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O capitalismo gângster e o massacre no Congo
Michael Woodiwiss – autor de um livro extraordinário sobre
as entranhas do capitalismo – não é um pseudônimo utilizado por Fidel Castro
nem tampouco por Hugo Chávez ou Evo Morales. Woodiwiss é um historiador
inglês que vive nos EUA. O título de sua obra é Capitalismo gângster, com o
subtítulo “Quem são os verdadeiros agentes do crime organizado mundial”. São
quase 300 páginas de um verdadeiro libelo sobre as mazelas do capitalismo,
principalmente norte-americano.
Palavras de impacto – na orelha e na contra-capa do livro –
como “O [verdadeiro] crime organizado é dominado por funcionários de
empresas multinacionais, políticos e burocratas”; (...) e “é provável que
estejam roubando o seu dinheiro”, nos dão uma idéia do que espera o leitor.
Woodiwiss termina seu livro assim: “É tempo de decidir
entre Franklin D. Roosevelt e George W. Bush como o melhor representante de
nosso futuro global – um futuro de guerras intermináveis e fraudes cada vez
mais descaradas ou de esperança em um verdadeiro alívio, ainda que
incompleto, para os desgraçados deste mundo”.
Pois é, enquanto isso, mais um exemplo de crime organizado
mundial, como os citados em Capitalismo gângster, está acontecendo na
República Democrática do Congo (RDC). Desde 1998 os EUA têm comandado uma
violenta disputa entre corporações multinacionais pelo controle de reservas
minerais de coltan, em que mais de cinco milhões de pessoas já perderam a
vida: algo que o mundo praticamente ignora. Quem denuncia é o jornalista
Hedelberto L. Blanch no ‘site’ espanhol www.rebelion.org.
Coltan é um composto mineral no qual encontra-se o nióbio e
o tântalo, matéria prima estratégica para a moderna indústria de fabricação
de celulares, computadores, mísseis, centrais nucleares, equipamentos
aéreo-espaciais, fibra ótica etc. Ocorre que 80% das reservas mundiais de
coltan encontra-se exatamente no Congo.
SAQUE
Enquanto o ditador Mobutu Sese Seko – representante dos
interesses das potências centrais – comandava o país, o saque às suas
riquezas consubstanciava-se num verdadeiro acordo de cavalheiros. Após a sua
queda em 1997 e com a ascensão de Joseph Kabila ao poder, tudo mudou:
iniciou-se um processo de nacionalização de empresas que provocou a ira dos
EUA. A contra ofensiva do Tio Sam foi organizar grupos mercenários –
chamados de ‘milícias rebeldes’ – em Ruanda, Burundi e Uganda objetivando
controlar as reservas minerais da RDC.
A ONU “nada tem feito para impedir a continuação dos
sangrentos enfrentamentos entre os patriotas e os mercenários” – afirma
Blanch – que, na seqüência, descreve o que parece ter sido tirado das
páginas de Capitalismo gângster: “na última década, as grandes
transnacionais Nokia, Ericson, Siemens, Sony, Bayer, Intel, Hitachi, IBM e
muitas outras extraíram coltan e outros minerais como cobre, ouro e
diamantes industriais da RDC através da formação de uma série de empresas
fantasmas associadas às forças militares rebeldes”.
Assim caminha o capitalismo (ou imperialismo) mundial: para
que os países mais ricos do planeta continuem obtendo lucros extraordinários
e mantendo o alto padrão de vida de seus cidadãos, é preciso que um país
africano como a República Democrática do Congo – riquíssimo em jazidas
minerais – seja dilapidado e condenado à pobreza extrema. O trágico é que,
para isso, milhões de congoleses, num verdadeiro genocídio, sejam
massacrados pelo capitalismo gângster sob o ‘olhar’ complacente do resto da
humanidade.
O holocausto de 6 milhões de judeus – crime bárbaro
cometido pelo nazismo na 2ª. Guerra Mundial – é lembrado a toda hora no
mundo todo, com razão. O incompreensível é que outros holocaustos, como o de
25 milhões de soviéticos na mesma Guerra, o de 2 milhões de iraquianos nas
invasões norte-americanas e este, de mais de 5 milhões, na República
Democrática do Congo, não sejam também ‘cantados’ em prosa e verso pela
mídia internacional.
EMERSON LEAL
Doutor em Física Atômica e
Molecular e vice-prefeito de São Carlos |