Folha e o hipo-jornalismo
Na última terça-feira, o jornal “Folha de S.
Paulo” publicou editorial de primeira página, e mais uma página interna,
acusando a Igreja Universal, proprietária da TV Record, de atentado à liberdade
de imprensa, manipulação da Justiça e de “expor a pessoa” da jornalista Elvira
Lobato.
Não deixa de ser interessante que a “Folha”,
depois de ignorar o atentado à liberdade de expressão de que está sendo vítima o
governador Roberto Requião, e a tentativa de “Veja” de usar a Justiça para calar
o jornalista Luís Nassif, esteja agora preocupada com a sua suposta liberdade de
expressão. Em suma, em dezembro, o jornal paulistano publicou com destaque,
quase estardalhaço, um artigo assinado pela senhorita Lobato sobre um suposto
“império” empresarial da igreja. Depois de citar que uma empresa de propriedade
de um bispo tinha vínculo, registrado na Junta Comercial de São Paulo, com uma
companhia de Jersey, Canal da Mancha, o artigo diz que “uma hipótese é que os
dízimos dos fiéis sejam esquentados em paraísos fiscais”.
Não há, no artigo, vestígio de prova. Aliás, é
exatamente por não existir prova que a jornalista usa uma fórmula que é um
atentado ao jornalismo, isto é, à liberdade de imprensa: “uma hipótese é
que...”. A senhorita Lobato, pelo jeito, é uma discípula do Ali Kamel: deve
achar que o papel do jornalismo não é divulgar fatos, mas “hipóteses”. Com isso,
qualquer calúnia passa a ser notícia desde que, antes dela, haja a expressão
“uma hipótese é que...”. E assim a liberdade de imprensa passa a ser a liberdade
de caluniar aqueles a quem interessa ao dono do jornal. Pois, Elvira Lobato sabe
muito bem que se fizer isso com algum amigo do seu patrão, não haverá hipóteses:
será catapultada para o olho da rua pelo Otavinho em velocidade superior à da
luz.
Naturalmente, ninguém gostaria – provavelmente,
nem a jornalista – que algo relacionado a seu nome fosse citado e, em seguida,
se dissesse: “uma hipótese é que fulano ou fulana não é uma pessoa respeitável”
ou “uma hipótese é que fulano seja um ladrão, sonegador e lavador de dinheiro”.
Pois foi exatamente isso o que o artigo da “Folha” fez com a Igreja Universal.
Não surpreende que a Universal haja reagido com
um processo – e que haja respondido, através da Record e outros órgãos de
comunicação. Porém, além disso, pipocaram dezenas de ações contra a “Folha” e a
senhorita Lobato no país inteiro – até a semana passada, já eram 56 – impetradas
por pastores e fiéis da Universal.
Segundo a “Folha”, isto seria “litigância de má
fé”, ou seja, manipulação da Justiça, e atentado à liberdade de expressão. As
duas acusações são infundadas. Mesmo que as ações tenham sido orientadas pela
igreja – e ela não nega que forneceu assistência jurídica aos impetrantes – isso
nada tem a ver com “litigância de má fé”, que é razoavelmente bem definida pelo
artigo 17 do Código de Processo Civil. Por outro lado, é um direito das pessoas
recorrerem à Justiça. Portanto, considerar isso um atentado à liberdade de
expressão é, esse sim, um argumento de má fé, pois pretende-se, com isso,
estabelecer que a imprensa está acima das leis e da Justiça – ou seja, ela pode,
até mesmo, atentar contra a própria liberdade de imprensa, contra a Justiça e
contra a Lei, sem que as vítimas possam recorrer à Justiça e às leis.
Primoroso nesse sentido é o pronunciamento do
deputado Miro Teixeira, pedindo o fim da lei de imprensa. Logo o deputado Miro,
uma vítima desse jornalismo de hipóteses... É uma pena que ele tenha resolvido
que o melhor caminho para se livrar dessas “hipóteses” seja puxar o saco dos
detratores. É evidente que a atual lei de imprensa necessita ser melhorada e
atualizada. Mas, para que serve acabar com qualquer lei de imprensa, tal como os
barões e fariseus da imprensa sempre reivindicaram? Para estimulá-los a
caluniar, isto é, a formular suas hipóteses sobre a mãe do primeiro desafeto que
lhes atravessar o caminho? Decididamente, o deputado não vai escapar dessa
hipo-imprensa propondo que ela tenha carta branca.
Assim são as coisas. Apesar de nada haver nisso
de ilegal, é claro que essas ações foram organizadas a partir da direção da
igreja. No entanto, não nos parece que esse pipocar de ações em todo o Brasil
seja a melhor forma de reagir. É verdade que a “Folha” e seus hipo-aliados
(inclusive a Rede Globo) têm um poderio grande. Mas a Universal conta com uma
rede de 23 emissoras de TV, 40 estações de rádio e vários jornais – dois deles,
diários de grande circulação, em Belo Horizonte e Porto Alegre – para responder
aos seus adversários.
O que, aliás, tem sido eficiente. Uma das
acusações da “Folha” é que a última reportagem da Record sobre o assunto “expôs
a pessoa” da jornalista Elvira Lobato. Na verdade, a única coisa que a
reportagem fez a esse respeito foi mostrar um retrato da senhorita Lobato. Por
que mostrar a foto de quem assinou a matéria é uma “exposição pessoal” tão
condenável? Supomos que a jornalista se expôs quando escreveu, assinou e
publicou o artigo. No entanto, a reportagem da Record fez a “Folha”,
inadvertidamente, confessar que prefere o embuçamento de seus funcionários. Não
há, aqui, qualquer hipótese: foi isso que a “Folha” acabou por confessar. Ela
deve ter lá as suas razões para essa preferência.
CARLOS LOPES