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Associação dos
Engenheiros da Petrobrás em carta ao presidente Lula:
Valor
estratégico do petróleo e vazamento de informações demandam suspensão de
leilões
Em
carta endereçada ao presidente Lula, a Associação dos Engenheiros da
Petrobrás (Aepet) propõe ao governo “suspender, incondicionalmente, todas as
rodadas de licitações das bacias sedimentares brasileiras, bem como enviar
ao Congresso Nacional a proposta de mudança do marco regulatório”. A Aepet
argumenta que a recente descoberta do Campo de Tupi, aliada ao aumento
crescente do consumo mundial de petróleo, aumentou a “ambição sobre nossas
reservas”. O vazamento de informações estratégicas da Petrobrás, tanto pelo
furto de dados do pátio da Halliburton quanto pela disponibilização pela ANP
de dados confidenciais da estatal às multinacionais do setor, só confirmam a
necessidade de proteger um patrimônio de “valor estratégico incomensurável”
como é o petróleo. A seguir, a íntegra da carta divulgada no sítio da Aepet.
“Excelentíssimo Presidente,
“A Associação dos Engenheiros da
Petrobrás (AEPET), entidade que tem o compromisso estatutário de defender a
soberania nacional sob todos os seus aspectos: cultural, econômico,
territorial, social e ambiental - dando ênfase ao patrimônio da Petrobrás -,
não poderia deixar de se manifestar ante a notícia oficial de que ocorreram
furtos de informações de natureza confidencial de propriedade da Petróleo
Brasileiro S. A. (Petrobrás), que certamente já devem ter sido passadas,
pelo menos, a uma de suas concorrentes.
“Segundo relatos da imprensa, uma das
suspeitas de terem cometido o crime é a norte-americana Halliburton, uma das
maiores corporações do mundo nos serviços de pesquisa e exploração de
petróleo - presente em mais de 100 países - vinculada às gigantes Energy
Services Group (EGS) e Kellog Brown & Root (KBR) e à guerra do Iraque, que
fora contratada pela Petrobrás.
“A Halliburton já teve como seu
presidente o Senhor Dick Cheney, que é o atual vice-presidente dos Estados
Unidos da América. Vale lembrar que esse país vive a iminência de uma série
crise energética, com ênfase no petróleo. Seu consumo interno, adicionado ao
consumo de suas bases militares espalhadas no mundo e ao consumo das suas
corporações no exterior, atinge valores da ordem de 15 bilhões de barris por
ano. O total das reservas do país é inferior a 30 bilhões.
“Embora a investigação a cargo da Polícia
Federal esteja apenas se iniciando, a imprensa especula que as hipóteses
mais prováveis para o furto seriam uma ação isolada de um serviço secreto
estrangeiro ou espionagem - com a participação ou não de serviços de
inteligência estrangeiros - por parte de uma das empresas concorrentes da
Petrobrás.
“A descoberta do Campo de Tupi confirma
estudos de 30 anos e investimentos de cerca de US$ 2 bilhões pela Petrobrás
na busca de uma nova província petrolífera, abaixo da camada de sal, o
pré-sal. Esta província, segundo expectativa dos técnicos da Petrobrás, pode
conter reservas da ordem de 90 bilhões de barris de petróleo que, somadas
aos 14 bilhões já existentes, eleva as reservas brasileiras para o quarto
lugar no mundo. As três primeiras estão no Oriente Médio, região altamente
conturbada.
COBIÇA
ESTRANGEIRA
“Não há dúvida de que esse sucesso da
Petrobrás, associado ao fato de que o consumo mundial está superando a
oferta, cujo pico está sendo atingido, já neste ano e, por conseqüência, o
preço barril do petróleo é irreversivelmente crescente, faz com que aumente
a ambição sobre nossas reservas. Com isto, aumentam o risco de espionagem,
de pressões sobre o Governo e todas aquelas atitudes inescrupulosas típicas
do mercado de petróleo.
“Há mais de um ano, vêm ocorrendo fatos
correlatos a este: alguns técnicos da Petrobrás, residentes em Macaé e
encarregados dos estudos ligados à área de Tupi e pré-sal vem tendo suas
casas invadidas e tendo como único bem furtado o seu computador portátil
(laptop), contendo dados técnicos.
“Ressalte-se ainda que, na 9ª Rodada de
Licitações, a ANP disponibilizou às multinacionais dados CONFIDENCIAIS da
Petrobrás. Ou seja, não se tratou de espionagem, mas de disponibilização
ilegal de pesquisas de nossa petrolífera que, por lei, tem que fornecê-los à
ANP. Só que estes dados exigem confidencialidade por 5 anos. Na rodada
anterior, a 8ª, até agora não realizada, a Petrobrás foi limitada a disputar
apenas OITO E MEIO POR CENTO do que estava sendo disponibilizado na Bacia de
Santos, exatamente onde são localizados os campos de Tupi e Júpiter,
integrantes da província do pré-sal.
LOBBY
“A Constituição Brasileira e a própria
Lei do petróleo, a 9478/97 em seus artigos 3º e 21º, rezam que as reservas e
o produto da lavra do petróleo pertencem à União. O problema reside no
artigo 26º dessa Lei, fruto da intensa atuação do lobby internacional sobre
o Congresso Nacional e que gerou uma impropriedade jurídica. Esse artigo tem
que ser mudado, pois não tem cabimento a entrega do petróleo, já descoberto
e comprovado, para empresas estrangeiras produzirem, exportarem e pagarem ao
país apenas 45%. Muito mais do que os de US$ 8 trilhões que representam
estas reservas, o petróleo tem um valor estratégico incomensurável.
“Ante a gravidade dos fatos, só nos cabe
propor a V.Exa. suspender, incondicionalmente, todas as rodadas de
licitações das bacias sedimentares brasileiras, bem como enviar ao Congresso
Nacional a proposta de mudança do marco regulatório. Esse seu gesto, de
cunho estratégico, desnortearia as concorrentes da Petrobrás e anularia os
efeitos desse furto qualificado. Especialmente daquela ou daquelas que
tenham tido participação na presumível espionagem industrial sofrida pela
Petrobrás. É o gesto que acreditamos que o povo brasileiro espera de vossa
excelência.
Atenciosamente,
Heitor Manoel
Pereira
Presidente da
AEPET |