1.
Passando por Chicago, a caminho de casa, no início de junho, fui
convidado pela minha antiga universidade para falar no Clube
Universitário, em acordo com as sociedades de Wisconsin. Fazia três dias
que Hitler invadira a Rússia. Alguém na reunião perguntou: “E sobre a
quinta-coluna na Rússia?”. Respondi prontamente: “Não existe, seus
membros foram todos fuzilados”.
2.
É alguma coisa extraordinária, quando se começa
a pensar sobre isso, que, nessa última invasão nazista, nenhuma palavra
tenha aparecido, por trás das linhas russas, sobre o “trabalho interno”. Não
houve e não se produziu na Rússia a tão esperada “agressão interna” em
colaboração com o Alto Comando Germânico. A marcha de Hitler sobre Praga, em
1939, foi acompanhada pelo apoio militar ativo por parte das organizações de
Heinlein na Tchecoslováquia. Da mesma maneira foi invadida a Noruega. Na
vida interna da Rússia não houve Heinleins sudetos, Tisos eslovacos, nem
Degrelles belgas, nem Quislings noruegueses.
3.
Foi em 1936 que Hitler pronunciou em Nuremberg seu famoso discurso sobre
suas intenções em relação à Ucrânia. O governo soviético, vê-se agora, já
estava, então, sutilmente atento em relação aos planos dos principais
militares alemães e de seus chefes políticos, assim como ao “trabalho
interno” que vinha se desenvolvendo na Rússia, como preparativo para o
futuro ataque germânico.
4. Os acontecimentos tinham sido revelados
na tão falada traição ou processos de expurgo de 1937 e 1938, que eu assisti
e ouvi. Praticamente todos os estratagemas agora conhecidos da atividade da
quinta-coluna alemã foram descobertos e postos a nu pelas confissões e
depoimentos extraídos desses processos - pela própria confissão dos que se
propunham a ser os “Quislings” russos.
5.
Assisti diariamente às sessões do julgamento de Bukharin, por traição. É
terrível. Descobrem-se as linhas gerais de um complô que esteve muito perto
do êxito, no seu objetivo de provocar a queda do governo. A extraordinária
declaração de Krestinsky, Bukharin e dos demais pareciam indicar que os
temores do Kremlin eram justificados, por foi agora confirmada a existência
de uma conspiração em princípios de novembro de 1936, para dar um golpe de
Estado, com Tukhachevsky à frente, em maio do ano seguinte. Porém o governo
agiu com grande vigor e rapidez. Os generais do Exército Vermelho foram
fuzilados e toda a organização “expurgada” e completamente depurada.
6.
A informação revelada por esses julgamentos descobriu a existência de
atividades subversivas da quinta-coluna na Rússia, sob a forma de uma
conspiração em conivência com os governos do Japão e da Alemanha, de grande
extensão. Foi descoberto que vários dignatários de alta posição estavam
seriamente infectados pelo vírus da conspiração para derrubar o governo, e
trabalhavam com os serviços secretos da Alemanha e do Japão.
7.
Os depoimentos desses casos implicaram e inculparam o general Tukhachevsky e
muitos altos chefes do exército e da marinha. Sob as ordens de Tukhachevsky,
essas pessoas estavam encarregadas de entrar em entendimento com o Alto
Comando Alemão para colaborar no ataque contra o Estado Soviético. Numerosas
atividades subversivas contra o exército foram reveladas pelos depoimentos.
Muitos dos mais altos oficiais do exército foram influenciados ou
aconselhados a entrar na conspiração. Conforme os depoimentos, uma total
colaboração se estabelecera entre cada ramo do serviço, o grupo
revolucionário político, o grupo militar e os Altos Comandos da Alemanha e
do Japão.
8.
Tais foram as informações trazidas a esse processo, como realmente
ocorreram. Não havia dúvida que as autoridades do Kremlin estavam
grandemente alarmadas com essas revelações e confissões dos acusados. A
rapidez da ação do governo indica que seus membros acreditavam na sua
evidência. Agiram para limpar a casa e o fizeram com a maior energia e
precisão. Voroschilov, comandante em chefe do Exército Vermelho, disse: “É
mais fácil para um ladrão assaltar uma casa se tiver cúmplices lá dentro.
Nós nos encarregamos desses cúmplices”.
9.
Todos esses processos, expurgos e liquidações, que pareceram tão violentos
noutro tempo e escandalizaram o mundo, são agora perfeitamente
compreensíveis como parte de um vigoroso e determinado esforço do governo de
Stalin para proteger-se não só da revolução interna, como também do ataque
externo. Eles se dedicaram inteiramente à tarefa de limpar a nação de todos
os elementos desleais, fossem internos ou externos. Todas as dúvidas foram
resolvidas favoravelmente ao governo.
10.
Não havia quinta-coluna na Rússia em 1941. Eles tinham sido todos fuzilados.
O expurgo que limpou o país, livrou-o da traição.
Trechos extraídos do artigo “O papel chave de Stalin na
vitória da Humanidade sobre o nazismo”, de Cláudio Campos, secretário geral
do MR8, publicado na Hora do Povo, 25 de junho de 1991
1.
Em entrevista para a “Folha de S.Paulo”, publicada no último sábado,
Valentin Bereshcov ex-secretário da embaixada soviética em Berlim antes da
guerra, e atualmente seguidor do bufão Boris Yeltzin, insiste na velha
ladainha de que Stalin não acreditava que a Alemanha invadisse a URSS, não a
havia preparado para a guerra, “foi pego de surpresa”...
2.
Como já dissemos, a inevitabilidade de um acerto de contas com o
imperialismo estava limpidamente clara para Stalin desde o início da década
de 30, e, na verdade, antes disso. Por isso mesmo, ele se empenhou em
imprimir ao desenvolvimento industrial da URSS o ritmo necessário à sua
defesa, o que foi feito, diga-se de passagem, garantindo ao povo soviético a
mais formidável melhoria das condições de vida de que se tem notícia na
História da Humanidade. Nos primeiros anos dessa década, o empenho central
foi na rápida construção de uma poderosa indústria pesada, indispensável à
produção militar. Uma vez construída essa base, a produção de armamentos se
acelerou vertiginosamente à medida que a guerra se aproximava. Enquanto a
média anual da indústria de aviação, em 1930-31, era de 860 aviões, em
1935-37 ela se elevou a 3.578, e, de 1939 a julho de 1941, tempo ganho com o
Tratado de Não-Agressão assinado com a Alemanha, foram construídos 17.745
(!) aviões de combate. De 1932 a 1937, a fundição de laminados de alta
qualidade e especiais, indispensáveis à indústria bélica, aumentou de 24
vezes - 5.900 para 140.000 toneladas. No período ganho com o Tratado de
Não-Agressão, a preparação militar se intensificou de maneira febril. O
orçamento militar, que era de 17.500 milhões de rublos, em 1937, passou para
56.900 milhões em 1940. Praticamente todos os armamentos mais modernos, que
surpreenderam os alemães no campo de batalha, superiores aos deles e, em
geral, a quaisquer outros, tiveram seu projeto concluído e a produção
iniciada nesse período...
3.
Por outro lado, é sabido que a negociação que reincorporou à URSS a parte
ocidental da Ucrânia, então em poder da Polônia, a ocupação de parte da
Finlândia, devolvida depois da guerra, e a integração das repúblicas
bálticas à União Soviética, por decisão soberana e imperativo de
sobrevivência desses países, visou exatamente, da parte dos soviéticos,
afastar para Oeste e garantir as suas fronteiras contra os alemães, em
especial a estratégica base naval de Leningrado até então inteiramente
exposta à artilharia nazista.
4.
No final de 1940, a guerra de Hitler contra a Inglaterra se complicou. A
resistência inglesa foi maior do que ele esperava. Era nítido que ele
hesitava entre insistir nessa ofensiva e interrompê-la e atacar noutra
direção, agora contra a URSS. Foi o período mais delicado do jogo político
na guerra. Os ingleses, evidentemente, estavam interessados no surgimento de
conflitos na fronteira soviético-alemã, e bombardeavam a URSS com sucessivas
“informações” sobre a iminente invasão nazista. Stalin, por seu lado, dentro
do que era possível, tinha que evitar tomar qualquer atitude que
precipitasse a decisão de Hitler... Ele não podia e não devia dar mostras de
intranqüilidade em relação às intenções dos alemães, facilitar a tomada de
decisão destes, e, além disso, ampliar o já enorme espaço político
internacional que desfrutavam, permitindo-lhes alegar que haviam sido
atacados, ou que estavam na iminência de o serem. Se Valentin Bereshcov e a
imprensa burguesa até hoje não entenderam o correto jogo político de Stalin,
Hitler não demorou assim tanto tempo para percebê-lo.
5.
Em relação aos informes que davam conta de um possível ataque naquele dia, o
comando soviético tomou exatamente as medidas que devia tomar: uma circular
alertou as tropas em toda a linha de fronteira sobre essa possibilidade, ao
mesmo tempo que recomendava também atenção para evitar confundir uma não
descartável ação de provocação com um ataque em massa efetivamente decidido
pelo alto comando alemão. É significativo que Bereshcov ao mesmo tempo que
se entrega às suas disparatadas elocubrações sobre a falta de informações
seguras a respeito do momento da invasão, reconheça que ele e todo o corpo
diplomático soviético em Berlim, apesar de servirem na toca do lobo e terem
enviados dados a respeito do dia do ataque, também não estavam seguros sobre
esses dados, porque, como explicou, várias outras datas, desde abril, haviam
sido colhidas e enviadas a Moscou, sem que tivessem se confirmado.
6.
Confirmada a invasão, Stalin não perdeu tempo em espernear e se concentrou
no comando da resistência. A esse respeito, o Marechal Zhukov forneceu um
significativo testemunho, em carta assinada de março de 1964, publicada no
semanário Novidades de Moscou, em maio de 1988. Respondendo a perguntas
formuladas por diversos escritores, que pelo visto não se interessaram em
divulgar na época as respostas obtidas, Zhukov lembra que nas primeiras duas
semanas após a invasão Stalin assumiu todo o comando de fato das operações
de defesa, embora o comandante em chefe, do ponto de vista formal, fosse o
General Timoshenko. Zhukov notou que isso gerava uma perigosa e tensa
superposição de atribuições, e, no dia 9 de julho, falou com vários membros
do Burô Político que era necessário superar essa contradição, fazendo com
que Stalin fosse não só o comandante de fato, mas também o “comandante de
jure”. No dia 10 de julho, “nos chamaram ao Comitê Estatal de Defesa e nos
informaram da decisão de criar o Quartel General do Comandante em Chefe,
sendo designado Stalin para o cargo de “Comandante em Chefe”. Caso ainda
houvesse necessidade de um desmentido claro como este, tal testemunho de
Zhukov enterrou de vez a capciosa versão posta a circular por Kruschev
durante o seu relatório dito secreto ao XX Congresso do PCUS, quando dera a
entender que a investidura promovida pelo Burô Político se dera porque
Stalin estava abatido e inoperante, e ele, o grande e intimorato Kruschev,
lá havia ido chamar o chefe às falas e ao dever... Evidentemente, a
contra-revolução mundial não pensou duas vezes, aliás, nem uma só, antes de
encampar e dar ampla difusão à versão de Kruschev.