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Reflexões de Fidel Castro sobre o encontro com Lula
Os artigos de Fidel foram
publicados no “Granma” após seu recente encontro com o presidente Lula,
realizado na cidade de Havana no dia 15 de janeiro
Em
quatro artigos publicados no “Granma” (dias 24, 25, 26 de janeiro e 1º de
fevereiro), que condensamos nesta página, nosso estimado camarada Fidel Castro
descreve, com comovente entusiasmo, o recente encontro mantido com o presidente
Lula e as perspectivas de aprofundamento da unidade entre os povos de Cuba, do
Brasil e de toda a América Latina.
Observações lúcidas, reflexões profundas e ensinamentos indispensáveis não são
surpresa nos artigos e pronunciamentos de Fidel, e marcam sua viva presença
nesse texto.
Porém, é forçoso reconhecer que certas considerações fundamentalmente injustas
emitidas e transcritas na íntegra, a respeito de nosso também estimado camarada
Stalin, não fazem jus a essa tradição.
O camarada Fidel, homem culto e estudioso, nos perdoe a ousadia, precisa ler e,
mais que isso, estudar as atas dos processos de Moscou. Elas deixam
absolutamente claro que a versão kruchevista dos acontecimentos é uma fantasia
criada para emprestar verniz ideológico às mudanças que, como alertava o Che com
bastante propriedade, foram paulatinamente levando a URSS do retrocesso
revisionista à “desintegração”.
Na página ao lado, publicamos breves reflexões do embaixador americano na URSS
(1936-1938), Joseph Davies, e do fundador da Hora do Povo, Cláudio Campos, sobre
a suposta “desmobilização” provocada pela liquidação da quinta-coluna e a
propalada “surpresa” com que Stalin recebeu o ataque de Hitler.
São divergências pontuais frente à vasta convergência de idéias que nos ligam a
esse verdadeiro titã da luta revolucionária. Mas que não podemos deixar de
considerar.
De
forma espontânea Lula decidiu visitar Cuba pela segunda vez como Presidente do
Brasil, ainda que minha saúde não lhe garantisse um encontro comigo.
Antes, como ele mesmo disse, visitava a Ilha quase todos os
anos. O conheci por ocasião do primeiro aniversário da Revolução Sandinista, na
casa de Sérgio Ramirez, então vice-presidente do país.
Também encontrei-me ali com Frei Beto, hoje crítico, embora
não inimigo de Lula, e com o Padre Ernesto Cardenal, militante sandinista de
esquerda e atual adversário de Daniel. Os dois escritores procediam da Teologia
da Libertação, uma corrente progressista na qual, além de sua filosofia e suas
crenças, sempre vimos um grande passo para a unidade dos revolucionários e dos
pobres, ajustada às condições concretas de luta na América Latina e Caribe.
O que tem a ver o relatado com Lula? Muito. Nunca foi um
extremista de esquerda, nem ascendeu à condição de revolucionário a partir de
posições filosóficas, mas das de um operário de origem muito humilde e fé
cristã, que trabalhou duramente, criando mais-valia para outros. Nos operários,
Karl Marx viu os coveiros do sistema capitalista: “Proletários de todos os
países, uni-vos”, proclamou.
IDÉIAS
Tive o privilégio de chegar à Revolução através das idéias,
fugir do aborrecido destino pelo qual me conduzia a vida.
O ódio a Batista pela sua repressão e os seus crimes era
tão grande, que ninguém reparou nas idéias que expressei na minha defesa perante
o Tribunal de Santiago de Cuba, onde encontraram, inclusive, um livro de Lenin
impresso na URSS ¯ que veio dos créditos que eu desfrutava na livraria do
Partido Socialista Popular de Carlos III , em Havana ¯ nos pertences dos
combatentes. “Quem não lê Lenin é um ignorante”, espetei-lhes no meio do
interrogatório nas primeiras sessões do julgamento, quando o trouxeram à tona
como elemento acusatório.
Não seria bem compreendido o que afirmo se não for levado
em conta que no momento em que atacamos o Moncada, em 26 de Julho de 1953, ação
que foi devida aos esforços organizativos de mais de um ano, sem contar com mais
ninguém do que nós próprios, prevalecia na URSS a política de Stalin, que morreu
repentinamente meses antes. Era um militante honesto e consagrado, que mais
tarde cometeu graves erros que o levaram a posições sumamente conservadoras e
cautelosas. Se uma revolução como a nossa tivesse tido êxito então, a URSS não
teria feito por Cuba o que mais tarde fez a direção soviética, já livre daqueles
métodos obscuros e tortuosos, entusiasmada com a revolução socialista que
estourou no nosso país. Isso o compreendi bem, apesar das justas críticas que,
por fatos muito conhecidos no seu momento, fiz a Khruschev.
A URSS possuía o exército mais poderoso de todos os
beligerantes na Segunda Guerra Mundial, só que estava expurgado e desmobilizado.
Seu chefe subestimou as ameaças e as teorias belicistas de Hitler. Da própria
capital do Japão, um importante e prestigioso agente da inteligência soviética
lhe comunicara da iminência do ataque, em 22 de junho de 1941. Esse ataque
apanhou de surpresa o país, que não estava em alarme de combate. Muitos oficiais
estavam de folga. Mesmo sem os chefes de unidades de maior experiência, que
foram substituídos, no caso de terem sido alertados e acionados os nazistas
teriam chocado com forças poderosas desde o primeiro instante e não teriam
destruído em terra a maior parte da aviação de combate. Ainda pior do que o
expurgo foi a surpresa. Os soldados soviéticos não se rendiam quando lhes
falavam de tanques inimigos na retaguarda, como fizeram os demais exércitos da
Europa capitalista. Nos momentos mais críticos, com frio abaixo de zero grau
Celsius, os patriotas siberianos puseram em marcha os tornos das fábricas de
armamentos que, com antevisão, Stalin tinha deslocado para a profundidade do
território soviético.
Segundo me contaram os próprios dirigentes da URSS quando
visitei esse grande país em abril de 1963, os combatentes revolucionários
russos, curtidos na luta contra a intervenção estrangeira em virtude da qual
foram enviadas tropas para combater a revolução bolchevique, deixando-a
posteriormente bloqueada e isolada, tinham estabelecido relações e trocado
experiências com os oficiais alemães, de tradição militarista prussiana,
humilhados pelo Tratado de Versalhes, que pôs termo à Primeira Guerra Mundial.
Os serviços de inteligência das SS introduziram a intriga
contra muitos que eram na sua maioria esmagadora leais à Revolução. Impulsionado
por uma desconfiança que se tornou doentia, Stalin expurgou 3 dos 5 marechais,
13 dos 15 comandantes de exército, 8 dos 9 almirantes, 50 dos 57 generais de
corpo de exército, 154 dos 186 generais de divisão, cem por cento dos
comissários de exército e 25 dos 28 comissários dos corpos de exército da União
Soviética, nos anos que precederam à Grande Guerra Pátria.
Esses graves erros custaram à URSS uma enorme destruição e
mais de 20 milhões de vidas; há quem diga que 27 milhões.
SOLDADOS SOVIÉTICOS
Em 1943 foi desatada, com atraso, a última ofensiva de
primavera dos nazis pela famosa e tentadora saliência de Kursk, com 900 mil
soldados, 2.700 tanques e 2.000 aviões. Os soviéticos, conhecedores da
psicologia inimiga, esperaram naquela armadilha o seguro ataque com 1 milhão e
200 mil homens, 3.300 tanques, 2.400 aviões e 20.000 peças de artilharia.
Chefiados por Zhukov e pelo próprio Stalin, destroçaram a última ofensiva de
Hitler.
Em 1945, os soldados soviéticos avançaram incontíveis até
tomarem a cúpula da chancelaria alemã em Berlim, onde içaram a bandeira vermelha
tingida com o sangue de tantos que
tombaram.
Observo um momento a gravata vermelha de Lula e pergunto:
Esse foi um presente de Chávez? Ele sorri e responde: Agora vou lhe enviar
algumas camisas, já que ele se queixa de que o colarinho das suas está muito
duro, vou procurar algumas na Bahia para dar de presente a ele.
Lula lembrou-me com carinho a primeira vez que visitou o
nosso país, no ano 1985, para participar de uma reunião convocada por Cuba para
analisar o angustiante problema da dívida externa, onde os representantes das
mais diversas tendências políticas, religiosas, culturais e sociais, preocupados
com o asfixiante drama, expuseram e debateram suas opiniões.
A América Latina devia naquela época US$ 350 bilhões.
Contei-lhe que naquele ano de intensa luta tinha escrito extensas cartas ao
presidente da Argentina, Raúl Alfonsín, para persuadi-lo de que não continuasse
pagando aquela dívida. Conhecia a posição do México, inalterável no pagamento da
sua enorme dívida externa, embora não indiferente ao resultado da batalha, e a
especial situação política do Brasil. A dívida argentina era enorme após os
desastres do governo militar. Justificava-se a tentativa de abrir uma brecha
nessa direção. Não consegui. Poucos anos depois a dívida latino-americana, com
seus juros, era de US$ 800 bilhões; dobrou e já tinha sido paga.
Lula explicou-me a diferença em relação àquele ano. Afirma
que hoje o Brasil não tem dívida alguma com o Fundo Monetário e também não com o
Clube de Paris, e dispõe de US$ 190 bilhões em suas reservas. Deduzi que seu
país tinha pago avultadas somas para cumprir com aquelas instituições.
Expliquei-lhe a colossal fraude de Nixon à economia mundial, quando suspendeu
unilateralmente o padrão ouro em 1971, que colocava limites à emissão de notas.
Os Estados Unidos - disse-lhe - compraram bens no mundo
inteiro imprimindo dólares, e, sobre tais propriedades, adquiridas noutras
nações, exercem prerrogativas soberanas. Porém, ninguém deseja que o dólar se
desvalorize mais, porque quase todos os países acumulam dólares, ou seja,
papéis, que se desvalorizam constantemente desde a decisão unilateral do
presidente dos Estados Unidos.
Logo depois falei a Lula sobre a política aventureira de
Bush no Oriente Médio.
GRANMA
Prometi entregar-lhe o artigo que seria publicado no Granma
no dia seguinte, 16 de janeiro. Assinaria de meu próprio punho o que destinava a
ele. Igualmente lhe entregaria, antes de ir embora, o artigo de Paul Kennedy, um
dos intelectuais mais influentes dos Estados Unidos, sobre a interligação entre
os preços dos alimentos e o petróleo.
Você é produtor de alimentos, acrescentei, e além disso
acaba de encontrar importantes reservas de petróleo leve. O Brasil possui
8.534.000 quilômetros quadrados e dispõe de 30% das reservas de água do mundo. A
população do planeta precisa cada vez mais de alimentos, dos quais vocês são
grandes exportadores.
Em Cuba, continuei explicando, tivemos uma vaca que bateu
recorde mundial de leite, um cruzamento de Holstein com Zebu. De imediato Lula a
mencionou: “Úbere Branco!”, exclamou. Lembrava seu nome. Acrescentei-lhe que
chegou a produzir 110 litros de leite diários. Era como uma fábrica, mas era
preciso dar-lhe mais de 40 quilogramas de ração, o máximo que podia mastigar e
engolir em 24 horas; uma mistura onde a farinha de soja, uma leguminosa muito
difícil de produzir no solo e no clima de Cuba, é o componente fundamental.
Vocês têm agora as duas coisas: fornecimento seguro de combustível, matérias
primas alimentícias e alimentos elaborados.
Lula me contou, em relação ao tema, que os produtores
brasileiros já estão vendendo a safra de milho de 2009. O Brasil não é tão
dependente do milho como o México ou a América Central. Julgo que nos Estados
Unidos a produção de combustível não se sustenta com base no milho. Isso
confirma, afirmei, uma realidade em relação à elevação impetuosa e incontrolável
dos preços dos alimentos, que afetará muitos povos.
Você, no entanto, disse-lhe, conta com um clima favorável e
uma terra solta; a nossa frequentemente é argilosa e, às vezes, é dura como o
cimento. Quando vieram os tratores soviéticos e de outros países socialistas,
quebravam. Foi preciso comprar aços especiais na Europa para fabricá-los aqui.
BRASIL
No curto tempo que estive com Lula, duas horas e meia,
gostaria de ter sintetizado em poucos minutos os quase 28 anos decorridos, não
desde que ele visitou pela primeira vez Cuba, mas desde que o conheci na
Nicarágua.
Quando está diante de mim, sorridente e amistoso, e o
escuto falar com orgulho de seu país, das coisas que está fazendo e se propõe a
fazer, penso em seu instinto político. Eu acabava de revisar velozmente um
relatório de cem páginas sobre o Brasil e o desenvolvimento das relações entre
os nossos dois países. Era o homem que conheci na capital sandinista, Manágua, e
que tanto se vinculou com a nossa Revolução.
Apenas se iniciava minha conversa com Lula, e ainda tenho
muitas coisas que contar e idéias que expor, talvez de alguma utilidade.
Quando aconteceu a desintegração da União Soviética, que
foi para nós como se o sol deixasse de sair, a Revolução Cubana recebeu um golpe
demolidor. Não só significou a suspensão dos fornecimentos de combustível,
materiais e alimentos; perdemos os mercados e preços atingidos pelos nossos
produtos no duro trabalho da luta pela soberania, pela integração e pelos
princípios. O império e os traidores, cheios de ódio, afiavam os punhais com os
quais pensavam matar os revolucionários e recuperar as riquezas do país.
O Produto Interno Bruto começou a cair progressivamente até
35%. Que país teria resistido a um golpe tão duro? Não defendíamos nossas vidas;
defendíamos nossos direitos.
Muitos partidos e organizações de esquerda se desanimaram
perante o colapso na URSS, após seu titânico esforço para construir o socialismo
durante mais de 70 anos.
Falei a Lula do Che, fazendo-lhe um resumo de sua história.
Ele discutia com Carlos Rafael Rodríguez sobre o sistema de autofinanciamento ou
o método orçamentário, aos quais não dávamos muita importância, ocupados então
na luta contra o bloqueio norte-americano, nos planos de agressão e na Crise dos
Mísseis de outubro de 1962, um problema real de sobrevivência.
O Che estudou os orçamentos das grandes companhias ianques,
cujos funcionários administrativos viviam em Cuba, embora não seus
proprietários. Extraiu uma idéia clara do agir imperialista e do que acontecia
na nossa sociedade, que enriqueceu suas concepções marxistas e o levou à
conclusão de que em Cuba não se podiam usar os mesmos métodos para construir o
socialismo. Mas não se tratava de uma guerra de insultos; eram trocas honestas
de opiniões, que eram publicadas numa pequena revista, sem intenção alguma de
criar cismas ou divisões entre nós.
Aquilo que aconteceu depois na URSS não teria surpreendido
o Che.
BLOQUEIO
Aprofundando os argumentos econômicos, expliquei a Lula que
quando a Revolução triunfou, em 1959, os Estados Unidos pagavam, ao preço
preferencial de onze centavos o quilo, uma parte importante de nossa produção
canavieira, que ao longo de quase um século era enviada ao mercado tradicional
desse país, que sempre foi abastecido nos momentos críticos por um fornecedor
seguro muito próximo das suas costas. Quando da proclamação da Lei de Reforma
Agrária, Eisenhower decidiu o que deviam fazer. Nossa cota açucareira foi
suprimida em dezembro de 1960, e mais tarde redistribuída entre outros
produtores desta e de outras regiões do mundo, como castigo. Nosso país ficou
bloqueado e isolado.
O pior foi a falta de escrúpulos e os métodos mostrados
pelo império. Introduziram vírus no país e liquidaram as melhores canas;
atacaram o café, atacaram a batata, atacaram também os suínos. A Barbados 4362
era uma de nossas melhores variedades de cana: amadurecimento precoce,
rendimento em açúcar que, às vezes, atingia 13% ou 14%; seu peso por hectare
podia ultrapassar 200 toneladas em cana de 15 meses. Os ianques acabaram com as
melhores, utilizando pragas. Mais grave ainda: introduziram o vírus do dengue
hemorrágico, que atingiu 344 mil pessoas e matou 101 crianças. Se eles
empregaram outros vírus, não sabemos - ou não o fizeram por temor à proximidade
de Cuba.
Quando por essas causas não podíamos cumprir os envios de
açúcar acertados com a URSS, esta nunca deixou de enviar-nos as mercadorias que
havíamos acertado. Lembro que negociei com os soviéticos cada centavo do preço
do açúcar; descobri na prática o que apenas conhecia em teoria: o intercâmbio
desigual. Eles garantiam um preço acima do mercado mundial. Os acordos eram por
cinco anos; se no começo do qüinqüênio a gente enviava xis toneladas de açúcar
para pagar as mercadorias, no fim do mesmo o valor de seus produtos ao preço
internacional era 20% mais alto.
Lula perguntou-me qual era o poder aquisitivo de cinco
centavos; expliquei-lhe que com uma tonelada de açúcar se compravam naquele
tempo sete toneladas de petróleo; hoje, ao preço do petróleo leve de referência,
US$100, pode comprar-se apenas um barril. O açúcar que exportamos, aos preços
atuais, apenas daria para adquirir o combustível importado que se consome em 20
dias. Seria necessário gastar ao redor de US$ 4 bilhões por ano para adquiri-lo.
Os Estados Unidos subsidiam sua agricultura com dezenas de
bilhões a cada ano. Por que não deixam entrar livremente nos Estados Unidos o
etanol que vocês produzem?
Lula analisa dados das produções agrícolas do Brasil que
são de grande interesse. Diz-me que tem um estudo realizado pela imprensa
brasileira que mostra que, até 2015, a produção mundial de soja crescerá 2% em
cada ano; isto é, significa que será necessário produzir 189 milhões de
toneladas de soja a mais que a produção atual. A produção de soja do Brasil
teria que crescer a um ritmo de 7% anual para poder atender às necessidades
mundiais.
Qual o problema? Muitos países não mais têm terras para
cultivar. A Índia, por exemplo, não tem mais terra livre; a China tem muito
pouca terra disponível para isso e os Estados Unidos também não as possuem para
produções adicionais de soja.
EMBRAPA
Acrescentei à sua exposição que aquilo que muitos países
latino-americanos têm são milhões de cidadãos com salários baixíssimos
produzindo café, cacau, vegetais, frutas, matérias-primas e mercadorias a baixo
preço para prover a sociedade dos Estados Unidos, que já não poupa e consome
mais do que produz.
Lula explica que abriram em Gana um escritório de pesquisa
da EMBRAPA ¯ a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária — e aponta que em
fevereiro vão inaugurar também um escritório em Caracas.
Falei a Lula da Batalha de Idéias que estávamos levando a
cabo. Novas notícias, que chegam constantemente, evidenciam a necessidade dessa
luta constante. Os piores meios de comunicação dos inimigos ideológicos se
dedicam a divulgar pelo mundo as opiniões de certos “gusanos”
(contra-revolucionários) que no nosso heróico e generoso país nem sequer desejam
escutar a palavra socialismo.
Trata-se do apelo vulgar do capitalismo imperial ao egoísmo
individual, pregado há quase 240 anos por Adam Smith como a causa das riquezas
das nações; ou seja, colocar tudo nas mãos do mercado. Isso criaria riquezas
abundantes num mundo idílico.
Penso na África e em seu quase bilhão de habitantes,
vítimas dos princípios dessa economia. As doenças, que se alastram a toda
velocidade, propagam-se ao ritmo da Aids e outras velhas e novas doenças atingem
a população e suas plantações, sem receber, de nenhuma das antigas potências
coloniais, médicos e cientistas.
Quando falei com ele a respeito da Venezuela, disse-me: Nós
pensamos cooperar com o presidente Chávez. Combinei com ele: cada ano irei duas
vezes a Caracas e ele viajará duas vezes ao Brasil para não permitir
divergências entre nós, e, se as houver, conseguir resolvê-las no momento. A
Venezuela não precisa de dinheiro, porque tem muitos recursos, mas precisa de
tempo e infra-estrutura.
Expressei-lhe que me alegrava muito a sua posição com
relação a esse país, porque estávamos agradecidos a esse povo-irmão pelos
acordos assinados que nos garantiram um fornecimento normal de combustível.
Não posso esquecer que, quando do golpe de Estado de abril
de 2002, a palavra de ordem dos que assaltaram o poder, em relação ao nosso
país, foi: “nem um pingo mais de petróleo para Cuba”.
Expliquei-lhe que Cuba mantinha relações de amizade com
todos os países da América Latina e do Caribe, sejam de esquerda ou de direita.
Há muito traçamos essa linha e não a mudaremos; estamos dispostos a apoiar
qualquer ação em favor da paz entre os povos. É um terreno espinhoso e difícil,
mas continuaremos perseverando nele.
AMÉRICA
LATINA
Lula expressou de novo seu respeito e carinho profundos por
Cuba e seus dirigentes. Acrescentou logo que sentia orgulho do que estava
acontecendo na América Latina, e mais uma vez afirmou que aqui, em Havana,
decidimos criar o Forum de São Paulo e unir toda a esquerda da América Latina, e
essa esquerda está chegando ao poder em quase todos os países.
Nesta ocasião, lembrei-lhe o que nos ensinou Martí sobre as
glórias deste mundo, que cabem todas num grão de milho. Lula acrescentou:
Digo-lhes a todos que, nas conversações que tive consigo, jamais deu conselho
algum que pudesse entrar em confronto com a legalidade; sempre me pediu que não
ganhasse muitos inimigos ao mesmo tempo. E isso é o que está permitindo que as
coisas marchem.
Quase de imediato manifestou que o Brasil, um país grande e
com recursos, tem que ajudar o Equador, a Bolívia, o Uruguai, o Paraguai.
Agora estivemos na América Central. Nunca um presidente
brasileiro tinha visitado um país nessa região com projetos de cooperação.
A relação comercial do Brasil com a América Latina é maior
do que com os Estados Unidos da América, disse-me.
Falei-lhe de diversas regiões, incluindo o Caribe, e das
formas de cooperação que tínhamos desenvolvido com eles.
Falei-lhe, como é lógico, da mudança climática e a pouca
atenção que prestam ao tema grande número de dirigentes dos países
industrializados do mundo.
Quando falei com ele, na tarde de 15 de Janeiro, não pude
mencionar-lhe o artigo que foi publicado só três dias depois, escrito por
Stephen Leahy, em Toronto. Este nos transmite notícias do novo livro, intitulado
Mobilizar-se para salvar a civilização, de Lester Brown.
Quase no final, disse-me: “Está convidado para ir ao Brasil
neste ano”. Obrigado, respondi-lhe, pelo menos em pensamento estarei lá.
Por último, disse-me: Vou contar aos companheiros e amigos
que tem no Brasil que você está muito bem.
Caminhamos juntos até a saída. O encontro valeu a pena
realmente.
CONDENSADO DE TEXTOS DE FIDEL
CASTRO
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