|
A ética de Carlos Lupi e a ‘ética’ dos banqueiros
ANTONIO NETO *
Contrariados com o fato de o Ministro do Trabalho e
Emprego, Carlos Lupi, manter-se, simultaneamente, à frente daquela Pasta e
da presidência de seu partido, setores da grande mídia resolveram voltar à
carga, dessa vez exibindo números que comprovariam o favorecimento de
entidades não-governamentais, vinculadas politicamente ao PDT, com a
destinação de farta verba pública.
Antes, no entanto, de qualquer esclarecimento, que,
certamente, o ministro prestará, no momento certo e oportuno, e a quem de
direito, é preciso identificar o pano de fundo dessa campanha contra Carlos
Lupi. Vamos nos lembrar, inicialmente, que a Comissão de Ética que pediu o
afastamento de Carlos Lupi, do Ministério ou do PDT, é presidida, vejam só,
pelo banqueiro Marcílio Marques Moreira, ex-ministro da Fazenda do governo
Collor e atual membro do Conselho de Administração da American BankNote,
empresa responsável pela confecção da carteira de trabalho no Brasil.
ESTARRECEDOR
Interessante notar que o parecer da Comissão de Ética foi
exarado logo depois de o ministro do Trabalho anunciar a intenção de
substituir a atual carteira por um cartão magnético, contrariando, dessa
forma, os interesses da empresa à qual serve Marcílio. Por esse serviço, ela
recebe, todos os anos, R$ 5 milhões dos cofres públicos. Fato, no mínimo,
estarrecedor para quem se coloca como paladino da ética.
Recentemente, em nota divulgada por todas as Centrais
Sindicais, tivemos a oportunidade de avaliar que “a decisão da Comissão de
Ética Pública está eivada de interesses políticos inconfessáveis, que se
apresentam em um momento em que as crescentes demandas dos trabalhadores
pautam e são objeto de negociações nas mais altas esferas da República, no
Governo Federal e no Congresso Nacional, as quais têm contado
invariavelmente com o apoio e o incentivo do Ministro do Trabalho e
Emprego”.
Vale lembrar, ainda, que Marcílio Marques Moreira integra
também os conselhos de empresas de grande porte, entre outras
transnacionais, o que, inevitável e obviamente, gera conflitos de
interesses, desabilitando-o a continuar como presidente em exercício de uma
instituição cujo objetivo é a defesa permanente da ética e da moralidade. O
próprio Ministro Carlos Lupi argumentou que “a Constituição garante a
existência dos partidos políticos e determina também que qualquer pessoa
para se eleger a cargos públicos pertença a um partido, de presidente da
República a vereador, portanto, se a Constituição me garante, como a
Comissão de Ética pode estar acima da Constituição?”, questionou.
O ministro ressaltou, ainda, que o presidente da comissão é
que está ferindo a ética, pois é membro do conselho de administração “de uma
empresa que tem contrato com o Ministério”. “Que interesses estão por trás
do conselheiro Marcílio? Ele não é só conselheiro da Comissão de Ética.
Quero saber quem está ferindo a ética, pois eu não pertenço a nenhum
conselho particular ou grupo privado”, afirmou. A decisão da Comissão de
Ética, tomada no dia 20 de dezembro passado, contrariou, inclusive, a
Advocacia Geral da União (AGU), que recomendou que o processo contra o
ministro fosse suspenso até que os advogados da União dessem um parecer
final sobre o assunto em janeiro. A sugestão da AGU não foi aceita por
Marcílio, que fez um estardalhaço contra o ministro do Trabalho, quando os
casos dessa instância vinculados à Presidência da República devem correr sob
sigilo, conforme decreto que criou a Comissão em 1999.
PRECEDENTES
E agora, no início do ano, o advogado-geral da União, José
Antonio Dias Toffoli, em seu despacho a uma consulta feita pelo ministro
Carlos Lupi, disse que do “ponto de vista estritamente jurídico”, em uma
análise preliminar, não há “nenhuma ilegalidade ou inconstitucionalidade” no
fato de ele dirigir o Ministério cumulativamente com o cargo de presidente
nacional do PDT. “Havendo, inclusive, precedentes na história recente do
País”, diz o despacho, contrariando a decisão da Comissão de Ética Pública.
O precedente diz respeito ao atual governador de Pernambuco, Eduardo Campos,
que, no primeiro mandato de Lula, acumulou as funções de ministro de Estado
da Ciência e Tecnologia e a presidência do PSB. Por essas e outras, é
necessário esclarecer bem os fatos e saber, de fato, quem está faltando com
a ética nesse episódio.
*É presidente da Central Geral dos Trabalhadores do
Brasil (CGTB)
|