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O Federal Reserve, banco
central dos EUA:
O templo e os
seus segredos sujos (3)
Na terceira
parte de seu artigo, Stephen Lendman mostra como o Federal Open Market Committee,
formado por membros do Fed, “tem literalmente o poder de criar dinheiro do
nada”, decidindo se a política monetária deve ser arrochada ou expansiva para
servir apenas aos interesses do cartel bancário, e como a população
norte-americana paga por isso
STEPHEN LENDMAN*
O
Federal Open Market Committee (FOMC) é realmente chave para o conjunto do
processo de criação ou contração de dinheiro. Consiste de 12 membros — sete
membros do Conselho de Governadores do Fed, o presidente do Fed de Nova Iorque
(o mais importante de todos) e quatro dos restantes 11 presidentes dos Feds
regionais que exercem rotativamente mandatos de um ano. O FOMC reúne-se oito
vezes por ano em intervalos regulares para avaliar as condições econômicas e
decidir quanto a política monetária deve ser arrochada ou expansiva, de forma a
permitir seu declarado objetivo de crescimento econômico sustentável e
estabilidade de preços.
O FOMC tem
literalmente o poder de criar dinheiro do nada. Consegue fazer isto num processo
de quatro passos:
Passo 1:
O FOMC, primeiro,
aprova a compra de títulos do governo dos EUA no mercado aberto (open market).
Passo 2:
O Fed de Nova Iorque
compra esses títulos dos vendedores (os mercados financeiros têm sempre um
número igual de compradores e vendedores).
Passo 3:
O Fed paga a sua
compra com créditos eletrônicos para os bancos dos vendedores, que, por sua vez,
creditam nas contas bancárias desses vendedores. Esses créditos são literalmente
criados a partir do nada.
Passo 4:
Os bancos que
recebem os créditos podem então usá-los como reservas que lhes permitem conceder
empréstimos até 10 vezes esse valor (se a reserva compulsória deles é de 10%)
através da mágica (que só os bancos podem fazer) de usar uma fração como reserva
bancária e, naturalmente, cobrar juros sobre todo o dinheiro. Um tremendo
negócio, e é tudo legal! Imaginem como nós poderíamos ficar ricos se, como
indivíduos privados, pudéssemos fazer o mesmo. Pedir um milhão emprestado ao Fed
e, por mágica, fazer com que se torne 10 vezes mais, podendo cobrar juros sobre
tudo, exceto os 10% que nós devemos manter como reserva.
Quando o Fed quer
contrair a economia reduzindo o fornecimento de dinheiro, simplesmente reverte o
processo acima descrito. Em vez de comprar títulos, ele os vende, para que o
dinheiro saia dos bancos compradores em vez de entrar. Os empréstimos têm então
de ser reduzidos 10 vezes se a reserva compulsória for de 10%.
PREJUÍZO AO INTERESSE
PÚBLICO
O Federal Reserve
System existe apenas para servir aos seus proprietários e bancos membros, e, ao
fazê-lo, é hostil ao interesse público. Isto porque se trata de um cartel
bancário com o poder de restringir a competição para que maiores lucros sejam
ganhos às nossas custas. Dos nossos bolsos para os deles, e o público perde,
pelo menos, de quatro maneiras:
Primeira:
Através da taxa
invisível de inflação que resulta da diluição do poder de compra causada pela
entrada em circulação do dinheiro recentemente criado, reduzindo o valor dos
dólares já existentes. O Fed de Greenspan foi especialmente expansivo, nunca
prestando contas pelo seu excesso e foi capaz de passar à sociedade e ao futuro
presidente do Fed o grave problema que criou. Desde 1982, antes que ele tomasse
posse, em 1987, até 1992, o suprimento de dinheiro aumentou a uma média de 8%
ao ano. Mas, entre 1992 e 2002 a impressora fez horas extras, sintonizada com a
desregulamentação e o crescimento dos mercados globais, expandindo a moeda em
mais de 12% ao ano. Tornou-se ainda mais extrema depois do 11 de Setembro e
desde 2002 cresceu a uma taxa de 15%. Agora, dobrou em menos de uma década.
Exceto por uma pausa
em 2005, é muito provável que a fraqueza do dólar desde 2002 seja o resultado da
excessiva quantidade deles que foi criada para financiar os gastos prolíficos da
administração Bush nas suas guerras sem fim e nos seus temerários cortes de
impostos dos ricos. O problema é ainda mais complexo se considerarmos que desde
1964 o serviço de dívida cresceu de 9% para 16,5% do orçamento federal, e
continua a subir; o orçamento, de um superávit de 1% foi para um déficit de 7%;
e o endividamento federal cresceu 40% desde 2001, financiado em grande parte
devido à “benevolência de estranhos (estrangeiros)”, cuja impaciência deve estar
crescendo. Além disso, desde março de 2006 o Fed parou de publicar o agregado
M-3 sobre a quantia total de dólares em circulação. Sem essa transparência, os
grandes compradores de títulos do Tesouro dos EUA têm agora de calcular o valor
do dólar baseados em especulação e incerteza, ao invés de dados concretos.
Segunda:
O público também
perde porque o cartel bancário é capaz de praticar usura — devido ao seu poder
sobre uma moeda flexível para mover artificialmente as taxas para cima ou para
baixo ou para qualquer nível que escolha, o que é impossível aos pequenos
profissionais do crédito que funcionam num mercado verdadeiramente livre e
aberto. Além disso, o domínio do mercado pelo cartel força a maioria dos que
precisam de empréstimos (especialmente os menores, incapazes de lançar os seus
próprios instrumentos de dívida) a pedir esses empréstimos a ele, para receber
aquele que deveria ser dinheiro do público disponível ao custo mais baixo
possível.
Terceira:
Através dos
impostos, nós, o público, temos de pagar para cobrir os juros da enorme dívida
nacional, agora acima dos US 8,4 trilhões (N.T.: a quantia referida corresponde
a 2006, quando o artigo foi escrito; hoje a dívida nacional dos EUA está em US$
10,6 trilhões), acumulada sobre o dinheiro que o Fed imprimiu e cedeu ao governo
a título de empréstimo. Como disse antes, isso totaliza hoje uma quantia anual
no valor de mais de 2/3 de trilhão de dólares, aumentando diariamente. Fez os
banqueiros mais ricos, fez as pessoas comuns mais pobres, e fez do público
pessoas que não sabem como foram enganadas durante tanto tempo.
Quarta:
Agravando os abusos
mencionados, o cartel pode fazer com que o público tire o sistema de apuros com
mais dólares do contribuinte. Isso acontece cada vez que algum dos bancos
demasiado grandes para que se permita que quebrem necessita de ajuda financeira
para sobreviver. Vale o mesmo para grandes corporações como a Chrysler ou a
Lockheed, grandes firmas de investimentos ou fundos de hedge como o Long-Term
Capital Management ou, inclusive, países como o México. Também vale quando fecha
um banco e é preciso pagar aos depositantes ou, mais sério, depois de uma crise
financeira sistêmica como a que acabou com muitos bancos de poupança e
empréstimos nos anos oitenta. Seja um só banco ou muitas dezenas ao mesmo tempo,
os dólares dos impostos do público são utilizados para salvar o sistema ou só
para pagar a conta com o objetivo de reembolsar os depositantes segurados contra
perdas pelo seguro de proteção governamental até um certo montante por conta
corrente.
ADAM SMITH
Essa concentração de
riqueza e poder do cartel bancário é o contrário do que Adam Smith, o patrono
ideológico do capitalismo de livre mercado, propugnou em seus escritos,
incluindo sua obra fundamental, “A Riqueza das Nações”. Adam Smith escreveu
sobre uma “mão invisível” que, segundo ele, funcionava melhor em um mercado
livre com numerosos pequenos negócios em competição local uns contra os outros.
Ele se opôs energicamente ao concentrado mercantilismo de seus dias, que
atualmente seria o equivalente às nossas gigantescas corporações transnacionais
e ao cartel bancário, com poder para restringir a competição, manter preços mais
elevados do que seria possível de outra maneira e, como resultado, ganhar
maiores lucros às custas do público.
O tipo de cartel
bancário que existe hoje em dia é, precisamente, o que Adam Smith teria
condenado. Que haja um banco central não é um mal em si, sempre que o banco seja
de propriedade do governo, controlado e operado em função do bem público. Só se
torna um problema quando se estabelece o banco mediante subterfúgios, para que
pareça propriedade do governo e operado por este, quando, na realidade, serve ao
interesse privado, como em nosso caso, e também na maioria dos outros. Nos EUA,
para que funcione o arranjo, o Sistema é dirigido por um organismo nomeado em
sua maioria pelo governo, que atua como um alcoviteiro para os membros privados
do ganancioso cartel dos bancos, que, primeiro, conceberam o próprio sistema, e,
depois, conseguiram que um Congresso corrupto o pusesse à sua disposição. Para
que funcione, o cartel precisa da cobertura que consegue como resultado de sua
associação com o governo, mas prejudica o interesse público graças a essa
estrutura, em proveito de seus próprios lucros privados.
E assim chegamos ao
coração do problema: o Congresso eleito para servir ao povo, o traiu, em vez de
cumprir com seu dever, ao criar um cartel bancário todo-poderoso e outorgar-lhe
a autoridade para praticar o fracionamento da reserva bancária com o poder de
obter dinheiro, criando-o do nada. Depois, permitiu a seus membros um direito de
quase-monopólio para estabelecer as taxas de juros que desejem cobrar dos que
contraem empréstimos. Todo o processo equivale a um assalto legalmente
sancionado dos poderosos bancos que operam em conluio com o governo para obter
seus próprios lucros. Forma também parte de um processo mais amplo, organizado
pelo governo para transferir riqueza do povo para os bolsos das grandes
corporações e dos ricos, sem que os atingidos sequer saibam o que ocorre.
* Pesquisador do Centre for Research on
Globalization.
Continua na próxima edição. |