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Fidel na capa da Veja: isto é
jornalismo?
Não,
nitidamente, não é jornalismo. Se alguém tinha alguma dúvida, a capa de Veja
desta semana (edição nº 2049, de 27/2/2008, reproduzida abaixo, é
esclarecedora: trata-se de um panfleto de direita e não uma revista
informativa. O jornalista Luis Nassif, que está escrevendo um dossiê sobre a
revista Veja em seu blog, é até gentil ao classificar de “jornalismo de
esgoto” o que é publicado na revistona mais vendida do país.
Na verdade, não há jornalismo algum ali, apenas um apanhado
de comentários e textos, muitos deles nitidamente ficcionais, sobre o que de
mais importante a ultra-direita considera ter ocorrido na semana. É, digamos
assim, uma revista de formação e não de informação – e muito bem feita, por
sinal.
Sem mencionar o conteúdo das “reportagens” internas, uma
rápida análise da capa desta edição é suficiente para provar o caráter da
revista. “Já vai tarde – o fim melancólico do ditador que isolou Cuba e
hipnotizou a esquerda durante 50 anos” é uma chamada e tanto. Bem, “Já vai
tarde” é o que pensa a família Civita e os muito bem pagos acólitos que
trabalham na árdua função de “editar” (editorializar seria mais preciso)
Veja.
Até aí, o script da ultra-direita caminha bem. “Fim
melancólico do ditador que isolou Cuba”, porém, já força um pouco a barra.
Primeiro, porque não há nada de melancólico na renúncia de Fidel. Ele soube
sair de cena, preparou a sua sucessão, continua escrevendo e divulgando as
suas idéias (bem mais lidas do que as da família Civita, é bom que se diga).
O que há de melancólico na troca de comando em Cuba? Ao contrário do que
certamente desejavam a família Civita e os cubanos de Miami, não houve
revolta popular contra o regime de Fidel e nem ele morreu no poder para que
pudessem dizer que em Cuba a presidência era vitalícia.
ESTUDO DE CASO
Em segundo lugar, não foi Fidel quem isolou Cuba, mas os
Estados Unidos da América – pátria dos Civita –, por meio do desumano
embargo que já dura décadas. Outra incorreção da chamada é dizer que Fidel
“hipnotizou” a esquerda mundial. Ora, trata-se apenas de uma figura de
linguagem ruim, pois a esquerda não foi “hipnotizada” por ninguém, ao
contrário, estava lutando ao lado de Fidel, como esteve do camarada Stálin,
por exemplo. A esquerda pode ter cometido erros, mas “hipnotizada” pelo
comandante, definitivamente não foi.
A cereja no bolo desta edição de Veja é a pequena foto do
presidente Lula no alto da capa, acima de Fidel e com pose de Superman.
“Popularidade – Lula surfa nos bons números do capitalismo brasileiro” é a
chamada que acompanha a imagem. Claro, trata-se de uma referência ao
excelente desempenho do presidente brasileiro na pesquisa CNT/Sensus
divulgada na semana passada. A revista já traz a explicação do aumento da
popularidade logo na capa, para não deixar dúvidas: é a “redenção” de Lula à
economia de mercado o que o faz o mais popular dos presidentes brasileiros
desde a redemocratização, a despeito da vergonhosa campanha da própria Veja
contra o presidente.
Ou seja, Lula é a esquerda que, domesticada, “deu certo”.
Embora também não tolere o governo do presidente-operário, o panfletão da
Abril deixa claro que, pelo menos até aqui, Lula e Fidel são diferentes.
Tudo somado, a edição de Veja desta semana devia ser
estudada não nos cursos de jornalismo, mas nos de publicidade. É um bom
jeito para os futuros marqueteiros dos futuros Malufs, Pittas e afins
aprenderem como vender gato por lebre. Isto, melhor do que Veja ninguém faz.
LUIZ ANTONIO MAGALHÃES |