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O Federal Reserve, banco
central dos EUA:
O templo e os
seus segredos sujos (1)
A história de como
um pequeno grupo de monopolistas reuniu-se em 1910 para desenhar, contra as
próprias leis do país, o futuro banco central dos EUA (conhecido como “Fed” -
Federal Reserve) e impôs uma instituição privada com poder de emitir o dólar – e
cobrar do governo por essa emissão da moeda nacional dos EUA -, um cartel do
dinheiro contra o interesse público, é contada no ensaio de Stephen Lendman que
hoje começamos a publicar. Lendman foi durante muitos anos analista e
pesquisador de mercado de várias das grandes corporações de seu país. Hoje, é
pesquisador-associado do Centre for Research on Globalization. Nesta primeira
parte, veremos como Kennedy quis acabar com essa ditadura privada sobre o dólar,
alguns meses antes de seu assassinato
STEPHEN LENDMAN*
Anos
atrás eu li o excelente livro de William Greider, publicado em 1987, sobre como
o US Federal Reserve System [o banco central dos EUA] funciona. Greider chamou
seu livro “Segredos do Templo”, com um subtítulo: “Como o Federal Reserve dirige
o país”. Um melhor subtítulo poderia ter sido “como o Fed (e outros bancos
centrais chave) dirige o mundo”. Este artigo é uma tentativa de resumir o que
ele faz, como faz, a quem ele beneficia e às custas de quem. Aqueles que não o
sabem, preparem-se para algumas assombrosas informações e comentários.
O US Federal
Reserve, o Banco da Inglaterra, o Banco do Japão e o Banco Central Europeu são
instituições com enorme poder, que vai muito além do que a maioria das pessoas
pode imaginar. Outro poderoso banco é também parte do mundo das finanças de
hoje. É necessário mencioná-lo por causa de sua importância, apesar de requerer
um artigo separado para explicar plenamente como ele funciona. É o sigiloso,
inviolável, e que não presta contas a ninguém, Bank of International Settlements
(BIS), fundado em 1930 e sediado em Basiléia, Suíça. Esse banco, do qual a
maioria das pessoas nunca ouviu falar, é o banqueiro central dos bancos centrais
– uma espécie de “patrão dos patrões” dos bancos, equivalente ao que parecia
existir no mundo das sombras da Máfia dos dons. Como a maior parte dos outros
bancos centrais, incluindo o Federal Reserve, ele é uma propriedade privada de
seus membros.
Os bancos centrais
dominantes e o BIS, junto com muitos outros, exercem sua influência como cartel,
mutuamente assegurando-se todos os benefícios que, de outra forma, sem esse
acolhedor arranjo, eles não teriam. Com seu imenso poder, dizer que essas
instituições financeiras mandam no mundo não são apenas palavras. Porque eles
são capazes de criar dinheiro, eles financiam as necessidades de seus governos,
suas atividades militares e todos os negócios que não podem funcionar sem um
estoque disponível de todas as mercadorias. É dinheiro, não amor, que faz o
mundo girar, e os banqueiros centrais têm o poder de criá-lo ou tirá-lo de
circulação, tanto quanto queiram, para os propósitos que tenham em mente. Essa
espécie de poder pode mover montanhas ou destruí-las.
Nenhum banco central
é mais poderoso hoje do que o US Federal Reserve, mas não foi sempre assim, e
agora há uma competição pelo topo desconhecida desde a II Guerra Mundial. O Fed,
como é chamado, tem existido desde que foi estabelecido por uma lei do
Congresso, em 1913.
Tudo começou em 1910
na ilha Jekll
Soa como título de
filme de terror, mas os acontecimentos reais que se desenrolaram nessa ilha
particular na costa da Geórgia em 1910 teriam desafiado a imaginação da fábrica
de pesadelos de Hollywood.
Foi lá que sete
ricos e poderosos homens se reuniram em segredo durante nove dias para criar o
Federal Reserve System, que veio a nascer três anos mais tarde, em 23 de
Dezembro de 1913, através de uma lei do Congresso. Depois disso, os EUA e o
mundo jamais seriam os mesmos, mas só os ricos e poderosos foram os
beneficiários. Era essa a idéia, e funcionou como planejado.
A Lei do Federal
Reserve (Federal Reserve Act), que deu início a tudo isso, deve seguramente
estar na lista das peças legislativas mais escandalosas e desastrosas para o bem
público que já foram alguma vez emitidas por qualquer órgão legislativo. É
também ilegal, de acordo com o Artigo 1º, Seção 8 da Constituição. Esse artigo
determina que o Congresso dos EUA deve ter o poder de cunhar (criar) moeda e
regular o seu valor. Além disso, a Suprema Corte decidiu, em 1935, que o
Congresso não pode constitucionalmente delegar esse poder a outro grupo ou
entidade. Portanto, o Congresso, em 1913, violou a Constituição que jurou
defender e levar à prática, ao criar o Federal Reserve System, que, como será
explicado, é uma corporação privada com fins lucrativos que funciona às custas
do interesse público. Com essa decisão, os legisladores cometeram fraude contra
o povo do país, e até agora têm saído impunes, sem que o público saiba sequer do
dano que fizeram.
O vergonhoso
resultado é que aquela instituição que nunca deveria ter nascido é hoje a mais
poderosa da Terra, e tudo por causa do que começou numa ilha particular de nome
sinistro. Se o Congresso tivesse agido com responsabilidade, a lei que criou o
Fed podia nunca ter acontecido. A legislação que o estabeleceu era tão danosa
para o interesse público que provavelmente nunca teria passado, não tivesse ela
tido por pastor de ovelhas uma reunião do Comitê de Conferência do Congresso,
cuidadosamente preparada e agendada para 1h30 da madrugada até às 4h30 (quando a
maioria dos membros do Congresso estava dormindo) de 22 de Dezembro de 1913. A
lei foi votada no dia seguinte, quando muitos membros do Congresso já tinham
viajado para as férias de Natal e muitos dos que tinham ficado não tiveram tempo
de ler e conhecer o seu conteúdo. Isso soa familiar? Ainda assim, ela passou
(como um ladrão pela noite) e foi assinada por um inadvertido ou cúmplice
Woodrow Wilson, que mais tarde chegou a admitir ter cometido um terrível erro,
dizendo: “Eu inadvertidamente arruinei o meu país”. Mas era demasiado tarde para
lamentos fúnebres, e o povo norte americano pagou caro desde então. É tempo do
público perceber isso e começar a exigir um fim para os já mais de 90 anos de
males.
Aconteceu há 43
anos, quando um presidente decidiu agir em favor do povo que o elegeu. Esse
homem era John Kennedy, que planejara acabar com o Federal Reserve System para
eliminar a dívida nacional que um banco central cria ao imprimir dinheiro para
passá-lo ao governo como empréstimo. Essa dívida alcançou agora mais de
8.400.000.000.000 dólares (US$ 8,4 trilhões) que os contribuintes têm de pagar,
e já pagaram 174.000.000.000 dólares (US$ 174 bilhões) apenas nos primeiros três
meses de 2006. O serviço anual desta dívida é uma quantia em torno de dois
terços de trilhão de dólares. Ela fez os banqueiros ricos (sendo precisamente
essa a idéia) e o público mais pobre, porque nós é que pagamos a conta. Não é
exagero chamar a isto a maior falcatrua financeira da história do mundo, que
fica maior a cada dia.
A dívida era menos
onerosa há 40 anos, mas Kennedy entendeu o perigo para o país e o fardo que o
público carregava. Assim, no dia 4 de Junho de 1963, ele emitiu a ordem
presidencial EO 11110, dando ao presidente a autoridade de emitir a moeda. Em
seguida, ordenou ao Tesouro dos EUA que imprimisse mais de US$ 4 bilhões em
“Notas dos Estados Unidos” para substituir as “Notas do Federal Reserve”. Ele
qeria substituir as notas todas para que, assim que houvesse em circulação uma
quantidade suficiente da nova moeda, acabar com o Federal Reserve System e o
controle dos banqueiros internacionais sobre o governo dos EUA e o seu povo.
Apenas alguns meses depois que o plano de Kennedy começou a ser efetuado, ele
foi assassinado em Dallas no que foi seguramente um golpe de estado disfarçado.
Assim que Lyndon
Johnson assumiu a presidência, revogou a ordem presidencial de Kennedy e
restaurou o anterior poder do cartel. Desde então tem sido mantido, estando hoje
em dia mais forte que nunca.
Os antecessores dos
conspiradores do possível golpe contra Kennedy foram os homens que se reuniram
na Ilha Jekyll em 1910. Eles representavam alguns dos mais ricos e poderosos
homens do mundo — os Morgans, Rockefellers, Rothschilds da Europa (que dominavam
toda a banca européia em meados do séc. XIX e se tornaram a mais rica e mais
poderosa de todas as famílias) e outros de grande influência e poder. Também
estavam lá um senador dos EUA, um alto funcionário do Tesouro dos EUA, o
presidente do maior banco do país na época, uma proeminente figura de Wall
Street e o homem que mais tarde se tornou o primeiro presidente do Federal
Reserve. Eles queriam mudar a ideologia e o rumo dos negócios nos EUA, até então
baseados na competição do mercado, substituindo-os pelo monopólio. Eles também
sabiam aquilo que o Barão M.A. Rothschild compreendera um dia, ao dizer “dêem-me
o controle sobre a moeda de um país e não me interessará mais quem faz as suas
leis”. Eles também compreendiam a sabedoria do que está inscrito em Provérbios
22:7: “Os ricos reinam sobre os pobres, e o que pede emprestado é o servo de
quem empresta”.
Essa foi a aurora da idade dos poderosos
cartéis, quando os sete titãs financeiros encontraram-se secretamente no clube
da ilha, decidindo não mais competir entre si. Eles já estavam informalmente em
conluio, mas sabiam que tudo funcionaria melhor sob um cartel legalmente
sancionado. Eles queriam um cartel bancário e conseguiram um que ainda hoje
floresce abaixo do radar do público, com a ferramenta que eles mais queriam – a
capacidade de controlar o suprimento de dinheiro da nação, o que deu a eles um
poder quase ilimitado. O cartel agora trabalha cooperativamente com seus
governos e todas as outras poderosas corporações transnacionais, numa aliança
dominante global que permite a eles o controle dos mercados mundiais, dos
recursos, da mão de obra barata e de nossas vidas.
* Pesquisador do
Centre for Research on Globalization.
Continua na
próxima edição. |