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65 anos da vitória soviética que decidiu a 2º Guerra
No final da tarde do
dia 23 de agosto de 1942, mil aviões nazistas começaram a lançar toneladas de
bombas incendiárias sobre a população de Stalingrado. Esta cidade, onde na época
residiam 600 mil homens, mulheres e crianças, e onde haviam muitas construções
de madeira e depósitos de combustíveis, se transformou em poucos minutos numa
gigantesca fogueira. “Stalingrado foi imersa nos clarões do incêndio, rodeada de
fumaça e fuligem. Toda a cidade ardia. Enormes nuvens de fumaça e de fogo
turbilhonavam acima das usinas. Os reservatórios de petróleo pareciam vulcões
vomitando suas lavas. O coração apertava de compaixão pelas vítimas inocentes do
canibalismo fascista”, informava o general Eremenko, comandante da frente de
Stalingrado.
Um terror genocida e
sem precedentes era a arma de Hitler com o objetivo de dobrar a moral soviética
e se apoderar dos imensos recursos naturais da Pátria socialista. “Sem possuir
recursos vitais importantes, a Alemanha nazista não poderá sustentar uma guerra
muito prolongada”, advertia José Stalin na primavera de 41, conclamando o povo a
acelerar os esforços de guerra visando fazer frente ao inimigo e prevendo a
proximidade da agressão a seu país.
Quase dois anos
depois, sob o comando firme e decisivo de Stalin, essa mesma cidade, brutalmente
agredida, e esse mesmo povo, vítima da insana covardia nazista, escreveria a
sangue, ferro e fogo uma das mais belas páginas de heroísmo da História, dando
ao mundo a primeira grande vitória contra a besta-fera nazista no dia 2 de
fevereiro de 1943.
Stalingrado foi o
principal marco da Segunda Guerra Mundial, abrindo as portas para a libertação
dos países ocupados e vilipendiados - como a França, Espanha, Holanda, Noruega,
Grécia, entre outros - como tão bem resgata Pablo Neruda em seu “Novo Canto de
Amor a Stalingrado”, que abaixo publicamos numa homenagem à Batalha que decidiu
o futuro de Hitler e da Humanidade.
Novo Canto de Amor a Stalingrado
PABLO
NERUDA
Escrevi sobre a água e sobre o
tempo,
descrevi o luto e seu metal
acobreado,
escrevi sobre o céu e a maçã,
agora escrevo sobre Stalingrado.
As noivas já guardam no seu
lenço
raios de meu amor enamorado,
meu coração agora está no solo,
na fumaça e na luz de Stalingrado.
Já toquei com as mãos a
camisa
do crepúsculo azul e derrotado:
agora toco a própria luz da vida
nascendo com o sol de Stalingrado.
Sinto que o velho-jovem
transitório
de pluma, como os cisnes adornado,
despe a roupagem de seu mal
notório
por meu grito de amor a
Stalingrado.
Ponho minh`alma onde quero.
E não me nutro de papel cansado
temperado de tinta e de tinteiro.
Nasci para cantar a Stalingrado.
Minha voz esteve com teus
inúmeros mortos
contra teus próprios muros
esmagados,
minha voz soou como o sino e o
vento
vendo-te morrer, Stalingrado.
Agora americanos
combatentes
brancos e escuros como a romã,
matam no deserto a serpente.
Já não estás a sós, Stalingrado.
França volta às velhas
barricadas
com pavilhão de fúria hasteado
sobre as lágrimas recém
derramadas.
Já não estás a sós, Stalingrado.
E os grandes leões da
Inglaterra
voando sobre o mar de furacões
cravam as garras na parda terra.
Já não estás a sós, Stalingrado.
Hoje abaixo de suas
montanhas de escarmento
não estão apenas os teus
enterrados:
tremendo está a carne de teus
mortos
que tocaram tua frente,
Stalingrado.
Teu aço azul de orgulho
construído,
seu cabelo de planetas coroados,
teu baluarte de pães divididos,
tua fronteira sombria, Stalingrado.
Tua Pátria de louros e
martírios,
o sangue no teu esplendor nevado,
o olhar de Stalin sobre a neve
tingida com teu sangue,
Stalingrado.
As condecorações que teus
mortos
colocaram sobre o peito
transpassado
da terra, o estremecimento
da morte e da vida, Stalingrado.
O sal profundo que de novo
traz
ao coração do homem estremecido
com a rama de vermelhos capitães
saídos de teu sangue, Stalingrado.
A esperança que se rompe em
seus jardins
como a flor da árvore esperada,
a página gravada de fuzis,
as letras de sua luz, Stalingrado.
A torre que concebes nas
alturas,
os altares de pedra ensanguentados,
os defensores de tua idade madura,
os filhos de tua pele, Stalingrado.
As águias ardentes de tuas
pedras,
os metais por tua alma
amamentados,
os adeus de lágrimas imensas
e as ondas de amor, Stalingrado.
Os ossos dos assassinos
feridos,
os invasores de pálpebras fechadas
e os conquistadores fugitivos
atrás de sua centelha, Stalingrado.
Os que humilharam a curva do Arco
e as águas do Sena transpuseram
com o consentimento do escravo,
se detiveram em Stalingrado.
Os que a bela Praga sobre
lágrimas,
sobre o emudecido e o traído,
passaram pisoteando suas feridas,
morreram em Stalingrado.
Os que na gruta grega
esculpiram
a estalactite de cristal quebrado
em seu clássico azul escasso,
agora onde estão, Stalingrado?
Os que a Espanha incediaram
e dividiram
deixando o coração encarcerado
dessa mãe de ensinos e guerreiros,
se puseram a seus pés, Stalingrado.
Os que na Holanda, água e
tulipas
salpicaram no lodo ensanguentado
e derramaram o açoite e a espada,
agora dormem em Stalingrado.
Os que na branca noite da
Noruega
Um uivo de chacal soltaram
incendiando esta gelada primavera,
emudeceram em Stalingrado.
Horror a ti pelo que o ar
traz,
o que se há de cantar e o cantado,
horror por tuas mães e teus filhos
e teus netos, Stalingrado.
Horror ao combatente da névoa,
horror ao comissário e ao soldado,
horror ao céu por traz da tua lua,
horror ao sol de Stalingrado.
Guarda-me um pedaço de
violenta espuma,
guarda-me um rifle, guarda-me um
arado,
e que o coloquem em minha
sepultura
com uma espiga vermelha de teu
estado,
para que saibam, se há alguma
dúvida,
que morri amando-te e que me tens
amado,
e se não estive combatendo em tua
cintura
deixo em tua honra esta granada
escura,
este canto de amor a Stalingrado. |