|
Fracassa a nova tentativa dos EUA de anexar
Ucrânia
e Geórgia à Otan
Alemanha e França atuaram para postergar para as calendas a entrada dos dois
países solicitada de novo pelo governo de Bush. Ao invés disso, propuseram que a
discussão da segurança européia conte com a participação da Rússia
Graças à oposição em especial da Alemanha e da França,
ficou para as calendas o ingresso da Ucrânia e da Geórgia na Otan, intentada
pela segunda vez em um ano pelo governo Bush, antes do seu melancólico retorno
ao rancho no Texas. A cúpula de ministros das relações exteriores da Otan,
realizada em Bruxelas nessa terça-feira dia 3, também aprovou a retomada de
conversações com Moscou, em suspensão desde que a Rússia deu um basta à
teleguiada provocação do governo Saakashvili, e sua agressão à Ossétia do Sul e
Abkazia, em agosto. A tentativa anterior de Bush de anexar à Otan as duas
ex-repúblicas soviéticas havia fracassado em abril, na cúpula de Bucareste.
Apesar das caras e bocas de Mrs. Rice na cúpula, o “New
York Times” acabou por carimbar a real natureza do desfecho. “Uma alta
autoridade americana, que falou na condição de anonimato, disse que todo mundo
agora aceita que ‘levará anos e anos’ antes que a Geórgia e a Ucrânia estejam
prontas” [a ingressar na Otan] e “mesmo então, cada país da Otan terá de
ratificar a ampliação”. Mesmo assim, bem que tentaram. O “Wall Street Journal”
participou das pressões sobre a cúpula, com a publicação de um “manifesto” do
fantoche Saakashvili pela imediata anexação da Geórgia à Otan. Já Viktor “Bushenko”,
o chefe da contra-revolução de veludo em Kiev, defendeu o mesmo em relação à
Ucrânia, em artigo no International Herald Tribune, a edição internacional do
NYT, nas vésperas.
RECUO
Mas, sem ter correlação de forças para aprovar formalmente
o pedido oficial de ingresso na Otan, o assim chamado “MAP” (Plano de Ação para
a Adesão, sigla em inglês), o governo Bush recuou para o “fortalecimento” das
comissões criadas para a ingerência, a “Otan-Ucrâ-nia” funcionando há 11 anos, e
a “Otan-Geórgia”, desde o fiasco de agosto. O irônico da coisa foi que a
tentativa de ingresso dos dois satélites, patrocinada por Bush, foi barrada em
abril pela Alemanha e França por meio da recusa à aprovação do MAP. Agora, para
manter a recusa, os dois países europeus passaram a exigir que qualquer proposta
de ingresso tenha de passar, previamente, pelo cumprimento de todas as etapas do
MAP (a última delas é a ratificação, por todos os 26 países-membros, do
ingresso). Note-se que essa “expansão” é complementar à estratégia de cerco à
Rússia, de que o “escudo antimíssil” é o aspecto mais acintoso.
As contradições entre Berlim e Paris, de um lado, e
Washington de outro, foram detalhadamente apontadas pelo NYT, que registrou que
“a Alemanha quer mandar uma mensagem de acomodação a Moscou, tanto por retardar
a associação da Geórgia e Ucrânia, quanto por acolher a convocação do presidente
Dmitri Medvedev, da Rússia, de conversações para uma nova ‘arquitetura de
segurança’ da Europa”.
O jornal nova-iorquino assinalou, ainda, que em abril a
França e a Alemanha haviam “bloqueado uma tentativa de último minuto de Mr. Bush
e alguns dos mais novos membros da Otan .. de dar à Geórgia e à Ucrânia planos
imediatos de ação de ingresso”. “Alemanha e França argumentavam que a Ucrânia
estava politicamente dividida e que nem ela nem a Geórgia estavam prontas”; que
a “ação de ingresso causaria indignação na Rússia”; e que tal plano para a
Geórgia “poderia desestabilizar o Cáucaso”.
GÁS
Outros jornais acrescentam, como razões para não ir adiante
com a provocação, o repúdio já manifestado pela maioria dos ucranianos à
submissão à Otan e o risco de desintegração da república; a impopularidade dos
dois títeres, “Bushenko” e Saaka-shvili, em seus países; os 40% de petróleo e
gás fornecidos pela Rússia aos europeus; e, se isso ainda for pouco, a
imprudência de pretender cutucar e cercar um país continental, que está munido
de milhares de ogivas nucleares.
Quanto à retomada das conversações com Moscou, o
secretário-geral da Otan, Jaap de Hoop Schefer, afirmou ao término da cúpula que
a Otan havia resolvido “retomar progressivamente e sob certas condições as
relações com a Rússia”. Ele acrescentou que a Otan quer realizar em breve “uma
reunião informal do Conselho Otan-Rússia a nível de embaixadores, com o objetivo
de retomar o contato e discutir tanto questões nas quais estamos de acordo e
quanto pontos nos quais discordamos”. Mas o estardalhaço sobre o “ingresso da
Ucrânia e da Geórgia” serviu, ao menos, para abafar o crítico quadro da Otan, a
“Aliança do Atlântico Norte”, que foi se meter no Afeganistão – que fica na
Ásia, e nada tem a ver com o “Atlântico Norte” - e vem sendo surrada por
maltrapilhos guerrilheiros. E cuja pretensão a partir da última década era
estender ao mundo inteiro sua “jurisdição”. |