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Bárbara Ehrenreich, escritora americana, sobre o estouro da “bolha
imobiliária”:
“A raiz da crise
das hipotecas nos EUA é o arrocho salarial”
“E porque havia
tantos americanos pobres o suficiente para se voltarem para as hipotecas
subprime e outros esquemas de créditos velhacos?”, indaga a autora. As
principais razões, diz, “são baixos salários e insegurança no emprego”
“Os anos de Boom foram de arrocho para as
pessoas comuns”, afirmou a escritora norte-americana Bárbara Ehrenreich,
autora de vários livros sobre a situação dos trabalhadores e da classe média
no país. Ela denunciou que foram “os baixos salários e a insegurança no
emprego” que levaram ao endividamento em massa e à inadimplência. No ano
passado, o salário real inclusive encolheu, de acordo com estudo do
‘Economic Policy Institute’.
Barbara convidou o povo americano a fazer uma
reflexão “sobre como nos enfiamos na atual crise de crédito em primeiro
lugar, através de inadimplência nas hipotecas subprime”. Como ela assinalou,
as hipotecas subprime foram “projetadas com vistas aos pobres”, e para serem
assinadas por eles, embora algumas famílias abastadas tenham aderido. “De
acordo com um estudo recente da entidade ‘United for a Fair Economy’, 55%
dos empréstimos subprime foram para afro-americanos e 17% para brancos”,
revelou a escritora. “Entre os brancos, de longe foram mais frequentemente
para a baixa renda que para os abastados – 39% comparado com 24%”.
“INSEGURANÇA”
“E porque havia tantos americanos pobres o
suficiente para se voltarem para as hipotecas subprime e outros esquemas de
créditos velhacos?”, indagou a autora. As principais razões, apontou, “são
os baixos salários e a insegurança no emprego”. “Cronicamente, os baixos
salários afligem de 25% a 30% da população – mais que o dobro dos 12% que o
governo federal contabiliza como ‘pobres’”. Como ela registrou, até os que
têm uma poupança maior se sentem ameaçados de, do dia para a noite, “seu
empregador promover a terceirização ou buscar o exterior, deixando uma
família sem renda e sem seguro-saúde”.
POUPANÇA
Bárbara assinalou, então, o mecanismo de fundo
pelo qual a dívida das famílias explodiu e a poupança tornou-se negativa.
“Há anos que temos tido uma solução, ou pelo menos um substitutivo, para os
baixos salários e empregos que não garantem a subsistência: crédito fácil”.
Ela acrescentou que “empréstimos com desconto em folha, aluguel com opção de
compra, e taxas de juro exorbitantes do cartão de crédito para os pobres
foram apenas o começo”
A escritora lembrou uma matéria do ano passado
da revista ‘Business Week’, sob o sugestivo título de o “Negócio da
Pobreza”. A matéria documentava “a corrida para emprestar dinheiro” às
pessoas que poderiam, pelo menos, “bancar o pagamento do juro”: “Compre a
casa dos seus sonhos! Refinancie sua casa! Financiamos a todos!” Como ela
apontou, não foram só empresas de quinta-categoria que “se juntaram ao
indecente frenesi para emprestar aos pobres”. Melhor dizendo, para depenar
os pobres, e manter rodando a ciranda especulativa.
“De algum modo” – Barbara sublinhou – “ninguém
se incomodou em avaliar de onde os pobres iriam arrumar o dinheiro para
pagar por todo o dinheiro que eles estavam pegando emprestado”. Ela citou
duas grandes – a Wells Fargo e a Countrywide – mas é extensamente sabido que
os maiores bancos e as maiores corretoras do país, a começar pelo Citibank e
pela Merrill Lynch, estavam metidos até o pescoço. Assim, “os cronicamente
pobres e a exaurida classe média se tornaram um estopim na economia
americana – gerando Inadimplência, consumo deprimido e desordem no mercado
global”.
CENTAVOS
Bárbara relatou, também, como se deu conta do
arrocho lançado contra a grande maioria da população dos EUA, ao escrever o
livro “Nickel and Dimed” [Vivendo de Centavos, numa tradução livre] no final
dos anos 90. “Enquanto o mercado acionário ia às nuvens e fortunas estavam
sendo feitas no tempo que se leva para dizer “IPO”, trabalhadores de US$
6-a-8 por hora almoçavam cachorros-quentes porque era tudo que eles podiam
arcar e, em alguns casos, se afligiam se poderiam arrumar um lugar seguro
para dormir”.
Ao pesquisar, em 2004, para um novo livro sobre
o desemprego nos EUA entre o pessoal de “colarinho branco”, Barbara se
deparou com “demitidos que estavam procurando por um emprego há mais de um
ano e frequentemente acabavam – depois de vender suas casas e fazer
empréstimos de parentes – aceitando emprego de baixo salário como balconista
ou mesmo porteiro”.
A economia sob W. Bush e as corporações está
“tão desacoplada da experiência comum”, afirmou a autora, que, de acordo com
pesquisa da CNN, 57% dos americanos acham que já estamos em recessão há um
mês”. Quanto à discussão entre os economistas, Bárbara afirmou que a maioria
da população “emprega uma definição mais coloquial de recessão, que é tempos
árduos”. “E – longe do que quer que haja ocorrido em Wall Street, Nikkei,
Dax, ou a curiosamente chamada FTSE – a maioria dos americanos têm vivido
sua própria recessão pessoal há anos”.
CURTO PRAZO
A autora ironizou, ainda, os rumos que tomou a
discussão sobre o que fazer diante da atual crise. “Começa a soar um tanto
impróprio – toda essa conversa sobre a necessidade de ‘estimular’ a
economia, como se nós estivéssemos discutindo como fazer um filme pornô”. A
escritora defendeu urgência na intervenção do governo, “de curto ou de longo
prazo”, mas que chegue ao cerne do problema “por meio de estender a mão aos
pobres e aos desempregados”. Quanto à suposta produtividade, Barbara
concluiu lembrando que novamente “não há qualquer aumento correspondente nos
salários dos americanos”.
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