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Vale do Rio Doce usa a crise externa para extorquir mais
Privatizada por
FHC, ela mantém preços de monopólio, demite e quer cortar mais direitos
O presidente da Vale do Rio Doce, Roger Agnelli,
é um funcionário que o Bradesco, que tem cerca de 8% das ações com direito a
voto da Vale, colocou à frente da segunda maior empresa do país, apesar de 41%
das ações votantes estarem nas mãos dos fundos de pensão do Banco do Brasil e da
Caixa e 12% com o BNDES. Nas palavras do ministro das Minas e Energia, Edison
Lobão, “o poder estatal ainda detém mais de 50% da Vale do Rio Doce, embora seu
comando, sua direção, por esses artifícios de natureza legal, pertencem a 8%,
detidos por um determinado banco privado” (cf., HP, 16/05/2008).
Não falaremos aqui do fato de que a participação
do Bradesco na Vale é ilegal, pois o banco foi um dos avaliadores no processo de
privatização da empresa – o que o inabilitava para comprá-la, mas, na época de
Fernando Henrique e seu advogado-geral, Gilmar Mendes, trambi-ques e negócios
não eram considerados dois departamentos diferentes.
O Bradesco, portanto, manda na Vale sem ter a
maioria do capital votante. Com a alquimia do governo Fernando Henrique, não
precisou desembolsar dinheiro para ter esse comando sobre a empresa.
Portanto, Agnelli teria – e tem – todos os
motivos para ser um sujeito discreto e procurar não chamar atenção sobre sua
pessoa, ao menos como presidente da Vale. Deveria ser aquilo que os jornais
americanos chama de “low profile”, ou seja, um sonso que prefere fazer as
coisas na sombra.
O problema é que Agnelli é, também, um desses
espevitados e untuosos rapazes que abundaram na maré do neoliberalismo, crentes
de que o monopólio é algo eterno e, talvez, divino, assim como sua função de
executivos de grandes empresas.
Assim, no último dia 14, Agnelli pregou a
“suspensão de contrato de trabalho, redução da jornada com redução de salário,
coisas assim, em caráter temporário”, supostamente como medida para combater a
crise – uma crise que não afetou o país, exceto em menor medida.
Três dias depois, na quarta-feira, dia 17, a
Vale do Rio Doce adquiriu as minas de cobre da TEAL Exploration & Mining
Incorporated (TEAL), subsidiária da empresa sul-africana African Rainbow
Minerals Limited (ARM). O negócio significa a compra das minas da ARM
localizadas no Congo, Namíbia, Moçambique e Zaire. Com a crise nos países
centrais e consequente desvalorização dos ativos em dólar, a Vale está usando os
R$ 15 bilhões que tem em caixa para ampliar seus negócios e seu monopólio
minerador em outras partes do mundo. Enquanto isso, seu presidente postula que o
grande problema da crise é que os trabalhadores estão recebendo muito dinheiro.
LUCRO
A Vale é um dos maiores escândalos do governo
Fernando Henrique: até então uma empresa estatal, detentora de reservas de valor
incalculável, ela foi privatizada por meros R$ 3,3 bilhões, e mesmo assim com
financiamento do BNDES aos “compradores”. Somente nos primeiros nove meses deste
ano a Vale teve um lucro líquido de R$ 19 bilhões, quase o mesmo lucro líquido
de todo o ano passado: R$ 20 bilhões.
Devido às reservas que o governo Fernando
Henrique privatizou junto com a companhia, hoje a Vale é a 12ª empresa do mundo
em “valor de mercado” (US$ 196,5 bilhões) e a nona das Américas. Acima dela, no
Brasil, há somente a Petrobrás. Além desta, nas Américas somente as
norte-americanas Exxon-Mobil, General Eletric, Microsoft, AT&T, Wall Mart,
Chevron-Texaco e Procter & Gamble têm “valor de mercado” superior à Vale – e
reparemos que esses valores foram calculados em maio, antes que a crise dos EUA
lançasse suas empresas no abismo (cf. Relatório Econo-mática, 15/05/2008).
Não obstante essa potência econômica obtida às
custas do Estado e do povo brasileiro, a Vale vem sugando o BNDES de uma forma,
que nos perdoem os leitores mais pudicos, verdadeiramente indecente (para esse e
outros dados, ver matéria em nossa edição anterior).
PREÇOS
A Vale é uma das três companhias que dominam o
fornecimento e determinam os preços do minério de ferro no mundo – produto
extrativo que deu um salto nos preços devido à manipulação desse cartel.
Naturalmente, o objetivo principal dos aumentos de preços era achacar os
chineses, maiores compradores de minério de ferro do mundo. Assim, no final do
mês passado, os chineses, depois de um novo aumento, suspenderam os contratos de
fornecimento: simplesmente, eles perceberam que tinham, como principal
comprador, o poder de negociar os preços, e deixar de ser achacados impunemente.
Foi o quanto bastou para Agnelli, confrontado
com as conseqüências de sua política burra – parecida com a do sujeito que matou
a galinha dos ovos de ouro – anunciasse, no dia 3 de dezembro, o corte na
produção de 30 milhões de toneladas de minério de ferro, a redução da
pelotização do minério de ferro, da produção de alumínio, manganês e
ferros-ligas, dando férias coletivas para milhares de trabalhadores e demitindo
outros tantos. Ao mesmo tempo, pelo que apontam as medições dos institutos de
pesquisas, a construção civil manteve o seu crescimento e a conseqüente procura
por ferro e aço. Tampouco caiu a demanda da China. Apenas, os chineses queriam
negociar os preços.
Cerca de 10 dias depois, Agnelli apareceu com a
história da suspensão dos direitos trabalhistas.
Não é preciso muito para perceber a chantagem
contra o Estado, contra a sociedade e, sobretudo, contra os trabalhadores, por
parte de um monopólio privado que controla a seu bel prazer a produção de
matérias primas indispensáveis ao crescimento da indústria e do país.
Este breve resumo de fatos recentes revela a
estratégia, nada nova, usada pelo monopólio para garantir o superlucro. O
problema é que é uma estratégia curta – e, a rigor, estúpida: primeiro porque os
trabalhadores não vão aceitar que seus direitos sejam cortados ou abolidos;
segundo porque a falta de direitos, ou seja, a redução de salários, só serviria
para trazer a crise para o Brasil – quanto menos salário, menos consumo, menos
vendas; e terceiro porque Agnelli, cujo cargo é dependente do Estado até os
cueiros, está provocando sobre a situação da Vale toda a atenção que o velho
Amador Aguiar, fundador do Bradesco, detestaria que um funcionário seu
provocasse.
Portanto, Agnelli deveria tomar mais cuidado com
essa conversa de demissões e suspensão de direitos. A vítima pode ser,
perfeitamente, ele. As Centrais sindicais estão pedindo ao BNDES que pare o
fornecimento de dinheiro à Vale. Mas pode ser que o Estado, que controla, a
rigor, a maioria das ações com direito a voto, demore um pouco para exercer o
seu direito de demiti-lo; porém, o Estado é sempre mais generoso do que o
Bradesco.
AR
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