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O
nacionalismo entreguista do sr. Haroldo Lima
O diretor-geral da Agência Nacional do Petróleo
(ANP), Haroldo Lima, dirigiu - supostamente aos funcionários que chefia –
uma carta em que diz sobre a recém acontecida refrega que foi a 10ª Rodada
de leilões de áreas petrolíferas: “Os riscos à soberania brasileira que
alguns advertiam revelaram-se inexistentes, na verdade nunca existiram, em
um processo dirigido por um governo sintonizado com o ideal de um Brasil
soberano”.
Lima sabe perfeitamente que não há ninguém
discutindo que o atual governo é não apenas “sintonizado com o ideal de um
Brasil soberano”, como tem, concretamente, defendido a nossa soberania. Quem
não está sintonizado com o “ideal” nem com a soberania é ele, Haroldo Lima.
O governo, pelo contrário, colocou-o na ANP para zelar pelas nossas reservas
petrolíferas, e não para entregá-las ou impedir que a Petrobrás arremate
blocos em leilão, como ele tentou fazer na oitava rodada, e só não o fez em
virtude da mobilização contra essa aventura - e de uma sentença da Justiça.
O sr. Haroldo Lima sabe bem que está sofismando.
Por isso, depois do trecho que citamos, achou necessário acrescentar que a
ANP é “dirigida, entre outros, por eu próprio, nacionalista militante de
várias décadas”.
O problema desse velho truque – acrescentar
outro sofisma para ofuscar o primeiro – é que ele é uma confissão de que o
autor sabe que está trapaceando. Ninguém está discutindo o passado do sr.
Haroldo Lima, as “várias décadas” em que foi “nacionalista militante”. Nunca
pomos em dúvida o seu passado. Porém, o que se está discutindo é o seu
presente. E este, convenhamos, tem pouco a ver com qualquer “nacionalismo”.
Vejamos o trecho da carta de Lima que se segue ao que acabamos de mencionar:
“Das multinacionais que ganhariam de ‘mão
beijada’ os blocos em oferta, só uma de fato apareceu e ganhou cinco blocos
no São Francisco. E se tivessem aparecido em maior quantidade e arrematado
mais blocos, nem por isso a soberania brasileira estaria ameaçada”.
Eis um exótico nacionalista: aquele que acha que
tanto faz se o petróleo nacional é explorado pela nação ou pelos inimigos
desta mesma nação – pois é isso o que são multinacionais, daí o seu nome,
que descreve o seu caráter imperialista, antinacional.
Mas, segundo o sr. Haroldo Lima, a nacionalidade
da empresa que explora o petróleo não tem importância. Ora, um nacionalista
que não se preocupa com a nacionalidade das empresas que exploram as
riquezas da sua nação é um entreguista - ou seja, o antônimo de um
nacionalista. Porém, diz Lima, o que importa é que “os contratos que teriam
que assinar salvaguardam precisamente o interesse nacional”.
Os contratos atuais, sob o regime de concessões
estabelecido pela lei do petróleo do governo Fernando Henrique Cardoso, dão
às empresas estrangeiras todo o petróleo que extraírem. A propriedade das
reservas – isto é, do petróleo que ainda não foi extraído – é da União, o
que, na prática, não serve para nada. Portanto, o que os contratos NÃO
salvaguardam é precisamente o interesse nacional.
O sr. Haroldo Lima omite tal coisa – que é o xis
da questão - sem sinal de remorso. E, como já lembramos, foi a sua profícua
gestão na ANP que tentou proibir a Petrobrás de arrematar os blocos que
quisesse nos leilões, o que daria mais espaço para as multinacionais
açambarcarem o nosso petróleo.
Não por acaso, Lima acha que o fato de uma
multinacional ter levado cinco blocos petrolíferos no São Francisco é uma
prova de que a soberania nacional foi respeitada... Logo no São Francisco,
que em outras épocas era chamado de “rio da unidade nacional”!
No entanto, o sr. Haroldo Lima fez duas
descobertas importantes: a primeira é que a Petrobrás é uma estatal. Diz ele
que “a Petrobrás, a grande estatal construída pelo povo brasileiro,
arrematou 27 dos 54 blocos concedidos, exatamente 50% do conjunto”. Ele acha
uma vantagem que a Petrobrás haja cedido 50% do que poderia levar a empresas
particulares, inclusive uma estrangeira. Mas, há apenas nove meses, em
entrevista à revista “Istoé”, Lima havia dito que a Petrobrás não poderia
ser a operadora da União no pré-sal porque “em boa parte é constituída de
capital estrangeiro ou capital privado”. Ele não considerava a Petrobrás uma
empresa estatal, apesar de, ao contrário de outros, não ter explicitado sua
posição, exceto desta forma oblíqua. Entretanto, sua conclusão revelava qual
era essa posição: era preciso, disse ele, fundar uma empresa estatal para
administrar o pré-sal. Naturalmente, tirar a Petrobrás da frente é tudo o
que querem a Exxon, a Shell e outras desse naipe.
A segunda descoberta do sr. Haroldo Lima é que a
maioria esmagadora do povo deseja que o pré-sal seja explorado pela nação.
Implicitamente, é o que ele reconhece quando diz que “o pré-sal é todo no
mar. A 10ª Rodada não continha nenhum bloco em mar. Por razões dessa
inconsistência, os apoios foram fugindo do chamado movimento pela suspensão
da 10ª Rodada”.
A última parte não é verdade – tanto assim que a
ANP chamou a polícia para reprimir a manifestação contra a 10ª Rodada, o que
resultou em 50 feridos, alguns internados em hospital.
Mas que o controle do país sobre o petróleo da
camada pré-sal é uma questão mais candente do que qualquer outra para o povo
brasileiro, é verdade.
Não que o sr. Haroldo Lima seja a favor do
controle nacional efetivo – não apenas formal – sobre o pré-sal. Como ele
diz, “não que sejamos contrários a que empresas estrangeiras, devidamente
reguladas, estejam em petróleo e gás no Brasil. Isto ocorre em todo o resto
do mundo [que “resto do mundo”, Haroldo? Todas as maiores e principais
reservas do mundo estão sob controle de estatais.]”.
No mais, a carta de Lima, no caso de não ser
apenas por crassa ignorância, é uma demagógica arenga sobre o suposto papel
da pequena empresa petrolífera no progresso municipal (!!!). Uma conversa
que já era maluquice na década de 30, quando se estabeleceu o consenso de
que a única forma de se opor à voracidade dos gigantescos monopólios
petrolíferos é através de uma grande empresa pública, estatal. O que a
Petrobrás só fez confirmar desde sua fundação por Getúlio Vargas, em 1953.
CARLOS LOPES |