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Mestre Hélder Câmara e o xadrez
nas belas crônicas de “Caíssa”
“Acredito, amigo leitor, que
estamos diante do melhor livro já escrito sobre xadrez no Brasil - ou, pelo
menos, do mais fascinante”
Um sábado, há algumas semanas, o
telefone soou e, do outro lado, estava o Mestre Internacional Hélder Câmara.
Hélder é uma lenda do xadrez
brasileiro, duas vezes campeão brasileiro (1963 e 1968), três vezes vice-campeão
(1964, 1966 e 1969), integrante da equipe brasileira nas Olimpíadas de Xadrez de
Lugano (1968), Siegen (1970), Nice (1974), La Valletta (1980), Tessalônica
(1984), e único teórico brasileiro a elaborar uma Defesa (as pretas, no xadrez,
empreendem a “defesa”, enquanto as brancas, que iniciam o jogo, empreendem a
“abertura”), a Defesa Câmara.
Porém, Hélder se distingue também
por outras características: é capaz de comentar com propriedade um romance de
Turgueniev ou de Graciliano, contar pitorescos casos que presenciou, fazer
agudas observações sobre os mais variados assuntos e fulminar os opressores de
nosso povo com a fúria dos justos. Em suma, é um humanista como poucos existiram
neste país.
Naquele sábado, combinamos
encontrar-nos no Centro Cultural São Paulo (“é o único lugar onde ainda se pode
jogar xadrez de graça nessa cidade”, disse ele). Apareci com minha mulher,
Sandra, e antes que o leitor se pergunte porque estou dizendo isso, notarei
apenas que o ambiente entre os jogadores no Centro Cultural era fundamentalmente
masculino – e a minha mulher não joga xadrez. Mas gostou muito – e não precisou
entender de xadrez para conversar com o mestre.
Hélder presenteou-me com seu livro
de crônicas, “Caíssa”. Eu não o conhecia. Nas três semanas seguintes, fiquei,
sempre que pude, agarrado ao livro. Acredito, amigo leitor, que estamos diante
do melhor livro já escrito sobre xadrez no Brasil - ou, pelo menos, do mais
fascinante. Hélder tem um talento especial para resumir complicados problemas
teóricos em frases lapidares. Como em Lenin – para citar outro enxadrista – este
é um talento que só têm aqueles com generosidade para transmitir ao próximo o
conhecimento que duramente conquistaram.
“Caíssa” é, antes de tudo, uma
obra-prima literária. Hélder, como já mencionei, é um homem culto – e sua
familiaridade com o tesouro cultural da Humanidade transparece luminosamente nas
páginas de “Caíssa”, num estilo enxuto, avesso à prolixidade e aos rococós de
linguagem.
O pior serviço já prestado ao
xadrez - ou, melhor, contra o xadrez - é a imagem, hoje corriqueira, de que
jogador de xadrez só pensa em xadrez. Há mesmo quem pense que o cérebro dos
adeptos desse jogo tem um formato especial: quadrado e dividido em 64 outros
quadrados, brancos e pretos alternadamente. E, honestamente, há quem justifique
essa imagem.
No entanto, Lenin, Stalin e Che
foram praticantes entusiasmados do xadrez, assim como, até hoje, Fidel – que até
jogou, em parceria com o então campeão mundial Tigran Petrosian, uma partida
contra Bobby Fischer (por sinal, Fischer perdeu a partida...).
Benjamin Franklin e o Cardeal
Richelieu também eram jogadores de xadrez, assim como Diderot, Einstein, Goethe,
Newton, Turgueniev, Cervantes, Rousseau, Tolstoy, Robespierre e Montaigne. No
Brasil, Machado de Assis foi um dos participantes do primeiro torneio de xadrez
acontecido no país, em 1880, e Guimarães Rosa era um aficionado desse nobre
jogo.
As crônicas de “Caíssa” foram
originalmente publicadas no “Diário Popular’, jornal que existia em São Paulo.
Publicamos hoje a crônica de abertura do livro. Assim, o leitor terá uma amostra
– e verá que não exageramos.
CARLOS LOPES
HÉLDER CÂMARA
O volume de torneios e de partidas
pelo mundo afora é muito grande, daí a dificuldade, a demora em responder
algumas das atenciosas cartas e outros tantos e-mails: (heldercamara@terra.com.br)
O sr. Paulo Bocco, de Praia
Grande, pergunta-nos sobre Caíssa e quer saber de que mito ou cultura provém
essa lendária figura tão citada e reverenciada por mim. Ou seja, ele quer uma
resposta que até hoje ninguém conseguiu formular satisfatoriamente sobre uma das
mais controversas questões da plurissecular história do xadrez.
Uma das mais interessantes
passagens bíblicas descreve Jesus sendo indagado acerca dos impostos taxados
pelos usurpadores romanos em Jerusalém. E Jesus, escandindo mais uma de suas
divinas parábolas, separava com precisão as coisas do espírito e da matéria: “A
Deus o que é de Deus; a César o que é de César”.
Há mais de 30 anos, eu publicava
um opúsculo mensal intitulado Cadernos de Xadrez, que trazia no seu expediente –
como espécie de subtítulo ou profissão de fé – uma paráfrase dessa bíblica
citação: “A Deus o que é de Deus; a Sessa o que é de Sessa”.
Sessa, segundo a lenda, seria o
filósofo brâmane que inventou o jogo de xadrez para distrair um entediado rajá.
E o rajá, maravilhado, não aceitou a obstinada recusa de Sessa em ser agraciado
e ordenou-lhe então que se fizesse um pedido material, fosse qual fosse, capaz
de recompensá-lo por tão espetacular e deslumbrante invento.
E aqui há uma outra parábola,
tanto velada quanto sutil: Sessa fez um pedido impossível de ser atendido, isto
é, nada pode comprar, superar ou sequer se comparar ao universo ilimitado do
jogo de xadrez.
Sessa pediu um grão de trigo pela
primeira casa do tabuleiro, dois pela segunda, quatro pela terceira e assim
sucessivamente, em ordem geométrica, até a 64° e última casa.
A quantidade de trigo que ele
pedira era equivalente a um cinturão com três metros de espessura em volta do
globo terrestre...
Com a demorada ocupação da
península ibérica na Idade Média pelos árabes, que nessa época dominavam
amplamente o incipiente xadrez mundial (o jogo de Sessa, a arte de Sessa), o
nome indiano de Sessa sofre ligeira mas significativa transformação para Sissa.
De Sissa para Cissa é um senão ortográfico. Depois, uma possível ou até
inevitável influência saxônica, e eis então uma questão fonética, o c convertido
em k, kissa. E assim, de corruptela em corruptela, encontramos finalmente o
nome, agora feminino, de nossa deusa suprema – Kaíssa.
O árbitro internacional e autor
enxadrístico espanhol Pablo Morán publicou na revista Ocho x Ocho (junho de
1989) um artigo pretendendo explicar a origem do nome Caíssa.
“Na verdade, não é uma deusa
clássica, mas sim uma criação literária do final do século 18, sem parentesco
algum com as divindades olímpicas consagradas pela Mitologia”.
E após tecer algumas considerações
sobre as nove Musas, filhas de Zeus e Mnemósine, ele situa a criação da jovem
musa Caíssa no ano de 1772.*
Morán explica então que Sir
William Jones (1746-1794), famoso orientalista inglês, quando ainda era
estudante de Oxford, publicou nesse ano de 1772 um poema intitulado Caíssa –
data em que esse nome aparece pela primeira vez.
No poema, Jones descreve Caíssa
como uma encantadora dríade (ou ninfa) que vive nos bosques da Trácia,
correspondente a um sítio na Grécia Antiga onde hoje é a Bulgária, na região dos
vales do Maritza e Tunya.
Depois de William Jones, um outro
inglês, jogador e periodista Petter Pratt registrou o nome Caíssa no seu livro
Studies of Chess, publicado em Londres, 1803. Posteriormente, mais um autor
inglês, George Walker, fez o mesmo em seu Chess and Chessplayers (Londres,
1950). Depois disso, o nome Caíssa adquiriu enorme popularidade nos países de
língua inglesa.
Na França, a popularidade do nome
Caíssa deveu-se principalmente aos artigos escritos sobre o tema por La
Bourdonnais, Mery, Saint Aimants e outros na La Palamède, a primeira revista do
mundo dedicada ao xadrez.
Entre a desocupação mourisca da
Espanha (1492) e o poema de Jones (1772), passaram-se quase três séculos, mas
não se pode esquecer de que muitos nomes permanecem indelevelmente na cultura
dos povos. E é oportuno lembrar também que a Espanha, depois de 1492, continuou
durante muito tempo como o maior centro enxadrístico do mundo. Paul Morphy
(1837-1884), por exemplo, era descendente direto de espanhóis, assim como José
Raul Capablanca (1888-1942). Só muito depois (século 20) é que apareceram os
eslavos.
Ou será que o nome Caíssa caiu do
céu? Se caiu do céu, então deve ter sido para abençoar o lar do meu amigo Dr.
Roberto Assumpção, que com sensibilidade e discernimento, batizou uma de suas
filhas com o nome de Caíssa. Além da homenagem à deusa de nossa arte, Assumpção
simplesmente adotou um nome raro e belíssimo, de que sua filha sempre poderá se
orgulhar.
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