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Tele brasileira só conseguirá enfrentar
estrangeiros com ação firme do Estado
Em entrevista ao HP, o professor Marcos Dantas
afirmou que a nova empresa, a partir da fusão da
BrT com a OI, só garantirá vantagens para o país
caso o governo crie mecanismos para impedir a
sua futura desnacionalização
O
professor de Tecnologias da Informação da
PUC-RJ, Marcos Dantas, afirmou que a fusão da
Brasil Telecom (BrT) com a OI (antiga Telemar)
pode ser benéfica para o país ao criar uma
empresa nacional com condições de enfrentar o
poderio dos grupos estrangeiros que tentam
monopolizar o setor de telecomunicações
brasileiro.
No entanto, segundo Marcos Dantas, as vantagens
só existirão se o governo criar mecanismos que
impeçam a desnacionalização e assuma um papel de
destaque nas decisões da empresa, uma vez que
terá uma participação acionária importante
através do BNDES e dos fundos de pensão das
estatais. “Um dos objetivos desta fusão é
exatamente evitar que estas empresas caiam em
mãos estrangeiras. Agora, tudo isso depende de
política de governo. Se alguém quiser comprar e
o governo não intervier de alguma maneira, tendo
um instrumento legal para fazer isso, não
adianta nada”, disse o professor em entrevista
ao HP.
Mestre em Ciência da Informação pela ECO-UFRJ e
Doutor em Engenharia de Produção pela COPPE-UFRJ,
Marcos Dantas já exerceu, no governo do
presidente Lula, as funções de secretário de
Educação à Distância do MEC, secretário de
Planejamento do Ministério das Comunicações,
representante do Executivo no Conselho
Consultivo da Anatel, representante do MEC no
Conselho Deliberativo e no Comitê Gestor do
Programa TV Digital e representante do governo
no Comitê Gestor da Internet-Brasil.
Leia os principais trechos da entrevista.
HP: Existem vantagens na fusão entre Brasil
Telecom e Oi (Telemar) para o país?
Marcos Dantas: Ela pode ser benéfica na
medida que dê ao Brasil uma empresa de grande
porte no setor de telecomunicações, com sede e
controle no país. As grandes empresas do setor
são de porte global, operam em muitos países. O
Brasil só pode operar neste mercado se tiver uma
empresa com proporções parecidas, como ocorre em
outros setores da economia com a Vale do Rio
Doce, a Petrobrás e a Gerdau.
Mas a vantagem maior é para a parte mais pobre
do país, como o Norte e Nordeste, onde a
manutenção do sistema de telecomunicações é
muito difícil e é, efetivamente, deficitário. A
principal empresa da área é a Telefónica e ela
só opera em São Paulo. Quem opera nas regiões
pobres é, principalmente, a Telemar e a Brasil
Telecom. Elas sustentam as redes nesta parte
mais pobre com parte das receitas que elas podem
obter nas regiões mais ricas. Se juntar as duas
empresas, junta-se a força que elas têm em seus
respectivos mercados e isso torna mais fácil o
subsídio para os custos deficitários no Norte e
Nordeste.
Outro ponto é o aumento da competição, por
incrível que pareça. A rigor, como a competição
é global, atualmente existe duas empresas no
Brasil que têm condições de competir: a Telmex,
que no Brasil se chama Embratel, e a Telefónica
espanhola. Criando uma empresa nacional, passa a
ter uma terceira empresa competindo com aquelas
duas. Estes são os aspectos mais importantes que
eu vejo. Se o governo intervier, se o governo
tiver política, tiver projeto, aí você pode ter
outras coisas, mas tudo depende da ação do
governo.
HP: A fusão pode causar problemas colaterais?
Marcos Dantas: Se não tiver ação do
governo, os grandes beneficiários disso tudo
serão os sócios privados destas empresas. Então,
não existirá o benefício que a sociedade pode
ter. Não é uma coisa que vai acontecer
espontaneamente, não vai acontecer apenas pela
boa vontade dos acionistas privados destas
empresas. A fusão cria as condições para
beneficiar a sociedade. Mas, para que isso
aconteça, o governo tem que ter uma política.
HP: Na sua opinião, quais seriam as medidas e
ações que o governo deveria tomar?
Marcos Dantas: O governo tem uma
participação acionária nestas empresas. Embora o
BNDES tenha 25% do capital, ele não tem direito
a voto. O BNDES deve ser um sócio mais ativo no
sentido de permitir que, por exemplo, estas
sinergias que vão acontecer barateiem os custos
de assinatura, que são caras. Você vai ter mais
escala, pode baratear o custo da assinatura para
o consumidor.
Também deve orientar estas empresas a fazer um
maior investimento em desenvolvimento
tecnológico, em pesquisa. Comprar os
equipamentos que elas precisam para fazer suas
operações no mercado interno. Essa é uma outra
ação que o governo poderia tomar em troca das
mudanças que ele terá que fazer para permitir a
fusão.
Existe a questão da universalização da banda
larga. É preciso levar banda larga para as
escolas, para os postos de saúde, precisamos
levar banda larga para mais de 4 mil municípios
brasileiros. Hoje só existe serviço de banda
larga em 400 municípios no máximo. O governo
deve fazer dessas empresas um instrumento para
uma política de universalização da banda larga.
São questões assim que devem ser consideradas
neste processo e não apenas as vantagens dos
investidores, dos acionistas, mas também o que
eles terão que pagar para o país para obter
essas vantagens.
HP: A monopolização do setor em mãos
estrangeiras vem se acentuando a cada ano. As
mudanças na lei para a fusão não podem facilitar
esse processo, como ocorreu na Ambev?
Marcos Dantas: Um dos objetivos desta
fusão é exatamente evitar que estas empresas
caiam em mãos estrangeiras. A Telemar está
virando uma empresa inviável, ela vai acabar
sendo vendida de alguma maneira. Ela é uma
empresa que atende uma área muito pobre do país,
não gera muita receita, ou o que eles gostariam
que ela gerasse. Então, a fusão destas empresas
é para evitar que, mais cedo ou mais tarde, elas
sejam desnacionalizadas.
Agora, tudo isso depende de política de governo.
Se alguém quiser comprar e o governo não
intervier de alguma maneira, tendo um
instrumento legal para fazer isso, não adianta
nada. Há pouco tempo atrás os sócios
controladores da Telecom Itália quiseram se
desfazer da empresa, e quem apareceu para
comprar foi AT&T americana. O governo italiano
vetou, não vai vender e ponto. Mas ele tem
instrumento legal para fazer isso. Aqui no
Brasil esta coisa está muito troncha. Depende
muito de quem está no Ministério, de quem está
na Presidência da República. Você citou o caso
da Ambev. Realmente, a Ambev teve uma proposta
de fusão para que ela não fosse
desnacionalizada. Mas eles a desnacionalizaram.
Outro exemplo é a Embraer. Quando foi
privatizada, foi comprada por investidores
brasileiros e o governo ficou com uma ação
dourada na Embraer. Esses investidores
desnacionalizaram a empresa, venderam para um
grupo francês e o governo Fernando Henrique não
vetou.
Então, por que a fusão da BrT e OI é boa, entre
outras coisas? Porque ela pode evitar a
desnacionalização de duas grandes empresas
brasileiras de telecomunicações e pode permitir
a criação de uma grande empresa brasileira.
Agora, essa empresa será desnacionalizada? Se o
presidente da República de plantão permitir,
será. Se não permitir, não será. Do ponto de
vista de uma economia globalizada, o Brasil
precisa ter empresas fortes se não quiser a
completa desnacionalização de sua economia. Mas
é preciso ter um ambiente político,
institucional e legal para que estas empresas
permaneçam brasileiras.
HP: A Anatel funciona como um braço das teles
estrangeiras e não como fiscalizadora. Basta ver
as decisões em relação a Telefónica. As agências
têm condições de fiscalizar alguma coisa?
Marcos Dantas: Eu não acho que a Anatel
está cumprindo o seu papel. Mas eu acho que a
Anatel foi criada exatamente para isso, para não
cumprir papel nenhum. Infelizmente, o governo
Lula poderia ter mudado o perfil da Anatel. Não
mudou. Lamentável que ele não tenha feito isso.
Nomeou muita gente. Mas, infelizmente, não
nomeou ninguém que fosse capaz de mudar o perfil
da Anatel. Novamente temos a questão política.
ALESSANDRO RODRIGUES |