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Medidas visam ampliar consumo e monopólios advogam arrocho
Anúncio de novas
alíquotas do Imposto de Renda pode aquecer vendas de Natal
As medidas anunciadas pelo governo no final da
semana passada não pretendem ser um remédio – ou, melhor, uma vacina – contra a
crise. Não pretendem, e não são. Segundo o ministro da Fazenda, Guido Mantega, o
objetivo dessas medidas é a reativação do crédito e das vendas.
Na quinta-feira da semana passada, o presidente
Lula reuniu-se com os empresários e/ou executivos Demian Fiocca (Vale),
Jorge Gerdau Johannpeter (Grupo Gerdau), Emilio Odebrecht (Grupo
Odebrecht), Carlos Ermírio de Moraes (Votorantim), Fabio Barbosa (Santander),
Roberto Setubal (Itaú/Unibanco), Marcio Cypriano (Bradesco),
Victorio de Marchi (Ambev), Carlos Jereissati (Oi), Roberto
Oliveira de Lima (Telefónica), Benjamin Steinbruch (CSN), Marcos
de Oliveira (Ford), Jaime Ardila (GM), Cledorvino Belini (Fiat),
Jackson Schneider (Mercedes-Benz), Thomas Schmall (Volkswagen),
Ivan Zurita (Nestlé), Hector Nunez (Wall-Mart), Antonio Maciel
Neto (Suzano Papel e Celulose), Carlos Lira Aguiar (Aracruz Celulose),
Constantino de Oliveira Junior (Gol), David Barioni Neto (TAM),
Joesley Batista (Friboi), Luiz Fernando Furlan (Sadia), Milton
Cardoso (Grendene/Vulcabrás), Sérgio Andrade (Andrade Gutierrez) e
Rubens Ometto (Cosan). Participaram, além desses, o presidente da
Confederação Nacional da Indústria, Armando Monteiro Neto, e Flavio Silva de
Azevedo, pelo Instituto Brasileiro de Siderurgia (IBS), os ministros da Fazenda,
da Indústria e Desenvolvimento, do Planejamento e o presidente do Banco Central.
PRÁTICAS
Com exceções, a composição da reunião era,
sobretudo, de representantes de monopólios externos (Santander, Ford, GM, Fiat,
Volks, Mercedes, Wall Mart, Telefónica, Nestlé, Ambev) e de candidatos internos
a monopólios (Vale, Odebrecht, Itaú/Unibanco, Bradesco, CSN, Gerdau,
Votorantim). Assim, tudo o que a maior parte desses empresários ou executivos
tinham a propor ao governo, supostamente para combater a crise, era a
“flexibilização” dos direitos trabalhistas – ou seja, que se descontasse nas
costas dos trabalhadores, por antecipação, os possíveis efeitos de uma crise
que, no essencial, nem chegou ao Brasil. Resta saber a quem a indústria nacional
poderia vender seus produtos se os trabalhadores fossem despojados, ainda que em
parte, de seus direitos. Monopólios, certamente, não fazem esse tipo de
pergunta, pois acreditam que, por falta de concorrentes, será possível obrigar
os consumidores a comprar seus produtos ou serviços. Como isso não é verdade,
são os monopólios e as práticas monopolistas que exacerbam mais fortemente a
crise. Se o raciocínio deles fosse correto, a solução para todas as crises seria
a volta à escravidão. O problema é que isso acabaria, também, com o mercado.
Nas palavras do ministro Mantega, “os dirigentes
do Santander, Itaú e Bradesco estavam na reunião e ouviram que é preciso baixar
o custo do dinheiro”, ou seja, baixar os juros bancários. Embora subitamente
reduzidos a um mutismo absoluto, há pouca dúvida de que eles ouviram. Exceto se,
além de mudos, eles ficaram surdos de repente. O fato é que nenhum deles fez o
menor comentário sobre esse aspecto da intervenção do presidente.
Houve outro mudo na reunião: o presidente do
Banco Central, Henrique Meirelles. Sobre a ação dos bancos públicos em relação à
oferta de crédito, o ministro da Fazenda declarou que o governo pretende
determinar aos bancos públicos que diminuam seus “spreads” (diferença entre a
taxa com que captam dinheiro e aquela com a qual emprestam dinheiro). Não se
sabe até que ponto é exequível esta medida na atual situação, com o Banco
Central recusando-se a diminuir a taxa básica de juros: a grande barreira para a
diminuição dos juros dos bancos públicos é, precisamente, a taxa de juros
básica, determinada pelo Banco Central, que, já há algum tempo, é a maior do
mundo (8% em termos reais), sem que haja qualquer necessidade econômica para
tal, muito pelo contrário.
As medidas tomadas pelo governo, portanto, são
uma tentativa de estimular a economia sem contar com a redução dos juros pelo
Banco Central – ou enquanto o governo não impõe ao BC a redução dos juros,
medida evidentemente necessária e já tardia.
Entre as medidas está a diminuição do Imposto
sobre Operações Financeiras (IOF) de 3,38% para 1,88% no crédito direto ao
consumidor e no cheque especial. Segundo o ministro Mantega, isso baratearia o
crédito em três a quatro pontos percentuais porque foi em três a quatro pontos
percentuais que os bancos aumentaram os juros ao consumidor quando o IOF foi
elevado, em janeiro deste ano. Ou seja, a medida é a revogação parcial do
aumento feito em janeiro, depois que a oposição derrubou a CPMF, na esperança de
que os bancos reduzirão os juros na mesma magnitude em que os aumentaram quando
o IOF foi elevado. No entanto, é pouco provável que o cartel bancário aja com
essa racionalidade aritmética e espírito público – na hora de aumentar, qualquer
pretexto serve; depois, não é porque o pretexto desapareceu que eles vão voltar
atrás no aumento.
Mas é justa a medida de introduzir duas novas
alíquotas no Imposto de Renda (IR) das pessoas físicas. A atual tabela é um
esbulho fabricado no governo Fernando Henrique, em que apenas duas alíquotas
servem – com o não reajuste da tabela durante anos – para extorquir uma parte
dos trabalhadores e a classe média, enquanto os ricos escapam através das
brechas fiscais. Portanto, considerando a expectativa dos que vão declarar o IR
no início do ano que vem, possivelmente essa medida terá algum efeito nas vendas
de fim de ano.
CRÉDITO
Quanto à redução (ou abolição, no caso dos
carros 1.0) do Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI) sobre automóveis,
as montadoras comemoraram, e com razão. O ministro da Indústria e
Desenvolvimento, Miguel Jorge, declarou que o governo vai acompanhar os
acontecimentos no setor, inclusive quanto a futuras demissões, mas disse também
que as montadoras não se comprometeram a parar com demissões em troca da redução
do IPI. Segundo Miguel Jorge, os representantes das multinacionais disseram que
vão fazer um “esforço” para não demitir.
O presidente e seus ministros, como seria de
esperar, não discutiram “flexibilizações” de direitos trabalhistas. Preferiram
medidas que implicam uma pequena diminuição da arrecadação do Estado – menos R$
8,4 bilhões, segundo a Fazenda, sendo R$ 4,9 bilhões devido às modificações nas
alíquotas do Imposto de Renda.
Portanto, somente R$ 3,5 bilhões foram renúncias
fiscais em prol de bancos e montadoras, muito menos, certamente, do que esses
setores pretendiam – ou gostariam. Resta saber o que eles farão com esse
dinheiro extra, obtido às custas do Estado. É provável que, pelo menos
momentaneamente, haja uma certa reativação do crédito ao consumidor. Se isto
acontecer, será importante, devido à época do ano, tradicionalmente de aumento
de compras pelos consumidores.
C.L.
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