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Vale propõe
“flexibilizar” direitos manipulando crise como pretexto
Pouco depois de o
presidente Lula pedir empenho dos empresários para manter empregos e reduzir
preços, “dono” da Vale quer “flexibilizar” as leis trabalhistas e cortar
salários
Em entrevista a um jornal paulista, o presidente da Vale, Roger
Agnelli, exumou o xaropéu neoliberal de “flexibilização” dos direitos
trabalhistas como medida para supostamente “enfrentar” a crise. “O governo e os
sindicatos precisam se convencer da necessidade de flexibilizar um pouco as lei
trabalhistas: suspensão de contrato de trabalho, redução da jornada com redução
de salário, coisas assim, em caráter temporário”, disse.
Como é sabido, após oito anos da gestão FH - cuja marca registrada
foram as privatizações e em seu rastro, milhões de desempregados – a economia
brasileira foi ao fundo do poço, chegando ao acordo com o Fundo Monetário
Internacional (FMI), de onde surgiu o famigerado superávit primário, o arrocho
fiscal para pagamento de juros. Naquele triste período, foi introduzido o
trabalho temporário, proliferaram terceirizações e o banco de horas e,
inclusive, houve redução de salários, entre outras distorções. Tudo isso para
que? Para tirar o país da estagnação é que não foi, já que o presidente Lula
pegou o país quebrado.
O que o sr. Agnelli expõe de forma clara e insofismável é o modus
operandi do monopólio privado. Na bonança, busca do lucro máximo; no descenso,
lucro máximo; ameaça de crise, lucro máximo. Resumindo, em qualquer situação,
busca do lucro máximo. Ou seja, quer se aproveitar da crise de origem externa -
que pode vir a ter sérias conseqüências sobre a nossa economia caso não sejam
tomadas medidas mais efetivas de contenção, precisamente a imediata e
significativa redução da taxa de juros – para assaltar o bolso dos trabalhadores
e continuar multiplicando os lucros da Companhia, que vem batendo recordes a
cada ano. Nos primeiros nove meses de 2008 apresentou um lucro líquido de R$
19,259 bilhões, quase o mesmo resultado obtido em todo o ano passado: R$ 20,006
bilhões. Em 2006, o lucro líquido obtido foi de R$ 13,431 bilhões.
SOBREPREÇO
Lucros obtidos principalmente com sobrepreço do ferro, imposto pela
Vale e os monopólios anglo-australianos BHP Bilinton e Rio Tinto, que formam o
cartel que controla a produção mundial do minério. O aumento do preço do minério
de ferro este ano - entre 65% e 71% - só foi inferior ao de 2005, quando
alcançou 71,5%. É o próprio presidente da Vale quem relata, na entrevista ao “Estadão”,
como foi fechado os contratos com siderúrgicas chinesas: “No começo do ano,
acertamos com os clientes um reajuste de 71% no preço. Era contrato de um ano,
mas dissemos que, se o preço a ser fechado com as siderúrgicas australianas
fosse muito maior que o nosso, a gente teria o direito de reavaliar. Como
aconteceu isso, resolvemos fazer uma mudança: igualar o preço cobrado das usinas
européias – tradicionalmente maior. Ou seja, cobrar dos asiáticos o mesmo que
pagam os europeus”.
Alguns incautos se iludem com os números - principalmente os lucros
- apresentados pela Companhia nos últimos anos. Contudo, é bom lembrar que a
Vale do Rio Doce foi privatizada na bacia das almas, em 6 de maio de 1997, pelo
valor simbólico de R$ 3,33 bilhões (cerca de US$ 3 bilhões à época),
constituindo-se no maior crime já cometido contra o patrimônio público. Antes da
privatização, era lucrativa, eficiente e detentora do controle da mais rica e
maior parte do subsolo brasileiro, especialmente a maior jazida de minério de
ferro do mundo, localizada em Carajás (PA), assim como outros minérios como
manganês, bauxita, ouro, nióbio, tântalo e a infra-estrutura construída ao longo
dos anos, como complexos industriais, usinas, ferrovias, portos e navios. Nada
disso foi levado em consideração quando foi feito o edital do leilão pela Merril
Lynch (EUA).
SANGUESSUGA
Todo o lucro obtido com sobrepreços não impediu que a Vale
procurasse sugar os recursos do Estado. No dia 1º de abril deste ano, teve um
limite de crédito aprovado pelo Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e
Social (BNDES) no valor de até R$ 7,3 bilhões, constituindo-se na “maior linha
já disponibilizada pelo BNDES para uma empresa só”, segundo o presidente do
banco, Luciano Coutinho. Mesmo assim, não hesitou em dar férias coletivas para
4.400 funcionários e demitir mais 260 em suas unidade em Minas Gerais.
Este limite de crédito foi instituído pelo BNDES em 2005, tendo como
primeiro beneficiário o Grupo Gerdau, que empalmou na época R$ 900 milhões.
Seguindo a mesma linha de raciocínio de Agnelli, o presidente do conselho de
administração desse Grupo, Jorge Gerdau, saiu-se com um pérola: “O governo deu
reajustes futuros para o funcionalismo. Eu suspenderia. Faria uma lei
suspendendo os reajustes. Não é justo que, enquanto a iniciativa privada demite,
os servidores públicos tenham aumento de salário”, afirmou na reunião com o
presidente Lula, na quinta-feira (11).
Quer dizer, então, que errado está o presidente Lula em conceder
aumentos aos servidores, em adotar medidas que estimulem o consumo e para
ampliar o crédito. Certos mesmo estão os monopólios, que, mesmo sugando dinheiro
público, estão demitindo, dando férias coletivas, enfim, chantageando os
trabalhadores e o governo sob a falácia de enfrentamento da crise.
Porém, ante à risível proposta de Agnelli, as Centrais já externaram
a disposição dos trabalhadores: inicialmente, ir à greve, se necessário, para
garantir os empregos e os seu direitos. Depois chegará o momento da conquista da
reestatização.
VALDO ALBUQUERQUE |