Ação popular
barra o leilão da Cesp e exige audiência pública
Por decisão
da Justiça, edital de privatização da estatal só poderá ser publicado após
audiência pública em Anaurilândia (MS)
A juíza titular da comarca de Anaurilândia (MS), Margarida Elisabeth Weiller,
concedeu liminar suspendendo a publicação do edital de privatização da Companhia
Energética do Estado de São Paulo (Cesp), prevista para o dia 8. A ação judicial
foi impetrada pelo prefeito da cidade, Eduardo de Lima Ricardo (PMDB-MS). Pela
decisão da juíza, o edital só pode ser publicado após a promoção de audiência
pública em Anaurilândia, situada na divisa com São Paulo, sobre a entrega da 3ª
maior geradora de energia elétrica do país.
O cronograma estabelecido pelos tucanos previa a realização de apenas uma
audiência “pública” em 15 de janeiro na Bolsa de Valores de São Paulo (Bovespa),
publicação do edital em 8 de fevereiro e entrega a partir de 20 de fevereiro.
Atualmente, o Estado de São Paulo detém 95,31% das ações com direito a voto, que
representam 33,37% do capital total.
A disposição do governo Serra em retomar a entrega do patrimônio público,
iniciada em São Paulo com a implantação do Plano Estadual de Desestatização (PED)
em 1996, foi anunciada em abril do ano passado com a determinação para que
fossem avaliadas as 18 empresas estatais paulistas que os tucanos não
conseguiram privatizar. Posteriormente, para a avaliação foi contratado o banco
Fator e para a modelagem de venda, o Citibank.
A entrega da Cesp foi sacramentada no dia 21 de dezembro pelo Conselho Diretor,
comandado pelo governo Serra, do Programa Estadual de Desestatização. Em janeiro
deste ano, o vereador Arnaldo Pedroso Coelho (PT), da cidade de Pereira Barreto
(SP), obteve uma liminar que suspendia a publicação do edital de leilão da Cesp.
A liminar foi suspensa, na semana passada, por decisão do presidente do Tribunal
de Justiça do Estado de São Paulo, Roberto Antonio Vallim Bellocchi. Contudo,
Coelho disse que está estudando outras medidas para reverter a suspensão da
liminar concedida pela juíza da 2ª Vara da Justiça Federal de Pereira Barreto,
Renata Carolina Nicodemos Andrade, que havia determinado um prazo de 30 dias
para a Cesp realizar audiência pública na cidade sobre o leilão.
PROTESTOS
Na única audiência realizada, em São Paulo, a Cesp informou que possui um ativo
de US$ 10,8 bilhões, passivo de US$ 5,2 bilhões e capacidade instalada de 7.456
MW, distribuída em seis hidrelétricas: Ilha Solteira, Três Irmãos, Jupiá, Porto
Primavera, Jaguari e Paraibuna. “A energia elétrica, que é um serviço essencial
à sociedade e ao crescimento da economia, deve ser tratada com muita atenção.
Não devemos permitir que caia em mãos de quem não terá compromisso com a
população de oferecer um serviço com qualidade”, afirmou o presidente do
Sindicato dos Eletricitários de São Paulo e vice-presidente da União Geral dos
Trabalhadores (UGT), Antonio Carlos dos Reis Salim, durante um protesto na
audiência pública. “Para mantermos os direitos dos trabalhadores e a qualidade
dos serviços prestados à sociedade, realizaremos manifestações contra a
privatização da empresa”, disse.
Em 1998 a Cesp foi cindida em cinco: Elektro, Cesp Tietê, Cesp Paranapanema,
CTEEP e Cesp. A Cesp Paranapanema foi privatizada em julho de 1999, passando o
seu controle para a norte-americana Duke Energy. Em julho de 1998 a Elektro foi
vendida para a estadunidense Enron e em outubro de 1999 a Cesp Tietê, para a
também norte-americana AES. Em junho de 2006 chegou a vez da CTEEP, que foi
repassada para a colombiana Interconexión Eléctrica S/A (ISA).
Para atrair os chamados “investidores” para os leilões de privatização das
quatro empresas, todas as dívidas ficaram com a Cesp. Os tucanos até que
tentaram, mas não conseguiram também privatizá-la por dois fatores. Em 2000, o
Ibama impediu o enchimento do lago de Porto Primavera e em 2001, além do
racionamento de energia, o leilão foi impedido por várias ações de sindicatos e
partidos políticos.
Para “sanear” a empresa e viabilizar o leilão da Cesp, foi efetivado um programa
de reestruturação que envolveu um volume de R$ 6,3 bilhões: R$ 3,2 bilhões
referentes a aumento de capital; R$ 1,2 bilhão, operações de bônus; e R$ 1,9
bilhão, renovação do Fundo de Investimentos em Direitos Creditórios (Fidc).
PAULIPETRO
Além de concentrar todas as dívidas após a cisão, a Cesp também ficou com uma
dívida que pode chegar até R$ 4 bilhões decorrente do caso Paulipetro. Uma Ação
Popular movida por Walter do Amaral - cujo advogado responsável é João Cunha,
ex-deputado federal constituinte pelo PMDB – pedindo a nulidade dos contratos da
Paulipetro e a punição dos réus foi aceita pelo Supremo Tribunal Federal (STF),
no início de dezembro, não cabendo mais recurso. Os réus são Cesp, Instituto de
Pesquisas Tecnológicas (IPT), Petrobrás, Paulo Maluf (na época, o governador) e
mais dois ex-secretários de estado. A execução da dívida deve começar ainda este
mês. “O problema é o seguinte: a Cesp pode ser privatizada, agora quem comprar a
Cesp na situação atual, sem que haja uma estruturação legal, quem comprar a Cesp
assim, vai assumir o pagamento solidário desses bilhões”, disse Cunha.
VALDO ALBUQUERQUE
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