Ao responder uma consulta feita pela Anatel, que
solicitou autorização para preparar alterações no Plano Geral de Outorgas (PGO),
o ministro das Comunicações, Hélio Costa, orientou a agência a suprimir os
artigos 7º e 14º que impedem uma concessionária de telefonia fixa controlar ou
se associar a outra que atua em demais áreas de concessão. Na prática, a medida
acaba com a regionalização criada no processo de privatização e permite a fusão
da Oi (antiga Telemar) com a Brasil Telecom. As mudanças devem passar por
consulta pública para depois serem enviadas para aprovação ou não do presidente
da República.
A solicitação da Anatel ao ministério foi
provocada por um documento enviado pela Abrafix (Associação Brasileira de
Concessionárias de Serviço Telefônico Fixo Comutado) que requeria o “liberou
geral” no setor de comunicações no país, principalmente a mudança da legislação
para que estrangeiros pudessem controlar empresas de TV a cabo. Embora tenha
sugerido estudos que possibilitem o oferecimento de múltiplos serviços (a
convergência digital entre voz, vídeo e dados) por parte das teles, a resposta
assinada pelo ministro não se refere a alterações na Lei do Cabo (Lei nº 8.977,
de 6 e janeiro de 1995), que impede estrangeiros de deterem mais de 49% das
ações com direito a voto de uma empresa de TV por assinatura.
“Não temos condições de abordar todos os
assuntos ao mesmo tempo. Estamos analisando item por item, e cada um que formos
resolvendo do ponto de vista de políticas públicas do Ministério das
Comunicações, nós encaminharemos para a Anatel”, afirmou Costa em entrevista.
A decisão do ministro desacelerou parcialmente o
movimento das teles estrangeiras. Não é segredo que o domínio de tais grupos na
telefonia brasileira tem sido a principal preocupação do governo para apoiar a
fusão da BrT com a OI. O objetivo é promover uma tele nacional com condições de
evitar ou resistir à desnacionalização completa do setor.
Porém, a necessidade de adequar a legislação
para a fusão vinha sendo utilizada por conglomerados como Telefónica, Embratel e
Claro para pressionar o governo a mudar também as poucas leis que impedem o seu
avanço nos demais setores de comunicação, como a TV a cabo e, num futuro
próximo, a TV aberta.
Isso está explícito no documento da Abrafix, que
sob a égide de representar as teles (incluindo as nacionais) tenta contrabandear
alterações que, inclusive, não favorecem as teles brasileiras, como o fim das
restrições à TV a cabo. Não é à toa que entre as “sugestões” da entidade que
deveria representar as empresas da telefonia fixa estão mudanças na telefonia
móvel, cuja principal interessada é a Telefónica, que pretende chancelar o seu
monopólio com o fim das restrições cosméticas aplicadas pela Anatel no caso da
compra da TIM pela Vivo.
As transnacionais alegam que a sua entrada
geraria uma suposta concorrência na TV por assinatura. Citam a necessidade de
“atualizar” a legislação para promover “o irrefreável processo de consolidação,
interna-cionalização e fortalecimento da empresas atuantes no setor”, como diz a
Abrafix, ou melhor, Telefónica.
Não há dúvida que é necessário sim “atualizar” a
legislação brasileira que rege as comunicações e as novas tecnologias. Mas esta
necessidade está justamente em aumentar a proteção contra o controle estrangeiro
e não diminuir. Só assim é possível ter concorrência.
O exemplo disso é o sistema de TV via satélite (DTH)
que, por falta de regulamentação, é regida por portarias. Em poucos anos, a
falta de controle deu a Murdoch (Sky) o monopólio de determinar o que 95% dos
assinantes brasileiros de TV por satélite assistem.
Nem de perto se pensou em levar em consideração
ou em aplicar, em benefício do interesse nacional, a lei da radiodifusão, que
limita a participação estrangeira ao máximo de 30% do capital. Pelo contrário.
Essa mesma interpretação e estimulação da “concorrência” foi estendida para a
transmissão por microondas (MMDS), onde a Telefónica já ganha terreno através da
TVA.
O avanço estrangeiro sobre a TV a cabo é
restrita, como já afirmamos, à limitada lei dos 49%. Até isso vem sendo burlado
através de saladas acionárias que dão a grupos transnacionais o comando de fato,
por meio de laranjas (vide Telefónica/Abril/TVA). O objetivo disso é um só:
dominar as redes de comunicações para manipular, determinar, defender seus
interesses e lucrar através do conteúdo que transmitem por estes meios. Aliás,
ao monopólio só interessa deter o meio para transmitir o seu conteúdo.
Portanto, se existe alguma mudança necessária, e
existe, ela se restringe ao fato de aumentar as limitações - e não diminuir -
para a participação de capital estrangeiro nos meios de comunicação. Isso não
significa proibir as teles de oferecer serviços de TV por assinatura. Deve ser
permitido, desde que ela seja nacional.