Beijoca, um outro homem
ARIOVALDO IZAC *
Quem diria que o farrista, encrenqueiro e sobretudo
goleador Beijoca fosse se tornar um novo homem. Na iminência de completar 54
anos, há pouco tempo trocou a vida desregrada pela igreja evangélica. É
visto com bíblia embaixo do braço, paletó, gravata, e dirige culto como bom
pastor que é. “Encontrei a salvação de Jesus Cristo”, testemunha,
contrastando com os tempos de jogador quando xingava até árbitros. Pois é,
que guinada!
De certo o saudosista está perplexo com a informação,
porque sempre associou Beijoca a confusões em campo e fora dele. O
centroavante, cujo nome de batismo é Jorge Augusto Ferreira Aragão, baiano
de Salvador, era um boêmio aparentemente incorrigível. Adorava a gandaia e
torcia o nariz em casos de repreensões ou conselhos de treinadores e
cartolas.
REGALIAS
Esse baiano tinha lá suas regalias porque dava respostas
em campo. Além do estilo guerreiro sempre aplaudido pelos torcedores, fazia
gols. Foram sete anos no Bahia divididos em três etapas, seis títulos e um
histórico de 106 gols, que o coloca como o décimo primeiro maior artilheiro
do clube de todos os tempos. “Ser Bahia é algo indescritível, maravilhoso”,
costumava dizer.
A rigor, nas décadas de 70 e 80, jogador diferenciado
recebia tratamento privilegiado, mesmo que fosse rebelde. O lema era
“digerir’ o indisciplinado que ajudava a ganhar jogos, e intolerância com o
“carregador de piano”.
Beijoca era um jogador pavio curtíssimo, principalmente
quando o marcador abusava de faltas duras. Avesso a levar desaforo pra casa,
desentendia-se com adversário e ambos eram expulsos.
Esse comportamento se repetiu ao longo da carreira, de
1970 a 1900. Seu último clube foi o Camaçari, na grande Salvador. Passou
pelo São Domingos, Fortaleza, Sport, Flamengo, Catuense (BA), Vitória,
Londrina, Leônico (BA), Sergipe, Mogi Mirim (SP) e Guará (DF).
Beijoca sabia fazer uso das duas pernas para conclusão de
jogadas. Tinha bom domínio de bola mesmo marcado, e se destacava no
cabeceio, quer concluindo o lance, quer ajeitando a bola para companheiros
que apareciam de trás.
TORCIDA
A identificação de Beijoca com torcedores do Bahia pôde
ser constatada mais uma vez em 2004, quando completou 50 anos de idade, no
dia 23 de abril. Na ocasião, durante homenagem, foi aplaudido demoradamente
no Estádio da Fonte Nova e se emocionou. Passagem marcante também foi no
Fortaleza, quando participou do bicampeonato estadual em 1973/74. No
primeiro ano foi reserva na decisão com o Ceará, entrando apenas no
transcorrer da partida, num time que tinha Lulinha, Louro, Pedro Basílio,
Queiroz e Bauer; Chinesinho e Luciano; Hamilton Rocha, Amilton Melo,
Marciano (Beijoca) e Silvinho. Em compensação, no ano seguinte, além do
título, foi artilheiro da competição com 26 gols.
No futebol paulista, teve passagem discreta pelo Mogi Mirim
em 1984, num time formado basicamente por veteranos, com experiência
singular para o volante Zé Carlos: jogador-treinador.
Beijoca fixou residência em Salvador, e ano passado
integrou a comissão técnica do Bahia, projetando degraus mais altos como
treinador. Como bom malandro da bola que foi, tem muito a ensinar aos
garotos sobre a profissão, principalmente os malefícios da vida noturna.
Vai, naturalmente, desaconselhá-los àquilo que é incompatível com o
profissionalismo.
* É jornalista em Campinas e colaborador do HP