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As tapiocas são ameaças à República, clamam os fariseus
CPI no Congresso
vai ter muito trabalho para investigar essa grave anomalia
Amigos leitores, temos assistido nos últimos
dias a uma pororoca de altas manifestações de espírito público em torno da
momentosa questão dos cartões corporativos do governo.
Uma certa revista que vive há décadas às custas
do dinheiro público dos americanos, saiu logo falando na “farra que eles fazem,
e nós pagamos”. Nós, quem, ô cara-pálida? Vocês são sonegadores, não pagam nada
– e ainda sugam a grana que os nossos irmãos do Norte pagam nos impostos de lá.
Na televisão, igualmente, uma trupe de
sonegadores de matizes muito pouco variados resolveram defender o
“contribuinte”. Melhor seria se eles passassem a contribuir, ao invés de roubar
o dinheiro público. Com defensores desse tipo, o “contribuinte” - isto é, o povo
- está lascado e, realmente, mal pago.
Graças aos céus o nosso Congresso houve por bem
instalar logo uma CPI para investigar esses terríveis ralos por onde escoam o
dinheiro público. Porém, o presidente Lula acaba de encerrar 2007 com o maior
nível de investimento público da década (R$ 59,1 bilhões). Então, que ralos são
esses? Quanto aos R$ 576,6 bilhões que, segundo a execução orçamentária da
União, o governo, entre juros e amortização da dívida pública, pagou ou rolou no
ano passado, todo Catão de bordel é a favor. Note-se que isso é mais de 35% das
despesas fixadas no Orçamento de 2007. Mas o escândalo deles é com os R$ 78
milhões dos cartões corporativos – 0,004% das despesas do governo, em geral
despesas absolutamente justas e inevitáveis.
Certamente, aqueles que fizeram gastos
irregulares devem ressarci-los. No que, aliás, não deve haver dificuldade. O que
vão devolver, ainda que com correção monetária, é uma miuçalha liliputiana.
Mas vamos aos tremendos ralos. Coisa terrível: o
ministro da Pesca tomou um chope na cervejaria Pinguim, de Ribeirão Preto;
depois, pagou R$ 120,00 para comer na churrascaria Porcão, do Rio de Janeiro.
Aliás, queríamos saber como o ministro conseguiu pagar tão pouco no Porcão. Deve
ter pechinchado um bocado. Ou, então, é um sujeito mais frugal e morigerado que
o falecido Cincinato. É verdade que, na antiga Roma, não havia churrascarias...
Já o ministro dos Esportes, além dos R$ 8,30 de
tapioca – aliás, devolvidos antes da atual epidemia de amor à causa pública -
ainda por cima pagou R$ 66,99 na Lanchonete Pé pra Fora, que, pelo preço e pelo
nome, deve ser um estabelecimento refinadíssimo.
No início da semana, a principal denúncia de “O
Globo” foi o caso de uma funcionária que gastou R$ 40,00 num camelô. Dentro em
breve aparecerão pentes da grife “Flamengo”, foguetes da indústria aeroespacial
“Caramuru”, comprimidos da sofisticada marca européia “Cibalena” - e mais outros
produtos suntuosos e altamente lesivos, por seu preço, ao Erário.
Essa gente não tem nem o mais óbvio cuidado –
aquele de olhar o próprio rabo antes de falar do rabo dos outros. Assim,
acabaram botando o Serra no fogo. Da última vez, na farsa do mensalão, torraram
o Azeredo. Desta, já chamuscaram o Serra (v. matéria nesta página) e não sabemos
quem vai ser o próximo. Talvez o Virgílio, talvez o Jereissati. Se continuarem,
vão acabar sem candidato nas eleições – e não somente para presidente.
Talvez por perceber tardiamente esse pequeno
problema, querem que a CPI não investigue as tapiocas compradas no governo
Fernando Henrique. Sabem perfeitamente que o dinheiro gasto naquela época daria
para comprar uma frota de transatlânticos repletos de tapioca. O PSDB,
particularmente o deputado Carlos Sampaio e o presidente da legenda, Sérgio
Guerra, até que mostrou algum bom senso, aceitando a investigação proposta na
CPI. Mas isso provocou um chilique do velho fariseu, Fernando Henrique, que, com
seu homem na executiva do partido, Eduardo Jorge - imaginem que ele é secretário
de Organização... - estavam, quando fechamos esta edição, tentando impedir que
as investigações fossem a partir de 1998. Ou seja, pimenta só no olho dos
outros. No deles... bem, leitor, isso aqui é um jornal familiar.
Mas, ainda bem que a CPI não deixará tapioca
sobre tapioca. Senão, a República estaria em perigo e correríamos o risco de
aguentar o deputado Ônix Lorenzoni berrando pelos corredores do Congresso: “Às
armas, cidadãos! Formai vossos batalhões!”. O que, provavelmente, faria com que
o grande Robespierre interrompesse o seu merecido descanso e saísse do Além para
ir a Brasília dar umas traulitadas no abusado elemento.
Em suma, o gasto com os cartões corporativos do
governo federal foram, no ano passado, uma quantia tão ridícula que o Serra,
apenas com o governo e o orçamento de um único Estado da federação, gastou R$
108 milhões com os seus cartões. E, como se sabe, o Serra é o homem do
planejamento. Ele não faz nada que preste, mas planeja muito. Porém, o máximo
que ele conseguiu planejar foi gastar mais de 100 milhões, enquanto o governo
federal, em todos os Estados da federação, gastava R$ 30 milhões a menos que
ele. Assim são as coisas, estimado leitor.
CARLOS
LOPES |