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Lula reprova “alarde” feito no anúncio sobre desmatamento
E disse que
compra “briga com as ONGs” externas por ligarem agricultura a desmate
O presidente Luís Inácio Lula da Silva
considerou que houve “alarde” na divulgação pelo Ministério do Meio Ambiente de
dados do Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais) sobre desmatamento na
Amazônia. Nesta quarta-feira (30), Lula disse que os números do Inpe estão “sob
investigação” e fez severas críticas a ONGs estrangeiras, advertindo que é
precipitado culpar os criadores de gado, produtores de soja e assentamentos da
reforma agrária pelo desmatamento.
“Eu compro essa briga com as ONGs, com isso de
associar o desmatamento com a expansão da fronteira agrícola brasileira. Em
primeiro lugar, essas ONGs precisam plantar árvores nos países deles”, afirmou.
“Antes é preciso investigar e ver o que aconteceu”, completou Lula. O presidente
ressaltou que aqueles que forem responsáveis por desmatamento ilegal devem
“receber um duro processo, inclusive com a perda da propriedade”, mas rejeitou a
forma como a questão foi abordada.
ESTIMATIVA
Segundo estimativa divulgada pelo Ministério do
Meio Ambiente, na quarta-feira da semana passada, 23 de janeiro, o Inpe havia
detectado que, no último trimestre de 2007, uma área de sete mil quilômetros
quadrados teria sido derrubada na floresta amazônica.
O número, projetado a partir de informações
recolhidas pelo Sistema de Detecção do Desmatamento em Tempo Real (Deter) – que
registrou 3.233 quilômetros quadrados de mata derrubada entre agosto e dezembro,
sendo 1.922 quilômetros só nos meses de novembro e dezembro – é conflitante com
os registrados até então. Dados do próprio Inpe atestam que as taxas de
desmatamento vinham caindo há três anos.
Lula alertou para o fato de que um aumento do
desmatamento no último trimestre do ano passado, comparado ao último trimestre
de 2006, não quer dizer que na conta do ano inteiro o desmatamento de 2007 tenha
crescido em relação ao ano anterior. Ele comparou a forma como os números foram
divulgados a um procedimento médico. “Você vai no médico, você está com um
tumorzinho e, ao invés de fazer biópsia e saber como vai se tratar, você já sai
dizendo que tem câncer!”, observou. O presidente anunciou ainda que pediu à
ministra do Meio Ambiente, Marina Silva, para convidar os governadores dos
Estados envolvidos para uma reunião em Brasília.
Marina Silva provocou um princípio de incêndio,
ao atribuir a causa do problema a pressões de produtores de soja e gado,
prefeitos, governadores, etc. De acordo com os registros dos satélites, somente
o Estado do Mato Grosso concentraria mais da metade das áreas devastadas. O
governador Blairo Maggi reagiu, declarando que vai pedir uma revisão dos números
em 19 municípios, apontados pelo ministério como alguns dos maiores responsáveis
pelo avanço do desmate nos últimos meses do ano passado.
Blairo Maggi afirmou, na quarta-feira, que em
2007 o Inpe errou nas estimativas de desmatamento entre os meses de abril e
agosto, o que justificaria o pedido de revisão para o período entre agosto e
dezembro. “Em que posição eles (os 19 municípios) vão se encaixar, eu não sei,
não estou dizendo que não houve desmatamento na região; eu sei que houve tanto
desmatamento autorizado como, certamente, também desmatamento não autorizado.
Mas precisamos aproveitar esse momento para fazer uma análise profunda de como é
que os dados estão sendo trabalhados”, disse o governador.
Em entrevista à TV Brasil, o diretor do Inpe,
Gilberto Câmara, reconheceu o erro do instituto em 2007, mas garantiu que os
dados foram corrigidos. Mas as dúvidas perduraram. Tanto que o ministro da
Agricultura, Reinhold Stephanes, também contestou a estimativa de elevação do
desmatamento. “Acredito que deve haver problema com os dados sobre o Mato
Grosso. Algo não bate: pode não ter havido derrubada”, comentou.
Nesta mesma quarta-feira, após sobrevoar a
região centro-norte de Mato Grosso, a ministra do Meio Ambiente reconheceu em
entrevista no aeroporto de Sinop (MT) que os números apurados pelo Deter indicam
apenas “indícios” de desmatamento. “O Deter é um sistema diferente, não é para
taxa de desmatamento, é para fiscalização”, admitiu. Marina buscou justificar o
imbróglio causado pelo ministério, alegando que os dados do Deter serão revistos
pelo sistema Prodis em agosto. “Todo ano o sistema Deter indica o desmatamento e
nós saímos agindo preventivamente. Em agosto o sistema Prodis confirma ou não
aquela tendência”, adiantou.
PRODIS
O coordenador do Projeto Amazônia, Dalton
Valeriano, confirmou que os dados do Deter não têm a mesma precisão do sistema
Prodis, pois só registra desmatamentos com área superior a 25 hectares. Ele
disse que a divulgação dos números teve o intuito de mostrar a tendência de
aumentar o desmatamento.
A tentativa de provocar desgaste político ao
governo, apontando os prefeitos de partidos aliados como coniventes com o
desmatamento, também foi rebatida pelo líder do PR na Câmara dos Deputados,
Luciano Casto (RR). “A vinculação com as prefeituras me parece fora de foco.
Acredito que a maior área desmatada seja privada, que está sobre o controle do
Ibama e por isso os prefeitos não têm controle”, afirmou.
WALTER FÉLIX |