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A tropa de proxenetas da
elite
De repente, todos os sacripantas que sempre
detestaram o cinema brasileiro, todos os serviçais dos monopólios da
indústria cinematográfica norte-americana, todos os debilóides contratados
para insultar nossos filmes e nossos maiores criadores no cinema,
tornaram-se, supostamente, fãs, apologistas e sacerdotes do cinema nacional.
Essa erupção, provinda dos bueiros culturais e
outros que nada têm de culturais, motivou-a a premiação do filme “Tropa de
Elite” no Festival de Berlim. É quase inevitável vir à mente que Berlim é um
lugar muito indicado para premiar tal filme. Mas seria injusto, por várias
razões. Uma delas é que o júri que o premiou não era um júri alemão.
Aliás, que júri medíocre. Exceto o presidente,
Costa Gavras, que não é nenhum Eisenstein, mas também não é um Ed Wood, a
categoria dos jurados não era, este ano em Berlim, das mais privilegiadas
para a tarefa. As duas atrizes – uma alemã e a outra taiwanesa – estariam
melhor em outra função que não a de juradas. Uli Hanisch está longe de ter
uma obra com alguma importância – seu filme mais conhecido é uma sofrível
adaptação do sofrível romance “O Perfume”. Como representante dos EUA,
estava no júri um excelente técnico de som – o favorito de Coppola. Na falta
deste, devem ter achado que gato substitui cachorro quando se trata de caçar
o melhor filme... Por último, um diretor ucraniano, um oportunista
pós-socialismo, hoje empresário de uma rede televisiva de “entretenimento”.
Para um festival que já teve George Stevens e Alberto Lattuada no mesmo júri
(1970), convenhamos que os jurados de hoje em dia são capazes apenas de vôos
em muito baixa altitude.
Assim, premiar “Tropa de Elite” não é uma
surpresa. Ainda bem que não deram uma menção de honra, como obra histórica,
a “O Judeu Süss”, muito considerado pelo crítico de cinema Adolf Hitler.
Mas, voltando ao ponto em que começamos: por que
todos os elementos que sempre odiaram o cinema nacional – e o que mais haja
de nacional – estão aplaudindo a consagração de “Tropa de Elite”?
Certamente, porque ele nada tem de nacional, de brasileiro. Do ponto de
vista da forma, é um filme americano com personagens supostamente
brasileiros. Qualquer pessoa que já assistiu a alguns seriados americanos
sabe de onde o diretor copiou a forma onde encaixou esses personagens com
nomes brasileiros.
Naturalmente, essa forma não é aleatória – é,
precisamente, a melhor forma para expressar seu conteúdo. Nos filmes
americanos, a SWAT, e outras tropas ditas “especiais”, são o reduto da
pureza e da coragem, mesmo assassinando algumas dezenas de pessoas,
inclusive indefesas e a sangue-frio, e torturando outras – sempre, é claro,
por uma boa causa. Certamente, essas “tropas especiais” dos filmes
americanos só têm em comum com seus modelos reais os últimos itens, isto é,
a chacina e a tortura.
Da mesma forma, a PM não é aquele antro de
corruptos que está em “Tropa de Elite”, e o Bope não é aquele pugilo de
heróis, coitados, obrigados a assassinar e a torturar.
É evidente que nós precisamos de uma polícia que
seja dura com os que atentam contra a sociedade. Porém, dureza não é
covardia. Há leis neste país – e não existe pena de morte, nem lei alguma
protege a tortura, muito menos a tortura de inocentes, ou seja, da família
ou da namorada de procurados pela Justiça. Se os que combatem o crime usam
os mesmos métodos – e, em verdade, têm a mesma ideologia – dos criminosos,
isso significaria que deixou de existir diferença entre os criminosos e seus
adversários. É mais ou menos esse o significado de “Tropa de Elite”.
Todos os bons policiais – e há muitos – sabem
que a repressão, por mais violenta que seja, é incapaz de acabar com o
crime. Onde o Estado e o atendimento ao povo se retiram, o espaço é sempre
ocupado pelos criminosos. Onde a única coisa que o povo pode esperar do
Estado são balas de sub-metralhadora, é inútil esperar que essas balas sejam
capazes de debelar a criminalidade.
São essas questões, aliás, muito simples e
evidentes, que “Tropa de Elite” ignora e, mais exatamente, esconde, como os
originais norte-americanos de onde foi copiado. O que não ajuda a polícia,
nem o país, nem o povo, nem o cinema nacional. Apenas aos fariseus que
colaboram e agem para destruir o Estado, colocar milhões na miséria – e
depois acham, e pregam, que a solução para a convulsão social que
provocaram, é colocar nossos policiais para atirar, torturar, e também para
morrer. Apesar de ser um dos mais surrados lugares-comuns, é inevitável
dizer que esse filme todos nós já vimos.
C.L. |