LÉO DE ALMEIDA NEVES*
O achado da Petrobras em 2007 do campo de Tupi,
na camada pré-sal, com reservas estimadas de 8 a 18 bilhões de barris de
petróleo, gerou nova perspectiva de futuro promissor ao Brasil, mas se impõe
modificar a legislação de concessões, que transfere às empresas a propriedade do
óleo extraído.
O subsolo de nosso imenso território pertence à
União, isto é, a todos nós brasileiros. Nem sempre foi assim, porque era
particular até 10 de julho de 1934, data em que o estadista Getúlio Vargas
decretou sua nacionalização.
Todas as Constituições Federais que vieram
depois do Decreto mantiveram com a União as reservas naturais debaixo do solo. A
Petrobras criada por Getúlio Vargas (Lei 2004, de 3 de outubro de 1953) recebeu
poderes de exercer o monopólio estatal do petróleo, e ela alcançou em 2007 a
produção de dois milhões de barris por dia, garantindo com sobra nossa
auto-suficiência.
O governo Fernando Henrique Cardoso empenhou-se
em privatizar a Petrobras. Em 1998 vendeu 34,04% de ações ordinárias com direito
a voto a estrangeiros na Bolsa de Nova Iorque. Pela troca de ativos na Argentina
com a petrolífera espanhola Repsol, entregou a esta um terço da refinaria
Alberto Pasqualini sediada no Rio Grande do Sul, assim denominada como homenagem
ao saudoso senador gaúcho, teórico do Trabalhismo.
O aliado livre-mercadista de FHC, o senador
Jorge Bornhausen, então presidente do PFL (agora DEM), lançou-se em campanha
para privatizar todas as nossas refinarias, mas não teve êxito em sua
empreitada. Fernando Henrique através da emenda constitucional nº 5, de 1995,
tirou o monopólio da Petrobras, e a Lei 9.748, de 1997, abriu às firmas privadas
e estatais a extração do petróleo, assegurando-lhes a propriedade e livre
exportação do óleo encontrado.
Essa norma contraria o interesse nacional, uma
vez que as reservas de petróleo, que não são renováveis, marcham para a exaustão
e não era difícil prever que seu preço internacional chegaria logo a US$ 100,00
o barril. Exportar petróleo com reservas então medidas para apenas 17 anos de
consumo constitui absoluta insensatez, para não dizer crime de lesa-Pátria.
A identificação do gigantesco campo de Tupi
mudou o panorama, porque nossas reservas serão acrescidas de 21,5 a oitenta
bilhões de barris, e com certeza seremos enormes exportadores comparáveis à
Rússia, Arábia Saudita, Irã, Iraque e Venezuela.
O anúncio oficial aconteceu poucos dias antes do
9º Leilão da Agência Nacional do Petróleo (ANP), e esta excluiu do Edital 41
blocos com as mesmas características do campo Tupi. Os “mercadistas de
carteirinha”, editorialistas de alguns jornais, determinados comentaristas
econômicos, “consultores petrolíferos”, parlamentares conservadores protestaram
veementemente contra a retirada dos blocos, alegando “quebra de contrato”,
mudança unilateral de regras, e que o leilão poderia fracassar. Não houve
insucesso e 117 lotes foram arrematados.
É inquestionável que a prioridade nacional exige
novas normas para exploração de petróleo no país, agora que o risco de encontrar
petróleo tornou-se inexistente nos extensos 800 quilômetros que vão do Espírito
Santo até a costa do Rio Grande do Sul.
A União terá que ficar com grande quinhão da
renda do petróleo obtido (de 75 a 90% do valor real), dividindo essa receita com
estados e municípios sob a forma de tributo, de royalty, partilha ou o que seja.
Talvez venha a ser o caso de convivermos com modelos diferenciados, conforme os
blocos localizados em áreas com menor ou maior probabilidade de achar o precioso
ouro negro.
Vejam o contra-senso. Sem necessidade de ter
sócios, porque a Petrobras é a operadora, a única que dispõe de tecnologia de
perfuração e logística em águas profundas (graças às pesquisas do CENPES), a
nossa estatal vai fazer a felicidade dos acionistas da portuguesa GALP, da
inglesa BG e da espanhola Repsol, que estão juntas na Tupi e em outras duas
descobertas anexas.
A robusta arrecadação que a União vai auferir
com o petróleo contribuirá para destinar verbas ao etanol e ao biodiesel, e
aliviar a carga tributária de impostos indesejáveis. A fabulosa receita cambial
que se avizinha servirá para acumular reservas, mas não deve inibir a exportação
de bens industriais de valor agregado, mediante política cambial realista, nos
moldes da que a China vem praticando.
Tupi e a camada pré-sal representam espetacular
ganho, que se reveste de caráter intertemporal, projetando-se sobre as gerações
futuras. Todavia, terá que haver modificação no marco regulatório do setor do
petróleo e gás, permitindo a partilha da produção com a União, e as companhias
(inclusive a Petrobras) que participarem da exploração não serão proprietárias
do óleo. Este é o regulamento utilizado pela Rússia, Qatar, Iraque e Nigéria. O
contrato de prestação de serviços é a praxe da Arábia Saudita, Irã, Kuwait e
Venezuela. O Brasil usa o inconveniente contrato de concessão, com as
concessionárias ficando donas do petróleo que descobrirem.
Outra conseqüência da descoberta do petróleo da
camada pré-sal, é que a Petrobras deverá reduzir o ritmo de seus investimentos
no exterior, atualmente priorizando os Estados Unidos (Golfo do México), e
concentrar recursos e esforços no Brasil.
Os derrotistas, as cassandras, os detratores do
nosso povo e do nosso país poderão arregimentar-se contra uma solução
nacionalista para o petróleo. Bem que o Clube Militar, a OAB Nacional, o Clube
de Engenharia do Rio de Janeiro, a ABI e outras entidades de prestígio poderiam
mobilizar-se para essa luta de enfrentamento de grupos internacionais poderosos
e de seus asseclas locais.
Parafraseando Getúlio Vargas, “a riqueza do
petróleo é nossa, dos brasileiros, e ninguém conseguirá arrebatá-la de nossas
mãos”.
(*) Membro da
Academia Paranaense de Letras, ex-deputado federal e ex-diretor do Banco do
Brasil