|
Os escritores
“refinados” e sua aversão às imagens cruas e vivas da realidade
Em abril de 1937, Graciliano Ramos escreveu um pequeno
artigo, “Norte e Sul”. Nele, defendeu o conteúdo social na literatura e o
realismo – que naquela quadra eram representados principalmente pelos
romancistas nordestinos – contra a escrita desnaturada de certas correntes,
existentes sobretudo no sudeste (na época, dizia-se, genericamente, “sul”, da
mesma forma que os estados acima de Minas eram chamados de estados do “norte”).
O alvo de Graciliano é, principalmente, o grupo de escritores “católicos”, cujos
principais nomes foram Octavio de Farias e Lúcio Cardoso – representantes de uma
corrente politicamente reacionária, tendente ao fascismo, na literatura
brasileira. Depois do rompimento de Vinícius de Moraes, único grande artista sob
sua influência, esse grupo iria se tornar insignificante enquanto corrente
literária. Mas isso somente aconteceria em 1942, durante a viagem de Vinícius ao
Nordeste, quando conheceu João Cabral de Melo Neto, iniciando a profunda
identificação com o povo que o poeta carioca aprofundaria, cada vez mais, no
correr de sua vida, tornando-se para sempre um adversário irredutível do
fascismo. O artigo de Graciliano, pela enxuta síntese que faz da luta dentro da
literatura brasileira, é uma daquelas pequenas obras-primas que frequentemente
são subestimadas, diante de obras maiores do escritor alagoano. Por esta razão,
oferecemos esse texto aos nossos leitores.
C.L.
GRACILIANO
RAMOS
Essa distinção que
alguns cavalheiros procuram estabelecer entre o romance do norte e romance do
sul dá ao leitor a impressão de que os escritores brasileiros formam dois
grupos, como pastorinhas do Natal, que dançam e cantam filiadas ao cordão azul
ou ao cordão vermelho.
Realmente a
geografia não tem nada com isso. Não podemos traçar no mapa uma linha divisória
dos campos onde os cordões cantam e dançam.
O que há é que
algumas pessoas gostam de escrever sobre coisas que existem na realidade, outras
preferem tratar de fatos existentes na imaginação. Esses fatos e essas coisas
viram mercadorias. O crítico, munido de balanças e outros instrumentos
adequados, pode medi-las, pesá-las, decidir sobre a mão-de-obra e a qualidade da
matéria-prima, até certo ponto aumentar ou reduzir a procura, mas quem julga
definitivamente é o freguês, que compra e paga.
O fabricante que não
acha mercado para o seu produto zanga-se, é natural, queixa-se com razão da
estupidez pública, mas não deve atacar abertamente a exposição do vizinho. O
ataque feito por um concorrente não merece crédito, o consumidor desconfia dele.
Ora, nestes últimos
tempos surgiram referências pouco lisonjeiras às vitrinas onde os autores
nordestinos arrumam facas de ponta, chapéus de couro, cenas espalhafatosas,
religião negra, o cangaço e o eito, coisas que existem realmente e são recebidas
com satisfação pelas criaturas vivas.
As mortas,
empalhadas em bibliotecas, naturalmente se aborrecem disso, detestam o sr. Lins
do Rego, que descobriu muitas verdades há séculos, escondidas no fundo dos
canaviais, o sr. Jorge Amado, responsável por aqueles horrores da Ladeira do
Pelourinho, a sra. Raquel de Queirós, mulher que se tornou indiscreta depois do
“João Miguel”.
Os inimigos da vida
torcem o nariz e fecham os olhos diante da narrativa crua, da expressão áspera.
Querem que se fabrique nos romances um mundo diferente deste, uma confusa
humanidade só de almas, cheias de sofrimento atrapalhados que o leitor comum não
entende. Põem essas almas longe da terra, soltas no espaço. Um espiritismo
literário excelente como tapeação. Não admitem as dores ordinárias, que sentimos
por as encontrarmos em toda a parte, em nós e fora de nós. A miséria é incômoda.
Não toquemos em monturos.
São delicados, são
refinados, os seus nervos sensíveis em demasia não toleram a imagem da fome e o
palavrão obsceno. Façamos frases doces. Ou arranjemos torturas interiores, sem
causa. É bom não contar que a moenda da usina triturou o rapaz, o tubarão comeu
o barqueiro e um sujeito meteu a faca até o cabo na barriga do outro. Isso é
desagradável.
É mesmo. É
desagradável, mas é verdade. E o que é mais desagradável, e também verdade, é
reconhecer que, apesar de haver sido muitas vezes xingada essa literatura o
público se interessa por ela.
Orientemos o
público. A ordem é apitar, estrilar, reduzir ao silêncio alguns tipos
indesejáveis.
Não há grupo do
norte nem grupo do sul, está claro. Mas realmente os nordestinos têm escrito
inconveniências. Pois não é que o sr. Amando Fontes foi dizer que as filhas dos
operários se prostituem?
Ataquemos o sr.
Amando Fontes e outros, os que têm aparecido ultimamente do Ceará até à Bahia,
excetuando os que não disseram nada. Vamos falar mal de todos os romancistas que
aludem à fome e à miséria das bagaceiras, das prisões, dos bairros operários,
das casas de cômodos. Acabemos tudo isso.
E a literatura se
purificará, tornar-se-á inofensiva e cor-de-rosa, não provocará o mau humor de
ninguém, não perturbará a digestão dos que podem comer. Amém. |