidade vital de liberdade de ação que interessa o enfraquecimento
do Estado. A internacionalização do neoliberalismo também precisa de
Estados débeis, impotentes na defesa dos interesses nacionais e
populares, mas fortes na defesa do capital global”, afirmou o
governador, que foi convidado pelo presidente da ABI, jornalista
Maurício Azêdo, a fazer a primeira palestra do seminário.
MUDANÇAS
“As mudanças que levaram ao fim do Estado de
Bem-estar Social tinham um objetivo muito claro: reduzir os comensais à
mesa. Afinal, o Estado de Bem-estar Social não deixou de ser um Estado
capitalista, uma sociedade de classes, com contradições de classe. E
quando o pão tornou-se escasso, findaram-se todas as veleidades
distributivistas. Aquela coisa híbrida, um pouco disso e um tanto
daquilo, desapareceu e impôs-se a crua realidade de uma sociedade de
classes, com cada qual em seu galho. Como dizia Joe, o encanador de
McCain, isso de distribuir riquezas é coisa de comunista”, destacou
Requião, completando: “Concentrar rendas, cortar gastos com saúde,
educação, moradia, reduzir direitos trabalhistas, ou, como dizem
eufemisticamente, ‘desregulamentar o trabalho’, aumentar a mais-valia
são as defesas do modelo fracassado”.
De acordo com o governador, “em vez de ficar
repassando dinheiro para os bancos investirem em Letras do Tesouro, o
Estado deve assumir a condução de uma política de financiamento
extremamente agressiva, forçando também os bancos a abrirem linhas de
crédito para o empresariado brasileiro, especialmente para a indústria”.
“Além do mais”, prosseguiu o governador, “condoem-se, apiedam-se dos
bancos, ainda que, no terceiro trimestre deste ano, os ganhos de 15
bancos foram superiores aos ganhos de 201 grandes empresas não
financeiras. Quando a agiotagem, os juros, a especulação dão mais
resultados que a produção é sinal de que alguma coisa não vai bem”.
Em relação ao controle do câmbio, Roberto
Requião destacou que “um país que pretenda ser zeloso de sua soberania,
senhor de suas decisões na área econômica, não pode deixar o câmbio
solto, sem vigilância, submetido aos azares da sorte. Como propõe o
professor Lessa: ‘Todas as operações cambiais deveriam ser centralizadas
no Banco do Brasil, cabendo ao Banco Central esclarecer as
circunstâncias dos fluxos’. O país precisa saber, sua soberania exige
que saiba, as condições de todas as operações de câmbio”. O governador
também propôs a desoneração do consumo através de “uma reforma
tributária que diminua os impostos sobre os bens de consumo que o
salário compra”. “É fundamental manter e estimular o consumo, o que
significa manter a produção, manter os empregos”.
“Acredito”, declarou Requião, “no entanto, que
a crise fortaleça os nossos pontos de vista, o ponto de vista daqueles
que estão comprometidos com a vida e o destino de nossa gente, com as
pessoas. Se não temos a pretensão de eliminar as desigualdades, nas
quadras deste sistema, podemos reduzir essas desigualdades, fazer com
que o mundo seja menos áspero, menos brutal”.
USURA
Roberto Requião lembrou que, quando assumiu o
governo em 2003, suspendeu o pagamento de contratos que várias estatais
paranaenses mantinham com empresas multinacionais, como os contratos
entre a Copel e a espanhola Endesa e as norte-americanas El Paso e NRG
Energy. “Contratos que, se mantidos, levariam a nossa Copel à
insolvência e, na seqüência, certamente, à sua absorção por uma dessas
gigantes globais”, disse. “O mundo caiu sobre minha cabeça. À época,
éramos todos, os que se opunham ao modelo que o capitalismo globalizava,
‘dinossauros’. Saurisquianos, ornitisquianos, ultrapassados, atrasados,
gente que perdera o passo na história, deslocados no tempo, fora de
órbita, extintos. Revisar contratos lesivos ao interesse público,
afinal, era uma das mais graves heresias contra o ‘modelo’”. “Poucas
vezes em minha vida fui tão duramente, desrespeitosamente combatido como
naqueles dias. Especialmente por minhas críticas à especulação
financeira, à jogatina nas bolsas, à prevalência da usura, da agiotagem
sobre a produção, sobre o trabalho”.
“Mas, eis aí esse modelo de capitalismo fazendo
água: o molde que tem no capital financeiro, na especulação financeira
seu eixo. Que se impôs, sobrepôs, expandiu-se, reinou a partir dos anos
80, os gloriosos anos Reagan-Tatcher. Que se alastrou com velocidade
ainda maior com o fim da União Soviética. Na verdade, o modelo já trazia
no ventre o DNA da crise. Desde sua concepção e gestação foi uma fraude,
um engodo, uma mentira”, afirmou.
“Agora, o agente público está sendo chamado para
socorrer o sistema financeiro do colapso em que se encontra, mas a crise
é mais séria do que se imaginava. A sociedade capitalista continua
dividida em classes sociais, como foi mostrado por Marx e outros
pensadores que seguem o materialismo histórico da luta de classes como
motor da história”.
Ao finalizar seu discurso no seminário, Requião
afirmou que “queria ainda fazer algumas observações sobre o
comportamento da nossa mídia diante da crise. Depois de tanto ridículo,
de tanto vexame, será preciso?”. |