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Fortalecer o papel do Estado e ampliar o mercado interno
Dieese
propõe vacina contra a crise econômica dos EUA
“Com
uma paulada de 30% no pagamento do superávit primário, a taxa de investimentos
seria outra, faria toda a diferença”, afirmou Clemente Ganz Lúcio, coordenador
do Dieese
O coordenador técnico do Dieese, Clemente Ganz Lúcio,
destacou “o papel do mercado interno e do fortalecimento do Estado” como
fundamentais não só para o desenvolvimento nacional, a geração do emprego e a
distribuição de renda, mas também como antídoto contra a contaminação da
economia pela crise que afeta os Estados Unidos.
“A melhoria no salário mínimo, que teve crescimento real
superior a 30% nos últimos cinco anos, o aumento da ocupação e os investimentos
do governo e do setor privado demonstram que, ao contrário dos anos neoliberais,
temos a economia mais assentada no mercado interno, o que é estratégico para o
Brasil. O crescimento do mercado interno deve garantir uma razoável expansão do
PIB em 2008, mesmo que a economia mundial desacelere. Diferentemente do passado,
onde fomos violentamente afetados”, declarou Clemente, durante análise de
conjuntura realizada terça-feira na reunião da executiva nacional da Central
Única dos Trabalhadores (CUT). A expectativa do Dieese é que neste ano o PIB
registre aumento entre 4,5% e 5%.
EXPORTAÇÕES
Clemente alertou, no entanto, que “uma desaceleração da
economia dos EUA atingiria fortemente as exportações brasileiras”, destacando a
necessidade do governo continuar ampliando o leque de relações internacionais,
distanciando o país do epicentro da crise. Para frisar que o país se encontra em
melhores condições de suportar a cada vez mais provável crise externa iniciada
nos EUA, ele exibiu gráficos que demonstram crescimento do PIB brasileiro por 22
trimestres consecutivos, calcado em grande parte no fortalecimento do mercado
interno.
“Por que o mercado interno cresce? Pelo aumento do emprego,
pela recuperação da renda, expansão e barateamento do crédito, crescimento da
massa salarial e pelos programas de transferência de renda”, relatou, frisando
que o dólar cotado a menos de R$ 2 é uma das preocupações políticas, pois embora
facilite a inovação tecnológica com a compra de máquinas e equipamentos,
aumentando a competitividade do país, “pode levar à destruição de segmentos da
indústria brasileira, o que precisa ser melhor avaliado”.
Para o coordenador do Dieese, a ação do movimento sindical
por reajustes do salário mínimo maiores do que os previstos no orçamento, entre
os anos de 2004 e 2007, foram um dos motores da melhoria das condições da
economia, assim como o recurso do crédito consignado, outra contribuição do
movimento sindical. “O custo do crédito para as pessoas físicas caiu 22% no
período”, afirmou. Para as empresas, a TJLP, taxa utilizada para os empréstimos
do BNDES, caiu de 9,65% para 6,25%.
PRODUTIVIDADE
A respeito do vertiginoso crescimento da produtividade nos
últimos anos, Clemente enfatizou que é um dado objetivo que fortalece a campanha
das centrais sindicais pela redução da jornada de trabalho sem redução de
salário. “A produtividade mede a capacidade da economia de atender a demanda sem
repassar para os preços. Seu crescimento torna possível uma maior redistribuição
da riqueza. Apesar deste aumento da produtividade, em algumas regiões do país a
média de horas trabalhadas em setores como o comércio se aproxima de 60 horas, o
que demonstra a necessidade a justiça da redução da jornada”.
Os bons resultados da economia no último período negam
máximas do neoliberalismo, destacou: “Diziam que o emprego com carteira assinada
era um freio à empregabilidade, que o problema da qualificação era do indivíduo,
transformando em regra uma realidade do mundo do trabalho em recessão. Bastou
crescer a economia que o emprego com carteira empinou. Quando proclamaram o fim
do emprego, nos anos 90, diziam que os direitos trabalhistas eram um entrave à
geração de empregos e ao crescimento econômico. E agora, com a maior geração de
empregos de qualidade, a economia parou de crescer?”, provocou.
Em relação às limitações do atual modelo de
desenvolvimento, apontadas por dirigentes da CUT após a exposição, o coordenador
do Dieese reafirmou a necessidade da redução do elevado superávit primário, que
faz parte do problema estrutural da dívida pública. “Assentar o problema da
dívida na especulação é uma injustiça social, é uma perversidade absurda que
atenta contra a estratégia de crescimento”, declarou Clemente, defendendo a
renegociação da dívida pública interna. “Com uma paulada de 30% a menos de
pagamento do superávit, a taxa de investimentos seria outra, faria toda
diferença na estratégia de longo prazo. O superávit primário consumiu no ano
passado 3,98% do PIB, R$ 101 bilhões foram alocados para isso. Num cálculo
grosseiro, com 30% disso economizaríamos R$ 30 bilhões para investimento”,
destacou.
LIMITAÇÕES
Outro dado sobre as limitações do modelo refere-se aos
baixos salários, a despeito da recuperação recente. “Os salários médios chegaram
ao fundo do poço no final da década de 1990 e em 2003. Subiram um pouco, mas
continuam lá embaixo”, afirmou. “No ritmo de crescimento e de recuperação
salarial que estamos vivendo, precisaremos de mais 10 anos para tirar o ganho
dos trabalhadores do patamar atual”, previu.
LEONARDO SEVERO/ISAÍAS DALLE
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