|
Odebrecht x Equador e a mídia monopolista
Voltamos a esta questão pelo fato de a mídia monopolista
brasileira insistir em sua parcialidade escandalosa na cobertura da contenda
entre a empresa brasileira e o governo equatoriano. Ao focalizar um problema
dessa magnitude, qualquer imprensa séria em qualquer parte do mundo o faria
mostrando os dois lados da moeda. Mas, os grandes meios de comunicação de
massa do Brasil insistem em apresentar apenas um lado da questão. E, pior, o
podre, representado pela Odebrecht, defendendo-a.
A construtora Norberto Odebrecht é poderosa. Tem
grandes obras no Brasil e em vários países do mundo. Por que será que a
mídia e a oposição de direita no Congresso Nacional (PSDB e Dem) armam-se
até os dentes para – como fez o presidente da Comissão de Relações
Exteriores do Congresso, senador Heráclito Fortes (Dem-PI) – defender essa
empresa e exigir do presidente Lula que adote uma postura de enfrentamento
em relação ao Equador?
Simples! Todas essas agremiações – a exemplo das
grandes corporações internacionais citadas em Capitalismo gângster
(extraordinário livro de denúncias do capital monopolista) – trabalham em
conluio com um grande objetivo: faturar alto com o endividamento de países
pobres. Portanto, desnudar o problema, informando o telespectador ou o
leitor sobre os detalhes das transações comerciais ilícitas que levaram à
construção da hidrelétrica de San Francisco, no Equador, seria entregar o
ouro para o adversário (deles).
Nesta contenda entre o Equador e a Odebrecht, em
particular, o que a elite branca quer é fragilizar o governo Lula
obrigando-o a cobrar de Rafael Correa, presidente do Equador, uma dívida
ilegal. O ilustre senador Fortes chegou a acenar com a bandeira da
arrogância imperial, dizendo: “O Brasil não pode ficar silencioso. O brio
brasileiro está ferido”.
BRIOS
Quanto a isso a economista Roberta Traspadini pondera: “Se
por brio se entende a capacidade de dominar, ditar regras e impor, dado seu
poderio econômico-militar-político e sua aliança com os grupos e estados
hegemônicos mundiais, sim, a política de Correa afeta os brios brasileiros.
[Mas], se por brio se entende a capacidade de, ao estar junto, não impor e
sim contrapor à lógica de poder dominante ao longo da história, em que a
referência está no desejo e necessidade dos povos latinos e não da classe
dominante, então a política de Correa não só mexe com o brio, como o coloca
em seu devido lugar”.
Remember! A decisão do governo equatoriano de
questionar essa dívida baseou-se em relatório de uma Auditoria de dívidas
públicas contraídas de 1976 a 2006. Nada mais justo, pois o contrato com a
Odebrecht, segundo a mesma Auditoria, é repleto de ilegalidades envolvendo –
além da empresa brasileira – o BNDES (dos tempos de FHC) e o governo
equatoriano de Lucio Gutiérrez. Diante de um número considerável de
irregularidades, o atual governo equatoriano não pretende reconhecer a
dívida. Por isso recorreu à Câmara de Comércio Internacional em Paris, o que
qualquer nação soberana certamente faria.
Relativamente à postura da nossa elite branca,
nenhuma surpresa. Afinal, a classe dominante – que representa o capital
monopolista –, em qualquer país do mundo, é mestre em privatizar o bônus e
socializar o ônus (vide a atual crise mundial provocada pelo capital
especulativo nos EUA). O governo tucano de FHC, por exemplo, “se superou em
matéria de malversação de dinheiro público, socialização de prejuízos e
entrega do patrimônio nacional. Foram oito anos de securitização de dívidas
de latifundiários inadimplentes (o ‘agrobusiness’) com o Banco do Brasil.
Oito anos de crescimento mínimo e endividamento externo máximo”, como disse
o Prof. Gilson Caroni.
EMERSON LEAL
Doutor em Física Atômica e Molecular e vice-prefeito de São Carlos |