A política pequena da oposição BBB
GILSON
CARONI FILHO*
Incapaz de implementar um projeto
de país, a oposição ao governo Lula não se faz de rogada. Descarta qualquer
possibilidade institucional de diálogo partidário e abraça, com apoio da
grande imprensa, a política miúda. Despe-se de qualquer veleidade
republicana, troca o debate público pelos cochichos nos corredores do
Congresso e faz da chantagem e dos conchavos golpistas os elementos centrais
de ação política.
Para as principais lideranças do
PFL (DEM) e do PSDB, o que deve ser preservado é a exclusividade de suas
demandas. Ao contrário do que argumenta Arthur Virgílio,em mandado de
segurança ajuizado no STF,o que interessa no acesso aos dados sigilosos dos
cartões corporativos da Presidência da República não é “a fiscalização
contábil, financeira, orçamentária, operacional e patrimonial da União e
entidades da administração direta e indireta” Esse é o pretexto usado pelo
senador amazonense, lugar-tenente de FHC. O que se tenta atingir tem
profundidade maior.
O que move a CPI dos Cartões é a
necessidade de impor uma agenda que tire o foco do aspecto central do
momento político: a possibilidade, cada vez mais concreta, de o país,
quebrando estruturas antiquadas, entrar completamente na modernidade,
aprofundando as transformações sociais que se impõem. O que preocupa, e
muito, é uma estratégia governamental que desenvolve cidadania ativa, produz
alocação eqüitativa de recursos e promove o controle social do Estado.
Nunca é demais lembrar o que
escreveu Marco Aurélio Nogueira, em seu livro “ Defesa da Política”,
publicado em 2001 pela Editora Senac:”a política dos politiqueiros dedica-se
a viabilizar aquilo que Gramsci chamava de “pequenas ambições”. Trata-se de
um tema decisivo. A política não se separa da ambição: quem não aspira ao
poder, à possibilidade de influenciar ou à pretensão de assistir ao triunfo
de uma causa, não se coloca no terreno da política(...) Como Gramsci
observou numa luminosa nota dos Cadernos do Cárcere, a ambição assumiu um
significado negativo e desprezível por duas razões principais: porque se
confundiu inteiramente a grande ambição com as pequenas ambições e porque a
ambição muitas vezes “conduziu ao oportunismo mais baixo, à traição dos
velhos princípios e das velhas formações sociais que haviam dado ao
ambicioso as condições para passar a um serviço mais lucrativo e de
rendimento mais imediato”. Subindo ao primeiro plano, as pequenas ambições
arrastam consigo as ambições nobres e generosas”.
O parágrafo acima enquadra com
precisão o comportamento recorrente da direita nativa. Heráclito Fortes,
Agripino Maia e Álvaro Dias, entre outros, encenam a opereta do atraso sem
qualquer interpretação original. Não são motivados por princípios éticos ou
desejo sincero de investigar irregularidades no uso dos cartões. Querem
apenas encurralar o governo com uma agenda derrotada. Não praticam a
Política Cidadã que visa à ampliação da esfera pública, pelo contrário, se
empenham em mantê-la no regaço estreito de uma “democracia de classe média”.
Ignoram preceitos regimentais para
a a formação do comando de uma CPI e ameaçam obstruir votações no Congresso
caso seus pleitos não sejam atendidos. Pretendem, se possível com apoio do
STF, impor a ditadura da minoria e, sem qualquer pejo, apresentam-se como “
paladinos” do Estado Democrático de Direito.
Quem melhor explicita os objetivos
de pequena estatura política é o prefeito do Rio de Janeiro, César Maia(
demo do PFL carioca). Em seu boletim eletrônico de 11 de fevereiro, não
tergiversa. Mostra qual é a visão de mundo dos que se opõem ao governo: “Os
cartões dão um sabor especial em questões de intimidade e privacidade, que
sempre tem audiência à vontade. Uma espécie de BBB de pequenas despesas.
Mesas de sinuca, churrascarias, bonecos de pelúcia, free-shops, vaidades
femininas... já fazem a festa do noticiário. Mas agora ao vivo e a cores. E
com mais detalhes, inebriantes.”
Textualmente, esse é objetivo da
CPI: antecipar o início do reality show global. Conhecem o “anjo” e sabem
que serão imunizados. E fazem qualquer coisa para reconquistar a “liderança”.
O prêmio? Um país sem problemas no balanço de pagamentos e produção
industrial crescente. Algo a ser destruído o mais rápido possível.
*Gilson Caroni Filho é professor de
Sociologia das Faculdades Integradas Hélio Alonso (Facha), no Rio de
Janeiro, colunista da Agência Carta Maior e colaborador do Jornal do Brasil
e Observatório da Imprensa.