|
Juiz italiano acoberta
Kissinger, Townley, Vernon Walters e Bush pai
Filigliola releva a CIA que criou e comandou a Operação Condor
O
agente Townley confessou até atentado contra o senador chileno Leighton no
centro de Roma, mas o juiz fez vista grossa para autores da operação e pediu a
prisão de 140 sul-americanos
O
zeloso juiz italiano Luisann Figliola não parece muito preocupado com a Operação
Condor. Pelo menos, não com a Operação Condor real, a que existiu. Ao emitir
ordens de prisão para 140 cidadãos sul-americanos, alguns inclusive mortos,
extrapolando completamente a sua jurisdição, esqueceu dos organiza-dores da
Operação. Ou, mais precisamente, ainda que não tenha consciência disso, usou os
140 sul-americanos para ocultar os verdadeiros responsáveis. Por exemplo, ele
não emitiu mandado de prisão contra Henry Kissinger, que, como assessor de
Segurança Nacional e depois como Secretário de Estado dos EUA, foi o mandante da
série de assassinatos que ficou conhecida como Operação Condor. Também não há
nenhum diretor ou alto funcionário da CIA na lista do juiz – apesar de,
notoriamente, a Operação ter sido organizada e durante todo o tempo estado sob o
controle da CIA.
Provas e indícios é o que não faltam. Interessante que há uma confissão de um
notório agente da CIA que participou de quase todas, senão todas, as ações da
Operação Condor, Michael Townley, sobre o atentado a tiros contra o senador
chileno Bernardo Leighton em 1975. Esse atentado ocorreu em Roma, o que deve
contrariar as leis italianas, mas isso não fez com que o juiz Figliola incluísse
Townley no seu rol, assim como não incluiu Kissinger nem o diretor da CIA no
governo Ford, George H. Bush.
Sabe-se, por documentos da própria CIA que foram liberados, que Manuel
Contreras, chefe da DINA, o órgão de repressão, tortura e assassinatos da
ditadura de Pinochet, foi convidado duas vezes para ir a Langley, Virginia, sede
da agência americana, para conversar com Vernon Walters – o mesmo que era adido
militar americano no Brasil, na época do golpe de 1964. A última visita de
Contreras foi em 1975 e durou 15 dias. Depois dessa visita, Contreras aparece
com a idéia da Operação Condor.
Outro documento mostra que Contreras estava na folha de pagamento da CIA –
segundo esta, o dinheiro pago a Contreras foi um “mal-entendido”.
O
próprio Kissinger não poderia ser mais explícito. Em outubro de 1976, ao se
reunir com César Augusto Guzzetti, chanceler da ditadura argentina, no Waldorf
Astoria Hotel, em Nova Iorque, disse, segundo o memorando da reunião,
posteriormente liberado: “Se há coisas que têm de ser feitas, que devem ser
feitas, vocês devem fazê-las rapidamente”. O clima em Washington estava “crazy”,
afirmou, após registrar que o democrata Jimmy Carter seria eleito presidente em
novembro.
Em
suma, diante da iminência de sair do poder, tratava-se de assassinar lideranças
que pudessem ser alternativa de poder às ditaduras que os EUA haviam implantado
na América do Sul.
ATENTADO
Depois do atentado contra o senador chileno Bernardo Leighton (julho de 1975),
em Roma, seguiu-se, no sangrento ano de 1976, o que a escritora argentina Stella
Calloni chamou de “a caravana da morte”: a tentativa de assassinato, na Costa
Rica, de Pascal Allende, sobrinho do presidente Allende e secretário-geral do
Movimiento de Izquierda Revolucionaria (MIR), em março de 1976; o assassinato,
em Buenos Aires, do senador uruguaio Zelmar Michelini e do ex-presidente da
Câmara de Deputados uruguaia, deputado Héctor Gutiérrez Ruiz, em maio de 1976; o
assassinato do presidente boliviano Juan José Torres em junho – também em Buenos
Aires, em junho de 1976; em setembro, a poucas quadras da Casa Branca, o
assassinato a bomba do ex-chanceler chileno Orlando Letelier e sua secretária,
Ronni Moffitt (o marido de Ronni, Michael, saiu gravemente ferido).
Em
conhecida entrevista à TV chilena, o ex-chefe da Dina, Manuel Contreras, relatou
o clima de paúra que constatou ao visitar em agosto de 1975 a sede da CIA em
Langley, na Virgínia. Na visita anterior, em março de 1974, Contreras havia
acertado com Vernon Walters o envio de oito “especialistas”, da CIA e FBI, para
montar a Dina. Antes da criação oficial da Operação Condor, em 1975, o agente
da CIA Townley havia assassinado a bomba o general chileno Carlos Pratts e sua
esposa. Contreras afirmou na entrevista que a ordem para assassinar Pratts, ex-comandante
do exército do Chile, “foi dada pela CIA” e que Townley “nunca foi agente da
Dina, como diz ter sido, porque para isso seria necessário que fosse membro da
Força de Defesa Nacional, e ele não era. Townley era, sim, agente da CIA desde
fevereiro de 1971”. Contreras também apresentou um curioso relato de como foi
colocado em contato com operativos da Operação Gládio, grupo de terroristas
italianos manejados pela CIA, durante os funerais do ditador espanhol Franco, no
hotel em que estava hospedado Nelson Rockefeller.
Outros notórios agentes da CIA tiveram participação nos atentados. Na casa de
Luis Posada Carriles, quando ele foi preso após o atentado contra o avião da
Cubana de Aviación que matou 73 pessoas (também em 1976), foi encontrado um
croqui com o roteiro dos deslocamentos de Letelier. Orlando Bosch disparou
contra Leighton em Roma e participou da montagem do atentado contra Letellier. É
oportuno lembrar o que aconteceu com eles. Bosch recebeu um perdão presidencial
de George Bush e está à solta, nos EUA. Carriles, depois de fugir da cadeia na
Venezuela em 1985, recebeu nova identidade e integrou a equipe de Oliver North,
no Irã-Contras, junto com outro agente da CIA, Félix Rodriguez, o assassino de
Che Guevara. Mais tarde, Carriles foi preso no Panamá em nova tentativa de
assassinar Fidel, acabou liberado e agora está nos EUA. Assassino confesso do
general René Schneider, do general Pratts e de Letellier, Michael Townley fez um
acordo com uma corte dos EUA, recebeu nova identidade, em troca de acusar a Dina
e livrar a cara da CIA, e hoje vive sob proteção do FBI.
COMISSÃO CHURCH
Em
novembro de 1975, a Comissão Church, impulsionada pela repulsa do povo dos EUA
aos crimes cometidos pela CIA, tornou pública a política de assassinatos de
líderes como Lumumba e as tentativas para matar o presidente cubano Fidel
Castro. Diante do escândalo, Gerald Ford promulgou uma lei “proibindo” mandar
assassinar os líderes de outros países. Quem surge para gerir a massa falida da
CIA de Nixon é George Bush, que assume de janeiro de 1976 a janeiro de 1977 a
direção da agência. Exatamente o período mais ensandecido da “caravana da morte”.
Com a CIA “proibida” de cometer seus crimes habituais, o que esta fez foi
recorrer às fachadas. Como a Operação Gládio, no caso da Itália, e uma recém
criada CORU, anti-cubana, e cheia daqueles operativos íntimos de Bush de longa
data.
A
Operação Condor é outra dessas fachadas. Como seria possível um atentado em
plena Washington, às vésperas das cruciais eleições presidenciais, sem as
bênçãos de, pelo menos, o então diretor da CIA, George Bush, e do secretário de
Estado, Henry Kissinger?
CARLOS LOPES
|