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Marquezelli defende ampliar controle nacional na TV a cabo e novas mídias
“Num ambiente regulatório pouco claro”, disse o deputado, “estaremos inviabilizando a produção de conteúdos efetivamente voltados para os interesses nacionais”
Se não estendermos a regulamentação de novas
mídias às exigências e restrições [ao capital
estrangeiro] que hoje se aplicam à televisão,
rádio e jornal, estaremos contrariando os
preceitos constitucionais e permitindo que ele
tenha uma liberdade de atuação maior do que a
prevista no texto legal, inviabilizando a
produção, programação e oferta de conteúdos
nacionais efetivamente sob o controle de
brasileiros”, afirmou o deputado Nelson
Marquezelli (PTB-SP) ao defender que os demais
segmentos de comunicação, independente da
tecnologia utilizada, sejam controlados por
brasileiros.
O deputado é autor da PL 70/2007 que, juntamente
com um projeto do deputado Paulo Bornhausen
(PFL-SC), foi transformado num substitutivo do
deputado Jorge Bittar (PT-RJ). Bornhausen queria
abrir todo o setor de TV a cabo para
conglomerados estrangeiros. O texto de
Marquezelli quer preservar o conteúdo e as
empresas nacionais. Entretanto, o substitutivo
de Bittar permite que o capital externo seja
dono legalmente de 100% das empresas, divide o
setor e tenta fazer com que a programação tenha
cotas de conteúdo nacional. Seria mais fácil,
talvez, converter a Condoleezza Rice ao chavismo.
Obviamente, a obrigação de cotas não é válida
para o jornalismo. Nem precisa, pois com uma
pequena parcela dos canais e dominando os meios,
tais grupos podem transmitir o conteúdo
produzido em outros países, ou até mesmo no
Brasil, pautando a agenda política do país e
lançando notícias sobre a economia que os
favoreçam para lucrar no sistema especulativo.
Sem falar do processo eleitoral.
Ao contrário disso, as propostas de Marquezelli
se chocam diretamente com os interesses desses
grupos transnacionais que, com o slogan do
“avanço tecnológico”, buscam pavimentar o seu
caminho para dominar os meios de comunicação.
Para tanto, basta ver as campanhas dos
estrangeiros que dominam a telefonia brasileira
(Telefónica e Telmex), que vendem e compram
ilusões para açambarcar a TV a cabo. Porém, a TV
por assinatura é apenas um meio, pois seu alvo
central é a TV aberta.
Impedir que isso aconteça e até diminuir o
espaço já ocupado é uma das preocupações de
Marquezelli que, inicialmente, propõe aplicar a
lei da radiodifusão (que determina que 70% do
capital pertença a brasileiros) para todos os
conteúdos produzidos e distribuídos por qualquer
meio.
CONTEÚDO
Em entrevista ao HP, Marquezelli afirmou que é
favorável que todo o sistema de distribuição de
conteúdo (TV aberta, a cabo, via satélite, rádio
e mídia eletrônica) pertença a brasileiros
porque a produção e transmissão de bens
culturais “assumiu o papel de instrumento
hegemônico de economias centrais”. “Além de seu
valor econômico direto, essa indústria é parte
de uma estratégia de dominação cultural dos
mercados emergentes, em apoio à dominação
econômica e política, disseminando valores,
criando demanda e abrindo mercados desvinculados
da realidade e dos interesses nacionais”, afirma
o deputado para justificar o seu projeto.
Já o substitutivo não leva em conta estas
questões. Preocupa-se com as chamadas cotas e
não leva em consideração que “conteúdo” é parte
do “negócio” e que um grupo só quer possuir uma
TV para determinar o conteúdo que ela transmite.
Exemplo disso é que a própria Constituição
determina que as emissoras de rádio e televisão
precisam dar preferência a finalidades
educativas, a promover a cultura nacional e
regional, estimular a produção independente e
regionalizar a produção cultural, artística e
jornalística. Como é possível observar em
diversos canais, estamos longe de alcançar estes
preceitos. Aqui cabe uma indagação: se até hoje
não conseguiram fazer com os grupos nacionais
cumprissem a lei, conseguirão obrigar os
estrangeiros?
Mas a bandeira mais usada para o “liberou geral”
é a chamada convergência tecnológica.
Recentemente, a Anatel pediu permissão para o
Ministérios das Comunicações para iniciar
estudos que visam estabelecer novas regras no
setor de telecomunicações. Como o assunto esta
causando polêmica no Congresso, é melhor
encurtar o caminho. A convergência é só mote
para permitir que teles estrangeiras controlem
as empresas de TV por assinatura, oferecendo
pacotes convergentes de telefone, internet banda
larga e TV a cabo. A alegação é de que os custos
foram reduzidos para os consumidores em países
onde o serviço foi autorizado. O principal
exemplo citado é os EUA. No entanto, a única
questão omitida nesta “maravilha” toda é que os
EUA não deixam que estrangeiros sejam donos de
empresas envolvidas com comunicação. E isso é
justo. Aliás, é um bom exemplo a ser seguido.
O deputado petebista concorda e salienta que
ninguém em sã consciência seria contra o avanço
da tecnologia, muito menos que tais serviços
sejam ofertados por empresas de telefonia. Só
existe um porém: tais empresas precisam ser
nacionais.
Marquezelli destaca também que a própria
Constituição contém princípios que tentam
proteger o sistema de comunicação social do
país, e estão lá justamente para defender a
soberania, preservar a identidade nacional e o
desenvolvimento da cultura brasileira. De acordo
com o deputado, não se pode negar o papel
crucial da comunicação, a sua enorme capacidade
de influenciar a opinião e o comportamento das
pessoas, além de pautar a agenda política. “Os
meios de comunicação social são instrumentos de
dominação cultural, empregados freqüentemente
para criar padrões de consumo, divulgar visões
particulares sobre temas políticos e sociais,
internos e internacionais, e consagrar as
prioridades daqueles que os controlam”, afirmou
Marquezelli.
ESTRANGEIROS
Até pouco tempo atrás, era proibido que
estrangeiros tivessem qualquer participação em
meios de comunicação. Sobre isso é bom lembrar
de Fernando Henrique, que com financiamento da
Fundação Ford (leia-se CIA), escreveu a teoria
da dependência, cujo centro era abrir as portas
do país para a dominação dos monopólios
estrangeiros, sobretudo, norte-americanos.
Chegou ao poder em 1994, e não é necessário se
estender sobre o resultado da aplicação de sua
“teoria” em vários segmentos da economia.
Nos meios de comunicação, apesar de tentar
muito, não conseguiu terminar por completo a sua
obra. Fez um grande estrago, desnacionalizando
boa parte das telecomunicações e abrindo
parcialmente (até 30%) para a participação de
grupos transnacionais nos meios de comunicação
social (TVs, rádios, revistas e jornais), que
até o apagar das luzes de seu governo, quando
editou a Medida Provisória nº 70, de outubro de
2002, deviam pertencer (100%) a brasileiros ou
naturalizados há mais de 10 anos. Só não abriu
totalmente porque não tinha espaço para tanto.
Na TV a cabo, FHC, através da Lei nº 8.977/95,
limitou a participação estrangeira a 49%,
mantendo um limite sensível para que o controle
ficasse em mãos de brasileiros. Não são poucos
os casos onde esta lei está sendo burlada,
principalmente através de laranjas, como é caso
do grupo Abril na TVA, cujo controle está de
fato nas mãos da Telefónica.
O debate no parlamento está apenas começando.
Atualmente temos dois caminhos a seguir:
terminar o processo iniciado por Fernando
Henrique ou revertê-lo, caminhando para um
verdadeiro processo de democratização dos meios
de comunicação. |